Contra o reducionismo psicofísico nas pesquisas do cérebro humano

O filósofo estadunidense Thomas Nagel é um polemista inato. Seu último livro, “Mente e Cosmos: por que a concepção materialista e neodarwinista da natureza é quase certamente falsa” (Mind and Cosmos – Why the materialist, Neo-Darwinian Conception of Nature is Almost Certainly False, Oxford University Press, ainda sem edição brasileira), publicado em 2012, é nada menos que uma luva atirada aos pés da grande maioria da comunidade científica. Nele, o professor da Universidade de Nova York não apenas questiona os atuais pilares da Ciência, como praticada nos últimos séculos, como expõe as vaidades de alguns dos seus protagonistas. Não admira que, numa resenha publicada no jornal The Guardian (4/01/2013), o jornalista Mark Vernon o tenha rotulado como “o mais desprezado livro sobre a Ciência”.

Qual o motivo de semelhante virulência? Nagel não pertence à vasta corrente que se digladia em torno dos conceitos de “criacionismo” e “desenho inteligente” (Intelligent Design, em inglês), ainda que tenha afirmado que certos questionamentos dos proponentes desta última corrente deveriam ser respondidos com mais seriedade. Ele se descreve como não religioso, mas, igualmente, enfatiza que foi a ortodoxia da altamente disseminada visão do mundo (no original, ele emprega a palavra alemã Weltanschaaung) do naturalismo, com a qual, supostamente, todos os fenômenos poderiam ser explicados, que o motivou a escrever o livro: “O meu alvo é um retrato do mundo abrangente e especulativo, desenvolvido a partir da extrapolação de algumas descobertas da Biologia, da Química e da Física – uma Weltanschaaung naturalista particular, que postula uma relação hierárquica entre os sujeitos daquelas ciências e a integralidade, em princípio, de uma explicação de tudo no universo, por meio da unificação.”

No tocante ao papel da consciência e da mente humanas, Nagel demonstra com seus argumentos, nem sempre de leitura fácil, que a questão não pode ser enfocada pelos métodos da seleção neodarwinista convencional: “O ponto de partida para o argumento é o fracasso do reducionismo psicofísico, uma posição na filosofia da mente que é grandemente motivada pela esperança de se demonstrar como as ciências físicas poderiam, em princípio, proporcionar uma teoria de tudo.”

A essa altura, ainda nas primeiras páginas do livro, o leitor é tentado a afirmar: até que enfim, um livro que coloca a consciência humana no centro das ciências da vida e não cai na armadilha do reducionismo psicofísico!

De diferentes pontos de vista, Nagel demonstra que tal característica especial do ser humano representa um princípio constituinte notável na história natural. Quando este autor estudava Medicina, nas décadas de 1960-1970, manifestava-se uma intensa discussão sobre o chamado “paralelismo psicofísico”, na determinação dos processos da consciência e autoconsciência humana. O triunfo do reducionismo psicofísico na pesquisa científica se mostra, por exemplo, no Projeto Cérebro Humano da União Europeia e na Iniciativa Cérebro (BRAIN) estadunidense, projetos que contam com financiamentos na casa dos bilhões de euros e dólares, cujos resultados, até agora, têm sido pífios (ver o artigo do autor, no Alerta Científico e Ambiental de 16/05/2013).

Na Alemanha, onde, uma década atrás, se faziam prognósticos um tanto exuberantes sobre as futuras possibilidades técnicas da neurociência, já se promove uma reavaliação crítica das evidências. Em um recente artigo publicado na revista Psychologieheute (3/2014), intitulado “Neurociência reflexiva”, um grupo de 15 destacados neurocientistas exige uma reavaliação da questão:

O que se necessita é uma nova imagem do homem, que tenha um fundamento científico. Ao nosso ver, o presente estado de coisas é um tanto desapontador. Estamos muito longe dos objetivos que foram vislumbrados inicialmente. E a razão para isto transcende em muito as dificuldades organizacionais e técnicas. De um lado, há os problemas referentes às debilidades da teoria da neurociência e, do outro, as pouco pensadas hipóteses e conceitos naturalistas. Isto dificulta sobremaneira o desejo de se construírem pontes sustentáveis para a Psicologia, a Filosofia e as Ciências Culturais.

Nagel se distancia das tentativas superficiais de se misturarem os insights e as façanhas científicas de Charles Darwin com as teorias altamente simplistas dos neodarwinistas atuais. Não obstante, as campanhas militantes do biólogo inglês Richard Dawkins o têm desafiado: “Quanto mais detalhes sabemos sobre as bases químicas da vida e a complexidade do código genético, menos crível se tornam os conceitos padrões históricos.” Ele complementa a observação, sugerindo aos interessados uma leitura de O relojoeiro cego, de Dawkins, para uma exposição clássica do tema.

Seria, realmente, desejável que, antes de prosseguir com os seus projetos de pesquisas, alguns pesquisadores sérios começassem a internalizar as críticas de Nagel, que nos trazem à mente o diálogo Parmênides de Platão. Há alguns anos, juntamente com minha esposa Elisabeth, participei de um seminário na Academia Evangélica de Tutzing, na qual tivemos a oportunidade de discutir com o físico e filósofo Carl Friedrich von Weizsäcker (1912-2007), sobre a sua visão dos desafios futuros das pesquisas fundamentais da Física. Sua resposta foi: há uma necessidade urgente de se reestudar novamente o Parmênides, para ele, uma pré-condição para se encontrar uma saída dos debates científicos estreitos da atualidade, quanto à Física. Certamente, a sugestão é ainda mais válida para as pesquisas sobre a consciência humana, os processos cognitivos e o funcionamento do cérebro.

Em seu diálogo, Platão leva a busca dialética pela verdade ao seu limite extremo, em diferentes níveis. Mesmo há 24 séculos após a elaboração da sua obra filosófica, que contém uma pletora de formulações instigantes sobre a questão do Uno e do Múltiplo, está claro que, sem este exercício mental e a consciência da importância deste diálogo, não haverá solução para os numerosos problemas não resolvidos sobre a natureza da mente e da consciência humanas e suas interações com as condições e processos físicos.

O trabalho de Thomas Nagel proporciona um bem-vindo arejamento a esta discussão crucial.

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