São Paulo projeta hidroanel

Um estudo recém-divulgado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) propõe a construção de um hidroanel de 117 km de extensão, para desafogar o trânsito na cidade de São Paulo (SP). A proposta alia o transporte hidroviário a obras para tratamento de lixo, combate a enchentes, despoluição dos rios Tietê e Pinheiros, criação de parques e ampliação da capacidade de fornecimento de energia e água na Grande São Paulo (Valor Econômico, 1/04/2012).

O projeto do Hidroanel Metropolitano de São Paulo consiste em uma rede de vias navegáveis, composta pelos rios Titetê e Pinheiros, as represas Billings e Taiaçupeba, além de um canal artificial navegável, de 17 quilômetros de extensão, ligando as represas. A principal função do hidroanel seria o transporte de lixo e demais resíduos urbanos diversos (entulho de construção civil e lodo das estações de tratamento de esgoto, por exemplo).

Tais rejeitos seriam encaminhados a três pontos de destino, batizados no projeto de “triportos” – “tri” em referência à integração do modal hidroviário com o outros dois modais previstos nesses pontos, com o Rodoanel e o futuro Ferroanel. “O sistema tem como meta acabar em até 30 anos com os aterros sanitários e lixões da Região Metropolitana, já em vias de exaustão”, afirma Alexandre Delijaicov, professor da FAU e coordenador do grupo responsável pelo projeto.

Todavia, o hidroanel proposto também visa realizar o transporte de passageiros (com um total de 24 portos destinados a esta finalidade) e carga comercial, incluindo materiais de construção e hortifrutigranjeiros. De fato, a estrutura do hidroanel concebida pelos especialistas da FAU-USP é inspirada pelo exemplo de Paris, onde grande parte dos insumos da construção civil e de abastecimento das grandes redes de distribuição de alimentos da cidade circulam por meio das águas do rio Sena – contando, inclusive, com concreteiras em suas margens.

Segundo as estimativas de Alexandre Delijaicov, o total de investimentos necessários para a concretização do projeto gira em torno de R$ 3 bilhões, ao longo de 30 anos. Em termos comparativos, somente o custo do trecho Sul do Rodoanel foi orçado em R$ 3,6 bilhões. No estágio atual, o orçamento do hidroanel incluiria investimentos como a construção do canal para conexão das represas, lagos, áreas de manobra e 20 eclusas – obras a serem executadas, de modo a que o novo modal comece a funcionar em etapas.

Tais custos são, igualmente, irrisórios, quando comparados aos custos diretos e indiretos dos congestionamentos na capital paulista, que estudos da Fundação Getúlio Vargas e da Fundação Dom Cabral estimam na casa dos R$ 33-35 bilhões por ano.

Entretanto, além das soluções logísticas apresentadas pelo projeto do hidroanel, ele inclui ainda a construção de parques ao longo de sua extensão, sendo que três destes ficariam situados ao redor de lagos para dar vazão às cheias do Tietê e combate a enchentes, na Penha, São Miguel Paulista e Itaquaquecetuba.

Mas, seguramente, o principal impacto positivo do projeto hidroviário para a Grande São Paulo seria o desafogamento do hipercongestionado trânsito urbano da megalópole, com uma redução estimada em 440 mil viagens de caminhões por dia (apenas construção civil responde por mais de 26.000 viagens diárias). “Com o hidroanel, a estimada queda de pelo menos 10% nas viagens e no volume de cargas traria um impacto significativo para a qualidade do ar e do trânsito”, afirmou Frederico Bussinger, ex-diretor do Departamento Hidroviário da Secretaria Estadual de Logística e Transporte, que, em sua gestão, contratou o estudo agora divulgado pelos especialistas da USP.

Ainda que se encontre em estágio embrionário, a iniciativa é extremamente positiva e, para que prospere, é preciso que as lideranças paulistas de todos os setores da sociedade se mobilizem para implementá-la e retirá-la do papel.

One comment

  1. este projeto é realmente estruturante e muito bom para uma cidade que nao para de cresce e decisivo acredito para uma megalopole…

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