Gigantes petroleiras desistem do gás de folhelhos nos EUA

Em iniciativas que devem servir para arrefecer o entusiasmo com as perspectivas do setor, as empresas petrolíferas Royal Dutch Shell e BP estão encerrando as suas atividades de exploração do gás de folhelhos (shale gas) nos EUA. Os motivos são reservas superestimadas e um rápido esgotamento de muitos poços, devido a problemas da tecnologia de exploração – para não mencionar os graves problemas ambientais (Alerta Científico e Ambiental, 18/07/2013 e 25/07/2013). As consequências foram prejuízos superiores a 3 bilhões de dólares, apenas para as duas gigantes.

Em entrevista ao jornal Financial Times, o executivo-chefe da Shell, Peter Voser, afirmou que a aposta maciça da empresa nos folhelhos estadunidenses será um dos maiores arrependimentos do seu mandato, que se encerra ao final do ano. Segundo ele, a Shell investiu mais de 24 bilhões de dólares no chamado gás não-convencional na América do Norte, empreitada que, em suas palavras, “não saiu exatamente como planejado”. Em agosto, depois de perfurar quase 200 poços cuja produção não atingiu os níveis esperados, a empresa anunciou uma depreciação de 2,1 bilhões de dólares nos seus ativos de folhelhos. Com isto, a intenção é livrar-se deles o mais rapidamente possível (Financial Times, 6/10/2013).

Por sua vez, a BP e a BP Group anunciaram prejuízos conjuntos de 2,3 bilhões de dólares, enquanto a canadense EcCana Company perdeu 2 bilhões de dólares (The Voice of Russia, 2/10/2013).

O analista-chefe da consultora UNIVER Capital Company, Dmitry Alexandrov, é categórico:

O surto de interesse no gás de folhelhos está claramente encerrado. Devido aos problemas do orçamento nos EUA, as companhias de produção de gás de folhelhos não devem esperar conseguir mais financiamento. Portanto, os depósitos de gás de folhelhos não são mais financeiramente atrativos. E, finalmente, os sítios que tinham custos favoráveis têm sido esgotados. Então, para levar adiante a produção de gás, ou eles têm que recorrer a um monte de perfurações adicionais ou questionar a produção de gás existente.

Se a implementação do orçamento for suave, muito provavelmente, a produção de gás começará a crescer novamente, mas não tão rapidamente que garanta exportações de gás, apenas para abastecer o mercado interno. Eu estou confiante de que os EUA não irão procurar reduzir os preços mundiais do gás nos próximos anos, devido à política estadunidense de reindustrialização. Não há como vender o seu próprio gás de folhelhos barato, seja para a Europa ou a Ásia.

Segundo Alexandrov, a maioria dos especialistas acredita que, na melhor das hipóteses, a produção de gás de folhelhos manterá os níveis do pico atingido em 2011.

Outro especialista, o diretor-geral da Fundação Nacional de Segurança Energética russa, Konstantin Simonov, adverte que países que têm apostado nos folhelhos, como a Polônia e a Ucrânia, deveriam prestar atenção à experiência estadunidense:

A Polônia perfurou um poço de gás de folhelhos no ano passado e o batizou como “Chama de esperança”. Mas a situação do projeto está piorando, em termos comerciais. O projeto não é econômico e as empresas estrangeiras, como a ExxonMobil, já começaram a se retirar dele. A situação é bastante parecida na Ucrânia, que pode, certamente, esperar alguns progressos técnicos, mas o seu projeto de gás de folhelhos, dificilmente, será um sucesso comercial, pelo menos não nos próximos dez anos.

A Ucrânia pretende iniciar a produção de gás de folhelhos em 2015, mas o Ministério de Energia e da Indústria de Carvão do país já anunciou que os custos de produção não serão conhecidos antes de dois anos, o que coloca ainda mais dúvidas sobre as perspectivas de que a produção não-convencional possa vir a contribuir significativamente para a redução da grande dependência das importações de gás da Rússia (expectativa compartilhada pela Polônia).

Curiosamente, o governo ucraniano acaba de anunciar um acordo para a exploração de gás natural convencional na costa do Mar Negro, com um consórcio internacional encabeçado pela Shell e a ExxonMobil (AFP, 26/09/2013).

No início de 2012, outra gigante petrolífera, a Chevron, já havia abandonado a exploração dos folhelhos nos EUA, por motivos semelhantes aos agora alegados pelas suas “irmãs”.

Nesse contexto, é no mínimo curioso que, enquanto as gigantes anglo-americanas (cuja ausência quase total no leilão do campo de Libra do pré-sal brasileiro foi tão lamentada) se retiram do setor, a Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) já fale em licitar a exploração dos folhelhos brasileiros. Em face das circunstâncias, é no mínimo medida de prudência aguardar um pouco mais pelo amadurecimento e a consolidação – ou não – da exploração dos hidrocarbonetos de folhelhos, para se decidir a liberá-la no País.

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