Francisco pede um novo horizonte para o homem

A exortação apostólica Evangelii Gaudium (A alegria do Evangelho), publicada no final do ano passado pelo Papa Francisco, é um verdadeiro chamado ao engajamento de todo o mundo católico em uma nova “evangelização”. No documento, Francisco identificou os principais desafios enfrentados pelas sociedades contemporâneas e pediu por um vigoroso engajamento da Igreja Católica, de modo a moldar o futuro da humanidade. O modo de fazê-lo é pelo diálogo, a justiça social e a inclusão dos estratos da sociedade que estão sendo “marginalizados” e vitimizadas pelo sistema de “exclusão econômica”, às vezes também chamado “capitalismo predatório”.

O documento reflete sobre os diferentes impulsos dados pelo Sínodo dos Bispos ao longo dos últimos dois anos, em especial, o realizado em outubro de 2012, voltado para o debate sobre a nova evangelização, na qual a Igreja deve estar engajada. No evento, os bispos pediram por mais “missões” orientadas pela Igreja, que levem em conta as especificidades culturais e a situação das pessoas ao redor do mundo, tal como os sínodos de bispos da Ásia, África e América Latina já haviam pregado antes.

Uma das linhas principais do texto é o pedido pela integração dos pobres e excluídos, com o destaque de que a crise financeira em curso as ruas raízes em uma “crise antropológica”. Como observou o Pontífice, os novos fetichismos e as novas formas de capitalismo resultaram em uma situação em que a economia não tem uma face e deu as costas ao que deveria ser o seu principal objetivo: o próprio homem.

No terceiro capítulo, Francisco pede a “integração dos pobres”. No parágrafo 191, ele faz referências específicas a um documento publicado pelos bispos brasileiros, em abril de 2002: “Nós devemos ouvir o choro dos pobres, tal como os bispos brasileiros afirmaram. Precisamos colocar sobre os nossos ombros a cada dia a alegria e a esperança, a tristeza e o medo do povo brasileiro, especialmente a população que vive nos subúrbios marginalizados das cidades e do país – sem terra, sem moradia, sem pão e sem saúde, pessoas cujos direitos estão sendo violados. Quando vemos a sua miséria, ouvimos os seus gritos e vemos o seu sofrimento, ficamos indignados com o fato de que não há alimentos suficientes para eles, e que a fome é, em realidade, fruto da má distribuição dos bens e da renda (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, documento Exigências evangelistas e éticas da miséria e da fome, abril de 2002)”.

De acordo com o papa, uma economia que “sirva ao homem” deve ser baseada nos princípios da “dignidade humana”, do “bem comum”, da “subsidiaridade” e da “solidariedade”, os quais são válidos para todas as nações do mundo. O problema, todavia, é que muitos líderes políticos apenas falam retoricamente sobre a necessidade de justiça social e de dignidade humana. Estas são meras palavras que, em realidade, não significam muito para eles. Para aprofundar os aspectos-chave do que considera uma economia serva do homem, o papa elaborou quatro aspectos, que devem ser considerados como elementos centrais de sua exortação teológico-filosófica:

1) O tempo é mais importante do que o espaço. Está na noção de tempo, segundo o Pontífice, a bipolaridade entre “abundância” e “restrição”. O homem vive de momento em momento, mas há um horizonte, uma utopia, que abre para ele uma nova paisagem de tempo. Se vivermos de acordo com esse conceito de tempo, não estaremos sendo motivados pela esperança de encontrar resultados imediatos, mas aprenderemos a suportar e a superar situações difíceis com paciência (233). O tempo, então, transforma o espaço em um “processo” constante de desenvolvimento, uma cadeia progressiva. E isto cria uma nova dinâmica na sociedade.

2) A unidade se encontra em uma ordem superior ao conflito. Ao se envolver em conflitos, o homem, frequentemente, perde a perspectiva e se torna um prisioneiro. Apesar de os conflitos serem vistos como uma forma de solucionar divergências de alto nível e, com frequência, servirem como base para o nascimento de novas formas de comunidade, isto só ocorre sob a liderança de personalidades que olhem além do âmbito dos próprios conflitos em si mesmos.

3) “A realidade é mais importante que a ideia”. Ele menciona uma tensão bipolar entre a ideia e a realidade. Esta existe, assim como uma coisa, simplesmente, existe, enquanto a ideia é apenas elaborada. Portanto, deve haver um constante diálogo entre ambas, e um esforço por parte dos homens para que as ideias não se “desprendam” da realidade. Ele proporciona diversos exemplos, ao falar daqueles que, simplesmente, permanecem no nível das palavras, imagens e sofismas; e destacou que a ideia desprendida da realidade se torna “nominalista” (ou “idealista”), sem “gerar engajamento pessoal”.

4) “O todo é mais que as suas partes”. Os povos têm as suas culturas particulares e devem estar preparados para defendê-las. Isto significa que, ao reunir toda a humanidade, com o fim de torná-la uma comunidade de “bem comum”, essa comunidade será determinada pelo seu todo e por suas partes.

A nova forma de evangelização defendida pelo Papa é um chamado ao “engajamento pessoal” apaixonado, pelo diálogo entre as diferentes religiões, o Estado e a sociedade, a fé e a Ciência, crentes e não-crentes e as diversas camadas da sociedade.

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