Onde foi parar o aquecimento global?

A revista alemã Der Spiegel, o mais importante semanário do país, sempre foi uma das principais divulgadoras europeias dos cenários alarmistas sobre as mudanças climáticas. Por isso, quando o seu editor de Ciências escreve um artigo sobre a perplexidade de alguns cientistas diante da falta de correspondência entre os prognósticos dos modelos climáticos e os fatos observados no mundo real, convém prestar atenção.

O artigo do jornalista Alex Bojanowski, publicado na edição online da revista, em 18 de janeiro tem o emblemático título “Pesquisadores confusos sobre calmaria no aquecimento global”. O autor é um dos ases do corpo editorial da revista, sendo detentor de um diploma de Geologia, tendo trabalhado na Áustria, Suíça e Reino Unido, além de ser também colunista da revista científica Nature Geoscience, que publica regularmente artigos sobre temas climáticos.

O texto de Bojanowski trata das repercussões do fato amplamente reconhecido de que as temperaturas globais deixaram de subir desde 1998, a despeito de as emissões de carbono provenientes dos combustíveis fósseis continuarem a subir e as concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera continuarem aumentando. No lide, ele sintetiza as questões fundamentais:

Quão dramático é, de fato, o aquecimento global? Pesquisadores da NASA têm demonstrado que o aumento das temperaturas fez uma pausa de 15 anos. Existem várias explicações plausíveis de por que o aquecimento global se interrompeu. Entrentanto, o número de palpites também mostra quão pouco se entende o clima.

Em seguida, vai ao cerne do problema:

(…) Há algum tempo, é de conhecimento público que o clima tem se comportado de forma diferente do previsto [pelos modelos climáticos – GLL]. O aquecimento está estagnado há 15 anos; a tendência de alta nas temperaturas médias globais não tem prosseguido desde 1998. “A parada tem gerado a sugestão de que o aquecimento global se interrompeu”, admite a NASA.

Recentemente, o Serviço de Meteorologia britânico [Met Office] prognosticou que a interrupção no aquecimento poderá continuar até o final de 2017 – a despeito do rápido aumento nas emissões de gases de efeito estufa. Então, o aquecimento global terá se interrompido por 20 anos. Quantos anos – é uma pergunta agora comum – a calmaria de temperaturas terá que durar para que os cientistas climáticos comecem a reconsiderar os seus prognósticos de aquecimento futuro? (…)

Ele mesmo chega à conclusão óbvia:

Agora, temos 15 anos sem aquecimento. A estagnação das temperaturas superficiais médias globais demonstra que as incertezas nos prognósticos climáticos são surpreendentemente grandes. Agora, o público aguarda em suspense para ver se o próximo relatório do IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], que deverá sair em setembro, irá discutir a pausa no aquecimento. (…)

Bojanowski passa, então, a discutir algumas das explicações apresentadas para o aparente “sumiço” do aquecimento global: absorção de calor pelos oceanos; redução da umidade da estratosfera; efeito das emissões de gases na Ásia; e resfriamento do Oceano Pacífico.

Para seu crédito, ele destaca que até mesmo o IPCC admite um conhecimento limitado sobre certos fatores intervenientes na dinâmica climática:

– a influência da radiação solar na formação de nuvens;

– o ciclo da água: em particular, a influência do vapor d’água, um gás de efeito estufa [na verdade, o principal], nas temperaturas;

– o efeito das partículas emitidas pela indústria, aquecimento e veículos, oceanos, vulcões e solos: as partículas servem como núcleos de formação de nuvens. (…)

Em contraste com as evidências físicas reais, Bojanowski apresenta o único argumento que resta aos “aquecimentistas”:

Os pesquisadores têm mais confiança nos prognósticos de longo prazo. Estes prognósticos se baseiam, essencialmente, no efeito estufa do CO2, a assim chamada sensibilidade climática. Numerosos estudos mostram que uma duplicação da quantidade de CO2 na atmosfera, devido ao aumento da formação de vapor d’água [sic], provavelmente, levará a um aquecimento entre 2 e 4,5 graus centígrados.

O artigo de Bojanowski (que parece ter esquecido o que aprendeu no curso de Geologia sobre as mudanças climáticas do passado geológico) reflete a perplexidade que se espalha entre os meios científicos, empresariais, ativistas ambientais, governos e mídia europeus, diante do cada vez mais evidente descompasso entre os cenários “aquecimentistas” e a dinâmica climática. Ironicamente, enquanto o aquecimento global tira férias, aumenta a preocupação dos círculos de interesses que gravitam ao redor desse cenário anticientífico, com a preservação dos múltiplos benefícios que têm extraído dele, na casa das centenas de bilhões de dólares, distribuídos entre o mercado de créditos de carbono, equipamentos e serviços de seqüestro e captura de carbono, mecanismos de “desenvolvimento limpo”, verbas de pesquisa, conclaves internacionais e uma vasta coleção de et cetera. Quiçá, se as temperaturas continuarem se recusando a subir, nos próximos anos, grande parte desses círculos terá que procurar atividades mais sintonizadas com o mundo real, tanto em termos científicos como econômicos.

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