Academia da Juventude Cubano-Europeia em Hesse: um extraordinário encontro cultural

 

A violinista cubana Jenny Peña Campo com a orquestra jovem Academia Cubano-Europeia, no Festival de Música de Rheingau, Alemanha (foto Ansgar Klostermann)

A violinista cubana Jenny Peña Campo com a orquestra jovem Academia Cubano-Europeia, no Festival de Música de Rheingau, Alemanha (foto Ansgar Klostermann)

O 27° Festival de Música de Rheingau, realizado entre 18 e 28 de agosto, no estado federal alemão de Hesse, promoveu um importante encontro cultural no festival de música de verão que reúne anualmente alguns dos maiores artistas do mudo. Sob a direção do maestro alemão Thomas Hengelbrock, reuniu-se uma “Academia Cubano-Europeia” (CuE), com a finalidade de participar de vários workshops e ensaios de música de câmara, além de se apresentar no concerto final, no Wiesbaden Kurhaus, no dia 27. O programa incluiu, também, uma Noite Cubana com o grupo Soneros de Verdad, que proporcionou uma viva amostra da tradição musical cubana.

O trabalho da CuE foi organizado sob o patrocínio do ministro alemão das Relações Exteriores, Frank-Walter Steinmeier. Seguindo a abertura diplomática entre Cuba e os EUA, iniciada em dezembro de 2014, Steinmeier foi o primeiro ministro europeu de sua pasta a visitar Havana, em julho deste ano, para debater o futuro das relações Cuba-Alemanha.

Parte do programa musical da orquestra jovem da CuE – que reuniu 30 músicos cubanos e 30 europeus, vindos da Alemanha, França, Inglaterra e outros países – foi um intenso trabalho sobre a Sinfonia No. 4 em Ré Menor Opus 120, de Robert Schumann, e o Concerto para Violino No. 5 em Lá Maior K. 219, de Wolfgang Amadeus Mozart (com a participação da violinista alemã Arabella Steinbacher), além de obras de diversos compositores cubanos. Os músicos da CuE estudaram o programa musical sob a regência de diversos conferencistas, como os da Academia Balthasar Von Neumann , incluindo nomes como o clarinetista Florian Schüle, o violoncelista Pedro Abreu  e o maestro Thomas Hengelbrock.

Steinmeier qualificou a CuE como um “novo destaque no processo de intercâmbio cultural”. Em suas palavras, “eu não posso pensar em uma composição melhor para acompanhar a nova fase das relações entre a Alemanha e Cuba. Esse trabalho resume tudo de que nossa relação bilateral necessita: a empatia, o valor e a disposição de buscar um lugar comum”.

Por sua vez, Hengelbrock é diretor da Academia Balthasar Von Neumann há duas décadas e é regente titular da Orquestra Sinfônica NDR desde 2011. Tendo recebido o Prêmio Herbert Von Karajan 2015-2016, ele tem uma ampla experiência em performances com obras barrocas.

Em um painel de debates realizado no âmbito do festival, sob a moderação do radialista alemão Christopher Plass, o maestro teve a oportunidade de apresentar a história da CuE, um projeto que teve início há dois anos. Em 2013, ele foi convidado pela Universidade Mozarteum de Salzburg, para entrar em contato com o Instituto Superior de Artes da Universidade Cubana de Música (ISA-UCM), em Havana. Desde então, tem trabalhado com um grupo de estudantes universitários na capital cubana, ensaiando principalmente a Sinfonia No. 3 (Eroica) de Ludwig van Beethoven.

O regente alemão destacou o “paradoxo” com que se deparou em Cuba: “De um lado, encontrei músicos muito talentosos, mas, de outro, faltavam até os equipamentos mais básicos, como instrumentos adequados, por exemplo. Além disso, foi difícil manter a disciplina nos ensaios, pois nem todos os músicos podiam chegar a tempo, em razão de problemas no sistema de transporte cubano, que afetavam, em especial, aqueles que moravam fora de Havana.” No entanto, citando o poeta romântico alemão Novalis: “Onde existe o verdadeiro entusiasmo, você encontrará o melhor dos mundos.”

“Ainda vivemos em um mundo cheio de destruição, onde as pessoas deixam as suas casas e, para muitos, só há desesperança. É uma ilusão acreditar que nós, como músicos, podemos mudar esse mundo. No entanto, podemos mostrar (…) que a música é algo superior à fabricação de bombas”, disse ele.

Hengelbrock destacou que a música está ligada fortemente à questão da educação e do desenvolvimento da cultura humanista europeia. A música clássica europeia é hoje uma “herança cultural do mundo”. “Basta olhar ao redor do globo. Não apenas na Europa, mas também na Ásia, América Latina e no continente africano, mais e mais espaços para a música clássica têm sido construídos, porque as pessoas buscam por boa música”, afirmou. Por isso, a música é uma “língua universal”, que reúne “pessoas de diferentes religiões, culturas e cor de pele”.

O diretor do Festival de Música de Rheingau, Dr. Michael Hermann, que visitou Havana junto com Hengelbrock, em abril (“Fiquei impressionado com o povo e a alegria de viver de Havana… é uma das cidades mais belas do mundo”, disse), afirmou que o trabalho da CuE terá continuidade, e que uma nova edição do projeto está sendo planejada para 2017. Igualmente, ele destacou o generoso apoio dado ao projeto CuE por várias instituições alemãs, como o Instituto Goethe, a Wilhelm-Kempf-House, a Diocese de Limburg (onde a orquestra cubana ficou instalada), o Ministério das Relações Exteriores e o governo do estado de Hesse.

No painel, o empresário Jürgen Nicklaus, executivo-chefe da filial da empresa de gás Stefan Messer GmbH em Havana, afirmou que as grandes expectativas sobre a reabertura da diplomacia entre Cuba e os EUA não serão atingidas rapidamente. Ele destacou que o embargo econômico ainda existe, ainda que muitos cubanos já tenham começado a abrir pequenas empresas. A sua companhia, por exemplo, integra uma joint venture em Cuba, sendo responsável pela “produção de 97% do gás industrial consumido em Cuba”. Ele observou ainda que, em 1959, a economia cubana estava nas mãos dos Estados Unidos. Dos anos 1960 até 1990, 85% do comércio exterior cubano se deu com a extinta União Soviética e com os países do Leste Europeu. Todavia, entre 1991 e 1995, a ilha passou a sofrer grandes dificuldades econômicas, que só diminuíram graças à ajuda proporcionada pelo presidente venezuelano Hugo Chávez.

Hengelbrock, bem como a vice-diretora do ISA-UCM, Marilin Cruz, acreditam que Cuba encontrará o seu caminho, sem ter que seguir o modelo capitalista estadunidense e sem perder o melhor de sua identidade. O maestro destacou que Cuba é uma nação orgulhosa e autoconfiante, que está entre as nações latino-americanas de mais altos padrões educacionais, e elogiou o sistema de saúde cubano, que atende gratuitamente toda a população: “O ativo mais importante de Cuba é a educação de seu povo e das suas crianças.”

Para Hengelbrock, o impulso do CuE é a “motivação e a paixão”, que guia os artistas da orquestra em seu trabalho. Ele destacou o fato de que, durante o seu trabalho em Rheingau, mesmo depois de dez horas de ensaios, muitos artistas cubanos não pararam de ensaiar, mesmo depois do jantar. A violinista Jenny Peña Campo observou que a experiência mais importante proporcionada pela CuE foi o encontro cultural entre Cuba e a Europa, entre a musica cubana, fortemente ritmada, e a música clássica europeia.

Hengelbrock concluiu: “A cultura desconhece fronteiras (…). Precisamos cuidar dos jovens artistas da orquestra e treiná-los o suficientemente bem, para que possam ter a sua própria orquestra.”

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