Sandy: “É a natureza, estúpido!”

A capa da revista Bloomberg Business Week de 1º. de novembro não deixa aos leitores margem a dúvidas, estampando em letras garrafais o título da matéria principal da edição: “É o aquecimento global, estúpido!”

O tema, claro, não poderia ser outro, senão a catastrófica passagem do furacão (ou supertempestade) Sandy pelo Caribe e a Costa Leste dos EUA, causando mais de 180 mortes, mais de 250 mil desabrigados e prejuízos superiores a 30 bilhões de dólares, na Jamaica, Haiti, República Dominicana, Cuba, Bahamas, Porto Rico e EUA. E o semanário econômico foi apenas um na barragem midiática que, nas últimas duas semanas, tem bombardeado leitores, espectadores e internautas, com mais essa alegada “evidência” das mudanças climáticas supostamente induzidas pelas atividades humanas. Em uníssono, uma sequência de manchetes bombásticas passou a disparar a mensagem de que eventos meteorológicos extremos, como Sandy, sejam resultantes das emissões de carbono dos combustíveis fósseis que respondem por mais de 80% da energia consumida no planeta. Vejamos uma pequena amostragem delas:

– The New Yorker, 29/10/2012: “Observando Sandy, ignorando as mudanças climáticas.”

– CNN, 30/10/2012: “Sandy nos recorda das mudanças climáticas e outros temas esquecidos na campanha.”

– Time, 30/10/2012: “Mudanças climáticas e Sandy: por que precisamos preparar-nos para um mundo mais quente.”

– The Guardian, 31/10/2012: “Sandy força as mudanças climáticas na eleição dos EUA, a despeito do lobby dos combustíveis fósseis.”

– New York Times, 1/11/2012: “Terão as mudanças climáticas alguma atenção, agora?”

– Bloomberg, 2/11/2012: “Ouvindo o furacão Sandy: o aquecimento global está aqui.”

– Discovery News, 7/11/2012: “Explicada a ligação do furacão com as mudanças climáticas.”

Em paralelo, autoridades como o governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, também se apressaram em atribuir os efeitos supostamente ampliados da passagem de Sandy às mudanças climáticas. “Tem ocorrido uma série de eventos meteorológicos extremos… Eu acho que qualquer um que diga que não há uma mudança dramática nos padrões do tempo, está negando a realidade”, disse ele (AFP, 30/10/2012).

Para os ambientalistas, como seria previsível, Sandy proporcionou uma oportunidade de ouro para uma tentativa de reversão do refluxo da percepção alarmista entre a população dos EUA e da Europa, constatada em várias enquetes de opinião pública.

O ex-vice-presidente estadunidense Al Gore, um dos paladinos internacionais do “aquecimentismo”, não perdeu tempo em se manifestar em seu blog (30/10/2012): “O furacão Sandy é um perturbador sinal das coisas que virão. Devemos prestar atenção nesta advertência e atuar rapidamente, para resolver a crise climática. Energia suja provoca um tempo sujo.”

O diretor-executivo do Greeenpeace International, Kumi Naidoo, instou o recém-reeleito presidente Barack Obama a agir seriamente para enfrentar as mudanças climáticas: “Sandy foi uma advertência das mudanças climáticas. Agora, Obama deve ocupar o palco e concretizar as promessas de esperança de que o mundo precisa (Daily Telegraph, 7/11/2012).”

Em uma bombástica e amplamente divulgada entrevista à jornalista Amy Goodman, do sítio Democracy Now (30/10/2012), o hiperativo ativista Bill McKibben, um dos fundadores da campanha 350.org (cujo objetivo é reduzir as concentrações de dióxido de carbono atmosférico, dos atuais 392 ppm para 350 ppm), disparou a sandice que, desafortunadamente, ficou nas mentes de um grande número de pessoas:

(…) esta é uma tempestade de proporções realmente históricas. É, realmente, algo que nunca havíamos visto antes… É – é um monstro. É – Frankenstorm [corruptela de “Frankenstein” e “storm”, tempestade em inglês – n.e.], francamente, não é um nome de efeito; de várias maneiras, é o nome certo para ela… E também é realmente importante que todo mundo, até mesmo quem não está no caminho dessa tempestade, reflita sobre o que significa que, no mês mais quente na história dos EUA, quando vimos o mês mais quente de qualquer mês da história dos EUA, julho, num ano em que vimos, essencialmente, o gelo de verão no Ártico, simplesmente, desaparecer sob os nossos olhos, o que significa que estejamos vendo, agora, tempestades com essa magnitude sem precedentes. Se já existiu algum sinal de advertência, este é ele.

Não obstante, a despeito dos enormes estragos, o fato é que Sandy não representa qualquer anormalidade meteorológica. Para começar, quando aportou no litoral dos EUA, mal se enquadrava na categoria 1 da Escala Saffir-Simpson de intensidade de furacões, que tem cinco níveis; embora tenha atingido a categoria 1 durante a sua passagem pelo Caribe, em território estadunidense, a classificação mais correta é a de tempestade tropical. E, sobre as proporções corretas de Sandy, recorremos às lúcidas observações do Dr. Roger Pielke Jr., professor de Estudos Ambientais da Universidade do Colorado em Boulder. Em seu blog, em 30 de outubro, ele informa que Sandy fica em 10º. lugar quanto aos prejuízos materiais causados por furacões e grandes tempestades nos EUA (após os ocorridos em 1926, 1900, 1915, 2005, 1992, 1944, 1960, 1938 e 1928). O gráfico abaixo, que já inclui Sandy, ajuda a colocar os fatos na devida perspectiva.

 

Fonte: http://rogerpielkejr.blogspot.com, 1/11/2012.

O gráfico seguinte, referente à energia acumulada dos ciclones tropicais (ACE, na sigla em inglês), no período entre 1972 e outubro de 2012, demonstra que, nas últimas quatro décadas, não ocorreu qualquer intensificação das tempestades e furacões, nem no Hemisfério Norte, nem no planeta como um todo. Ao contrário, observa-se um pico de energias em meados da década de 1990, com um pico mais baixo, em meados da década passada, e um firme declínio, desde então.

Fonte: Ryan N. Maue, 31/10/2012.

Em um artigo publicado no Wall Street Journal, no dia seguinte, o Dr. Pielke afirma:

Embora o fato raramente seja mencionado na mídia, os EUA se encontram, atualmente, em uma prolongada e intensa “seca” de furacões. O último de categoria 3 ou superior que chegou ao continente foi o Wilma, em 2005. Os mais de sete anos decorridos desde então representam o mais longo de tais períodos, em mais de um século. (…)

Então, por que os desastres de hoje, mesmo que sejam menos fisicamente poderosos que os anteriores, têm causado tais custos financeiros elevadíssimos? Uma razão: há mais gente e mais riqueza nas áreas de risco. Em parte, isto se deve às políticas de uso do solo e, parte, a incentivos como seguros subsidiados pelo governo, mas, principalmente, ao simples fato de que as pessoas gostam de viver na costa e perto de rios.
Ainda assim, com respeito aos desastres, nós, realmente, fazemos a nossa própria sorte. O número de fatalidades relativamente baixo causado por Sandy é um testemunho da história de sucesso do Serviço Nacional de Meteorologia dos EUA e dos esforços paralelos dos que enfatizam a preparação e as respostas de emergência, nos setores públicos e privados. (…)

Entretanto, o especialista faz uma séria advertência, que deveria ser destacada e mantida sempre à vista das autoridades, e não apenas nos EUA:

Mas a continuação do sucesso não está garantida. A resposta desordenada e as trágicas consequências associadas ao furacão Katrina nos mostram o que pode acontecer quando baixamos a guarda. E há indicações de que estamos preparando o palco para tornar piores os futuros desastres. Por exemplo, um programa de satélites polares crucial para a previsão meteorológica tem sido descrito… como um “programa disfuncional que se tornou um vexame nacional, devido aos problemas administrativos crônicos”… O mau gerenciamento do programa pode significar uma lacuna na cobertura de satélite e uma possível degradação das previsões.

Outro perigo: as discussões públicas sobre os riscos de desastres dominadas pelo lobby climático e seus aliados, que exploram cada evento extremo, para propor ações na política energética… Os humanos não afetam o sistema climático, e é realmente importante atuar na política energética – mas vincular política energética e desastres não tem sentido científico ou político. Não há sinais de que mudanças climáticas causadas pelo homem tenham aumentado a lista de fatalidades dos desastres recentes, como registra até mesmo o mais recente relatório sobre eventos extremos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). E, até mesmo usando os pressupostos do IPCC, mudanças nas políticas energéticas não teriam qualquer impacto discernível nos futuros desastres. (…)

As únicas estratégias que nos ajudarão, efetivamente, a preparar-nos para os futuros desastres são aquelas que têm sido bem sucedidas no passado: uso estratégico da terra, proteção estrutural e prognósticos, alertas e evacuações efetivos. Esta é a lição real de Sandy.

No Brasil, que ainda não dispõe sequer de um satélite meteorológico próprio, cuja rede de estações meteorológicas é subdimensionada e mal distribuída pelo território nacional, e onde muitos dos registros meteorológicos históricos sequer foram digitalizados e centralizados, as autoridades governamentais, sempre dispostas a assumir compromissos politicamente corretos sobre medidas para combater o aquecimento global, fariam muito bem em prestar atenção às palavras do cientista estadunidense.

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