Fusão nuclear pode estar mais próxima do que se pensa

O desenvolvimento da fusão nuclear para a geração de eletricidade, como já é feito com os reatores de fissão nuclear, tem sido perseguido desde a década de 1950, até agora, sem sucesso. A maioria dos projetos em curso utiliza a tecnologia conhecida como tokamak, originada na antiga URSS, que emprega grandes eletroímãs para a geração de fortes campos magnéticos de forma toroidal (semelhante a um pneu), em cujo interior ocorrem as reações de fusão de isótopos de hidrogênio, com a liberação de energia. O problema é que, até hoje, nenhum deles conseguiu gerar mais energia que a consumida no processo. A mais importante dessas iniciativas é o Reator Termonuclear Experimental Internacional (ITER, na sigla em inglês), projeto multinacional sediado na França, que acaba de inaugurar o seu edifício sede e pretende iniciar as suas experiências em meados da década de 2020.

O ITER, que deverá consumir recursos da ordem de 15 bilhões de dólares, até 2020, será o maior tokamak já construído, pesando 23 mil toneladas e contido num prédio de 60 metros de altura. Segundo os planos de seus projetistas, ele deverá gerar 500 megawatts (MW) de forma sustentada, a partir de uma entrada de 50 MW, o que, se for obtido, demonstrará a viabilidade comercial da tecnologia (www.iter.org).

Entretanto, há outras iniciativas desenvolvidas a partir de tecnologias diferentes, que, se confirmadas, poderão não apenas antecipar a operacionalização da fusão nuclear como fonte de eletricidade, como também reduzir consideravelmente os seus custos. Uma delas foi apresentada na recente edição do fórum Solve For X da Google.

O fórum foi criado pela empresa como “um espaço para se discutir ideias tecnológicas radicais para solucionar os problemas globais”. No evento, realizado em 11 de fevereiro, o físico Charles Chase, do Programa de Desenvolvimento Avançado da Lockheed Martin (mais conhecido pela denominação “Skunk Works”), expôs o projeto de um reator de fusão compacto em que sua divisão está trabalhando.

Fiel ao estilo sigiloso da Skunk Works, Chase não deu muitos detalhes sobre a configuração do reator, afirmando apenas que ele se baseia em um método de confinamento do plasma no qual ocorre a reação nuclear, o qual assegura uma elevada proporção entre a pressão do plasma e a pressão do campo magnético. Segundo ele, o protótipo está sendo construído em um vaso cilíndrico de 1 metro de diâmetro por 2 m de comprimento, enquanto o reator comercial, cuja potência deverá ser da ordem de 100 MW, terá o dobro destas dimensões. Os planos prevêem que o protótipo deverá estar operacional até 2017 e um reator comercial deverá estar disponível até 2023.

A despeito da falta de detalhes, a proposta da Skunk Works não deve ser menosprezada, devido ao histórico de façanhas da divisão de projetos especiais da gigante aeroespacial estadunidense. Criada em 1943, quando a Lockheed Corporation ainda não havia se fundido com a Martin Marietta (em 1993), a divisão foi responsável por vários projetos de aeronaves militares revolucionárias, como os aviões-espiões U-2 e SR-71 Blackbird (que até hoje detém o recorde mundial oficial de velocidade para aviões tripulados), o caça-bombardeiro “invisível” F-117 Nighthawk, os caças de quinta geração F-22 Raptor e F-35 Lightning II, o drone RQ-170 Sentinel, entre outros.

A natureza ultra-secreta das atividades da Skunk Works (a divisão funciona física e administrativamente à parte do restante da empresa, sob estritas condições de segurança) tem dado origem a numerosos rumores de que seus cientistas e engenheiros estariam desenvolvendo tecnologias energéticas e de propulsão muito mais avançadas do que as empregadas atualmente pela indústria aeroespacial, no contexto dos chamados “programas negros” (black projects) da Força Aérea dos EUA, geralmente financiados com recursos extraorçamentários, sobre os quais o Congresso tem supervisão escassa ou nula.

Em março de 1993, Benjamin “Ben” Rich, que dirigiu a Skunk Works entre 1975 e 1991, proferiu uma rara conferência pública, na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), da qual foi aluno. Na ocasião, em meio a um relato geral sobre a história da divisão, ele fez confidências que deixaram perplexa a audiência, constituída por profissionais da indústria aeroespacial, acadêmicos, jornalistas, militares e oficiais de inteligência. Em seus comentários finais, enquanto mostrava um slide da concepção artística de uma aeronave de forma discóide, ele afirmou que a Skunk Works continuaria a desenvolver tecnologia de ponta, mas ninguém poderia prever aonde isto a levaria. E disse: “Nós já temos os meios de viajar entre as estrelas, mas essas tecnologias estão fechadas em projetos negros e seria preciso um ato de Deus para tirá-las de lá para beneficiar a humanidade. Qualquer coisa que vocês puderem imaginar, nós já sabemos como fazer.” E concluiu: “Nós já temos a tecnologia para levar o ET de volta para casa [uma referência ao célebre filme E.T., de Steven Spielberg – gll].”

Embora não tenha havido debate, após a conferência, Rich foi cercado por curiosos, que lhe pediram para esclarecer melhor as suas ousadas afirmativas. Um deles lhe perguntou como seria possível chegar às estrelas. Sua resposta foi: “Primeiro, você tem que entender que não vamos chegar lá usando propulsão química. Segundo, nós temos que desenvolver uma nova tecnologia de propulsão. O que temos que fazer é descobrir onde Einstein estava errado.”

Um dos presentes, o engenheiro aeroespacial Tom Keller, ex-funcionário da NASA, descreveu as suas impressões:

Minha impressão foi que, na Skunk Works, eles estavam procurando brechas no trabalho de Einstein, que lhes daria uma maneira de viajar até as estrelas e de volta, a velocidades ultraelevadas, mais rápidas que a luz. Eu interpretei que os comentários de Rich implicavam que os cientistas da Skunk Works haviam encontrado a tal brecha – e estavam construindo ou haviam construído uma nave para explorá-la (Mufon Journal, May 2010).

Embora tais implicações possam parecer ficção científica, Ben Rich (que morreu de câncer, em 1996) foi um dos mais respeitados engenheiros aeroespaciais estadunidenses e chefiava um grupo que, repetidas vezes, deu demonstrações de estar adiante das diretrizes tecnológicas convencionais da indústria. Sem que se precise tomá-las ao pé da letra, elas proporcionam uma boa visão sobre o espírito desbravador da Skunk Works. Por isso, quando a divisão da Lockheed Martin anuncia uma iniciativa inovadora na exploração da fusão nuclear, convém prestar bastante atenção. E, de preferência, no caso de países como o Brasil, tentar imitar os procedimentos “fora do convencional” que têm caracterizado a sua trajetória, para vasculhar caminhos alternativos para os problemas que, há décadas, têm embatucado os cientistas nucleares, para tratar de não ficar – muito – para trás, quando a fusão nuclear se tornar uma realidade.

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