Energia nuclear contra inverno alemão

A violenta onda de frio que castiga a Europa, que já provocou a morte de mais de 600 pessoas, forçou os alemães a reverem a sua postura em relação à energia nuclear. Diante do abrupto crescimento da demanda por energia, para o aquecimento das residências, o país religou cinco das oito usinas nucleares desativadas no ano passado. A decisão revela a situação crítica do setor elétrico alemão, que sofreu com apagões em dezembro do ano passado e já vinha importando eletricidade da Áustria, França e República Checa, para conseguir atender à sua demanda, após o fechamento das usinas nucleares.

Menos de um ano após o anúncio de Angela Merkel de que a Alemanha estava abandonando a energia nuclear, determinando a desativação imediata de oito das 17 usinas nucleares do país, e estabelecendo que as restantes seriam desativadas entre os anos de 2015 e 2022, a chanceler alemã teve que voltar atrás, diante do (literalmente) frio impacto da realidade. Diante da terrível onda de frio, o controlador do sistema elétrico alemão Tennet determinou a reativação das nucleares como uma “medida preventiva” (PressTV, 9/02/2012).

A decisão da Alemanha de abandonar as nucleares se deu após o terremoto e o tsunami que atingiram o Japão no ano passado, que destruíram parcialmente a central nuclear de Fukushima, ocasionando a liberação de radioatividade no meio ambiente. Todavia, segundo estimativas da empresa alemã Siemens, se o país efetivamente seguir adiante em sua política de erradicar as suas usinas nucleares, substituindo-as por fontes como as eólicas e solares, terá que arcar com um custo de 1,7 trilhão de euros até 2030 (Reuters, 17/01/2012).

Apesar disso, grupos ambientalistas, como o Greenpeace, mantêm a sua campanha antinuclear no país e já qualificaram a decisão de reativar as usinas nucleares como uma “traição” e um sinal de debilidade diante do “lobby nuclear” (O Estado de S. Paulo, 9/02/2012). Ao que parece, talvez, o Greenpeace considere mais adequado ver os alemães congelando, mesmo diante do extremamente rigoroso inverno deste ano.

No continente, o frio fez o consumo de energia bater recordes, especialmente, na França, Espanha e Suíça. Dentre os casos mais graves está o da Bulgária: o país teve apagões em mais de 130 cidades na semana passada, e o Exército foi convocado para prestar assistência às populações mais vulneráveis, inclusive, na distribuição de alimentos. Na Sérvia, onde mais de 70 mil pessoas estão isoladas e as expectativas locais são de que o preço da energia terá novas altas históricas nos próximos dias. A Bolsa de Londres registrou sucessivas altas no preço do barril de petróleo por mais de oito dias consecutivos, na maior alta sequencial em três anos, fato agravado pela inconsequente aprovação das sanções europeias às importações de petróleo do Irã.

One comment

  1. O Greenpeace está no seu papel. O que está errado é reconhecer nas ONGs legitimidade suficiente para tomar decisões nacionais sobre temas que devem seguir os processos democráticos próprios de países livres e soberanos. Não posso imaginar um país, por exemplo o Brasil, tendo que abrir mão de seu programa nuclear por decisão de uma ONG, tomada em uma reunião de staff, digamos, em Londres. ONGs são parte importante do sistema democrático, mas estão longe de ser determinantes.

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