“O Globo” defende barragens de usos múltiplos

As Organizações Globo têm um comportamento um tanto bipolar em relação aos assuntos ambientais. De um lado, os seus veículos midiáticos se alinham entre os principais divulgadores da ladainha do aquecimento global supostamente causado pelo homem. De outro, o jornal O Globo tem dado um importante apoio à energia nuclear e à necessidade de se retomarem os projetos hidrelétricos com grandes reservatórios, tema que também passou a receber a atenção da revista Época. Isto, enquanto a Rede Globo de Televisão libera os seus artistas contratados para participar de virulentas campanhas contra a usina hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu.

No lado positivo, merece destaque um editorial do jornal publicado em 19 de novembro, intitulado “Brasil precisa pensar em hidrelétricas com múltiplas funções”. Além de destacar a sua condição de fonte renovável, o texto afirma que as barragens das usinas hidrelétricas têm funções adicionais à geração de eletricidade, como a regularização da vazão dos rios, a prevenção de cheias e a viabilização da navegação fluvial para transporte de bens e pessoas (desde que as barragens tenham eclusas). Apesar disto, observa o texto, “as hidrelétricas passaram a ser estigmatizadas no Brasil, embora proporcionem mais impactos positivos, sejam econômicos, sociais e ambientais, que negativos”.

Em outro trecho, o editorial critica a virtual abolição de novos projetos hidrelétricos com grandes reservatórios e a sua substituição pelas usinas chamadas “a fio d’água”, que operam com a vazão natural dos rios – e, portanto, não têm capacidade para armazenar água para períodos de estiagem.

O texto observa que os projetos hidrelétricos têm proporcionado uma experiência “transformadora” na Região Amazônica, com contrapartidas sociais que “envolvem ampliação e reforma de escolas, hospitais, estradas, edificação de moradias e de redes de saneamento básico, além de criação de empregos e treinamento de mão de obra”. Para as populações da região, concluem os autores, “tanto melhor se essas barragens também fossem licenciadas de forma a multiplicar o número de hidrovias e evitar danos causados por cheias e secas”.

Além de saudar o empenho dos editorialistas, esperemos que mostrem a mesma disposição para defender a causa – até agora quase perdida – das eclusas. Em pleno século XXI, é inconcebível que, no Brasil, ainda se permita a construção de barragens sem eclusas nos rios navegáveis.

Sobre o mesmo tema, a revista Época de 19 de novembro traz um extenso artigo criticando a impopularidade atual dos grandes projetos hidrelétricos junto às correntes principais do movimento ambientalista brasileiro. O artigo, do editor-executivo Carlos Rydlewski (“A calúnia que matou as hidrelétricas”), destaca o contraste com a percepção pública sobre tais projetos no passado, quando eram motivos de orgulho nacional, com o que ocorre na atualidade, em que tais usinas são vistas tratadas, fundamentalmente, como ameaças ao meio ambiente. E destacou a causa de tal mudança de tratamento como sendo, “no mínimo, obscura”.

O autor afirma que, apesar das acusações mais comuns por parte dos ambientalistas, como o alagamento de extensas áreas, alterações provocadas em cursos de rios, emissão de grandes quantidades de metano e outras, os aspectos negativos das hidrelétricas “sempre foram suplantados pelos positivos”. E criticou o fato de o lado negro da hidroeletricidade ser exacerbado, como se as ditas fontes “verdes”, como a eólica e a solar, fossem “donzelas ilibadas, com nível zero de emissão”.

Ele também destaca, como exemplo dos problemas das fontes “verdes”, a intermitência na geração das usinas eólicas, que sofrem com o caráter “instável e temperamental” dos ventos, fazendo com que só tenham chance na matriz energética brasileira como fonte complementar. Destacando que não existe “fonte perfeita”, Rydlewski afirma que as usinas hidrelétricas têm sido “jogadas sido jogadas no ostracismo sem direito de resposta”, e sem uma avaliação séria de suas características, bem como de suas vantagens e desvantagens frente às demais opções de geração de energia.

Sobre a adoção do modelo “a fio d’água”, adotado nas usinas de Belo Monte, Jirau e Santo Antônio (estas últimas, no rio Madeira), ele dá a palavra a especialistas como o professor Nivalde de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (GESEL), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para quem o País cometeu um erro estratégico ao optar por tal perfil de hidrelétricas: “Os críticos das grandes usinas podem ter boas intenções, mas desconhecem como funciona o sistema elétrico… Os reservatórios são fundamentais para garantir o abastecimento de energia nos períodos secos do ano.”

Um estudo recente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) revela a perda de capacidade de regulação do sistema elétrico brasileiro, em função da substituição dos grandes reservatórios pelas usinas a “fio d’água”, em associação com o crescimento do consumo de energia nos últimos anos. Segundo o documento, enquanto em 2001 a água armazenada nas usinas podia abastecer toda a rede do País (Sistema Integrado Nacional) por 6,27 meses, tal capacidade encolheu para 4,91 meses em 2012. Até 2021, tal capacidade encolherá para apenas 3,35 meses.

Diante de tais dados, o autor pergunta: “Quem vai cobrir esse buraco? A eólica, uma solução complementar? A solar com preço elevado e tecnologia que não largou a mamadeira? O gás de xisto, cuja exploração nem engatinha no Brasil? Com base no passado recente, é fácil cravar: a termelétrica.”

O jornalista conclui com uma observação precisa: “Sem as represas, as hidrelétricas não perdem a eficácia – perdem o sentido.”

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