Governo “amarela” diante do risco de racionamento

Depois de meses subestimando os riscos reais de um racionamento de eletricidade, o governo federal se rendeu às evidências apontadas por numerosos especialistas e admitiu, na semana passada, que já está aceso o “sinal amarelo” para o setor elétrico. “No sinal amarelo, estou analisando e acompanhando a estação chuvosa, pois todo mundo sabe que tivemos um mês de janeiro e fevereiro com baixíssimas afluências [chuvas] para os nossos reservatórios. Essa é a realidade que ocorre no Brasil”, declarou o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, após uma audiência na Câmara dos Deputados (Valor Econômico, 20/03/2014).

É a primeira vez que uma autoridade governamental reconhece que o abastecimento de eletricidade poderá ser comprometido, caso o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas do Sudeste e Centro-Oeste continue se reduzindo, devido às chuvas reduzidas dos últimos meses. Além disto, em um mês, o discurso oficial passou do “risco zero” de racionamento (como assegurou o ministro de Minas e Energia, Edson Lobão, em fevereiro) para o “sinal amarelo” de Zimmermann. No meio tempo, o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) já admitira, entre fevereiro e março, a elevação do risco, de “baixíssimo” para “baixo”.

Na ocasião, Zimmermann defendeu ainda o emprego das usinas termelétricas, não como margem de segurança para a geração hidrelétrica, mas como parte da expansão da própria geração de base da matriz brasileira. “Não se trata de térmicas de emergência, nem de térmicas de reserva. Foram térmicas que participaram de leilão e venderam energia para as distribuidoras”, assegurou. Segundo o secretário, a “tendência” é de que as usinas térmicas sigam funcionando até o final do ano, de modo a poupar as hidrelétricas, que enfrentam dificuldades com a queda no nível dos reservatórios. As termelétricas representam uma capacidade instalada de 20 mil MW.

Racionalidade racionada na política energética

Em artigo publicado na revista Carta Capital (17/03/2014), o diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético-Ilumina, Roberto Pereira D’Araújo, defendeu que o “verdadeiro racionamento brasileiro é o da razão”, ao apontar que a política energética tornou-se um mistério, após a adoção do atual modelo “livremercadista”, em 1995. Segundo ele, “sintomas adversos, que num país sério estancariam qualquer política, aqui não causam nem espanto”.

Um dos sintomas destacados é o fato de que a tarifa média brasileira está 80% mais cara do que a praticada em 1995, já descontada a inflação, e que, ainda assim, “não há diagnóstico sobre os motivos desse encarecimento e fica tudo por isso mesmo”. Além disto, o especialista apontou o que qualificou de “indícios doentios” do nosso modelo de setor elétrico: no nosso mercado livre, que reúne quase 30% da carga, “a diferença entre preços máximo e mínimo verificados ultrapassa 6.000%! Ou seja, nesse mercado é possível liquidar o MWh a R$ 12,00 ou a R$ 822,00. Essa situação não é encontrada em nenhum outro mercado do planeta. O que essa constatação causa? Nada!”.

D’Araujo criticou ainda os “fundamentalistas de mercado” do governo, que, associados a interesses setoriais, se recusam a reconhecer a incompatibilidade física da modelagem adotada no País para definir o preço da energia comercializada – modelo responsável pelo assombroso preço de R$ 822 por megawatt, que tem sido pago nestes meses de crise, que fatalmente será custeado pelos consumidores.

O Globo: fim de grandes reservatórios foi “tiro pela culatra”

Em editorial publicado em 21 de março (“Hidrelétricas sem reservatórios foram tiro pela culatra”), o jornal O Globo teceu críticas bastante pertinentes à decisão dos governos das últimas décadas, de abolir os grandes reservatórios nos projetos hidrelétricos em construção, apontando que tal medida errônea tem contribuído bastante para o crescente risco de racionamento que o País está enfrentando. Observando que, no passado, a acumulação de água permitia o planejamento da oferta de energia por até cinco anos à frente, o editorial destacou a diminuição desta margem, na medida em que se optava pelas hidrelétricas a “fio d’água”, chegando ao estado atual, em que a capacidade média de armazenamento dos reservatórios não ultrapassa cinco meses de consumo.

O jornal criticou tal decisão, ressaltando que o abandono dos grandes reservatórios deu-se em razão de critérios de proteção ambiental – e que, no entanto, a alternativa tem sido a construção de usinas térmicas, que são “bem mais caras e com impacto muito mais poluente”.

O texto admite:

A topografia muitas vezes ajuda a formação de reservatórios e esse é o caso dos vários existentes. Nas regiões mais planas, reservatórios podem ser menos profundos e se estender por vastas áreas, o que não se admite nos critérios de proteção ambiental. Esse foi o argumento que acabou prevalecendo no Brasil para se banir do cenário a construção de novas hidrelétricas com reservatórios de acumulação. Mas, se o propósito foi proteger o ambiente, o tiro saiu pela culatra, pois a alternativa tem sido construir usinas térmicas, bem mais caras e com impacto muito mais poluente.

Não deixa de ser irônico que o jornal das Organizações Globo tenha adotado tal posição, já manifestada em editoriais anteriores. Como é de domínio público, a família Marinho tem sido uma das mais ativas promotoras do radicalismo ambientalista no Brasil. O presidente do jornal, José Roberto Marinho, integra há mais de dez anos a diretoria do WWF-Brasil, uma das mais poderosas ONGs ambientalistas que opera o País, notória por suas campanhas contra grandes projetos de infraestrutura, inclusive as grandes hidrelétricas. De qualquer maneira, não deixa de ser meritória a posição do jornal em relação ao assunto.

x

Check Also

Aeromóvel + vontade política, revolução na mobilidade urbana

As duas fotos de trens abaixo não mostram modernos projetos ferroviários chineses. Elas foram feitas ...