Por que a estação antártica brasileira tem que ser reconstruída pelos chineses?

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A revista EU&Fim de Semana, suplemento do jornal Valor Econômico de 15 de maio, traz uma boa reportagem de capa sobre os trabalhos do Programa Antártico Brasileiro (Proantar). Como leitura mais amena, para fechar mais uma semana pontuada por calamidades e escândalos de todo tipo, é salutar saber que, apesar das recorrentes limitações orçamentárias, o Proantar vem sendo mantido desde o início da década de 1980, por sucessivos governos, como um programa de Estado, uma raridade em um país em que concepções estratégicas e de longo prazo costumam ser ignoradas pelos tomadores de decisões, principalmente, na esfera governamental.

Em entrevista à jornalista Monica Gugliano, o almirante Marcos Silva Rodrigues, chefe da Secretaria Interministerial para os Recursos do Mar (Secirm), responsável pelo gerenciamento do Proantar, afirmou:

A condição de nosso país de sétima nação mais próxima da região justifica plenamente as motivações geopolíticas, estratégicas e econômicas para os investimentos ali. Somos membros consultivos do tratado [Antártico, o que assegura direito a voz e voto nas decisões sobre a região]. Ainda não se encontrou uma fórmula de ocupar – se é que o continente será ocupado – ou de como explorar – se é que haverá alguma exploração. Mas, aconteça o que acontecer, o Brasil participará dessa decisão e sua posição é de que o continente é um patrimônio da humanidade e deve ser usado unicamente para pesquisas científicas que possam melhorar a vida no planeta.

O glaciologista Jefferson Cardia Simões, diretor do Centro Polar e Climático da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), endossa:

Hoje não basta ir à Antártica e ter um programa mal financiado, com metas de curto prazo. Há que se ter visão estratégica e tentar atrair os melhores cientistas para que esse programa seja forte. Então, esse programa tem um viés político. Não podemos negar a parte política na ação científica do Brasil na Antártica. Do ponto de vista da geopolítica, é até uma questão de “soft power”. É uma maneira de mostrar a envergadura do país dentro desse sistema. Na Antártica se medem forças com muita sutileza.

E os cientistas, militares e técnicos que atuam no Proantar fazem autênticos milagres com os escassos recursos dedicados ao programa. Em 2012, foram apenas R$ 10 milhões, fora os gastos da Marinha do Brasil (MB) e da Força Aérea Brasileira (FAB) com as operações de suporte logístico. Em 2014, apenas a MB gastou R$ 35 milhões com as operações dos navios oceanográficos Almirante Maximiano e Ary Rongel. O incêndio que destruiu a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), em 2012, obrigou o governo a ampliar a dotação do programa para reconstruir a base, sob risco de o Brasil se ver forçado a reduzir drasticamente a sua presença no continente antártico e, consequentemente, perder a condição de membro consultivo do Tratado Antártico.

Por isso, espera-se que a reconstrução da EACF seja iniciada prontamente, assim que seja definido o imbróglio judicial sobre a licitação internacional estabelecida para a empreitada. A vencedora foi a empresa chinesa CEIEC, uma megaempresa de engenharia com presença em mais de 120 países, que derrotou o consórcio brasileiro-chileno Ferreira Guedes/Tecnofast e a finlandesa OU FCR Finland, apresentando o menor preço – 99,6 milhões de dólares.

O novo desenho da EACF terá uma área total de 4.500 m2, com 18 laboratórios internos, sete unidades isoladas para pesquisas meteorológicas e atmosféricas, heliponto e um sistema de geração eólica, com capacidade para abrigar 64 pessoas. A expectativa é que a nova base esteja pronta em meados de 2018.

Porém, a pergunta que não quer calar é: por que foi preciso contratar uma empresa estrangeira para a construção? Certo, no ano passado, houve uma licitação apenas para empresas nacionais, que não se interessaram. Mas será que a engenharia militar nacional não estaria capacitada para a tarefa? Afinal, foi a própria MB que construiu a base original, em 1984, quando os engenheiros militares brasileiros não tinham qualquer experiência em construção em regiões polares. Não é possível que tenham desaprendido, nessas três décadas. Se os batalhões de engenharia do Exército podem e têm construído uma série de obras importantes em todo o País, por que os seus colegas navais não poderiam ser encarregados da empreitada? Possivelmente, sairia até mais barato que a estimativa inicial (que previa um orçamento máximo de 110,5 milhões de dólares) e não seria preciso dispender preciosas divisas, em um momento em que elas precisam ser economizadas.

Como se dizia no período pré-internet, cartas para a redação.

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