Abuso de smartphones por crianças, fábrica de cretinos digitais

No final de outubro, a BBC World News publicou em vários idiomas uma interessante entrevista com o conhecido neurocientista francês Prof. Michel Desmurget, diretor de Pesquisas do Instituto Nacional de Saúde da França e autor do livro “A fábrica de cretinos digitais” (La fabrique du crétin digital), best-seller em seu país no ano passado. O livro se baseia em amplas publicações científicas e usa material de centros de pesquisa como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e a Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. (A versão em português da entrevista, intitulada “‘Geração digital’: por que, pela 1ª vez, filhos têm QI inferior ao dos pais”, encontra-se neste link.)

Desmurget alerta para o uso excessivo de dispositivos digitais nas escolas e, também, no tempo livre das crianças, prevendo basicamente um colapso do quociente de inteligência (QI) nas próximas gerações, além de uma diminuição das habilidades linguísticas e criativas. Os seus argumentos coincidem com as pesquisas do psiquiatra alemão Manfred Spitzer, diretor médico do Hospital Universitário de Ulm, autor de outro livro instigante, “Demência digital: como destruímos a mente de nossos filhos” (Digitale Demenz: Wie wir uns und unsere Kinder um den Verstand bringen, Droemer, 2012). Nele, com base na sua experiência profissional com jovens viciados no uso excessivo de videogames, demonstra que o tempo gasto com jogos de computador e navegação na Internet não apenas aumentou dramaticamente, mas esses jovens vivenciam o que Spitzer chamou “demência digital”, termo que descreve as consequências do uso excessivo de tecnologia digital na educação.

Como Spitzer documentou também em outro livro, “Doença cibernética: como a vida digital está arruinando a nossa saúde” (Cyberkrank! Wie das digitalisierte Leben unsere Gesundheit ruiniert, Droemer, 2015), nos Estados Unidos, os jovens passam mais tempo engajados com a mídia digital (quase 7,5 horas por dia) do que dormindo. Igualmente, ele demonstrou que o uso do computador na primeira infância, no jardim de infância e nas escolas primárias, gera deficiências na leitura e, muitas vezes, promove o isolamento social. Além disto, afirma que o grande impulso para a “googleficação” no processo educativo tem a ver com a busca por lucros cada vez maiores das empresas gigantes de tecnologia de informação, como Apple, Facebook e Google, as quais, a propósito, estão promovendo a ideia de que a pandemia global de Covid-19 sinaliza que o futuro da educação está na pressão por mais digitalização.

A verdade paradoxal da questão é que, atualmente – e esta autora é testemunha ocular –, não há nada mais apreciado pelos alunos das escolas primárias e secundárias alemãs do que o ensino presencial direto, que se baseia no diálogo entre professores e alunos. Isto confirma o que Desmurget também afirma, ou seja, que a cognição humana e a aprendizagem profunda real não são equivalentes a um processo mecânico de aprendizagem de cor, mas remete à mentação criativa, e que a implantação em massa de tecnologia digital nas escolas tende a “impedir” a aprendizagem real em grande escala, além de bloquear o desenvolvimento da criatividade.

De acordo com Spitzer, nos Estados Unidos, as crianças começam a assistir televisão com uma idade média de nove meses e 90% de todas as crianças assistem televisão regularmente antes de completar dois anos. Em seu livro “Demência digital”, o Prof. Spitzer comparou crianças indianas educadas na antiga língua sânscrita com crianças expostas ao uso excessivo de computadores. Ele demonstrou que as crianças indianas têm uma “orientação diferenciada no espaço”, mesmo que o sânscrito seja uma língua “morta”, e esta linguagem muito rica no cérebro humano cria uma codificação diferente do espaço mental. Em uma palestra recente, Spitzer voltou a atacar o uso excessivo de smartphones e outras “ferramentas de tela” (tablets, IPads, TV etc.) por crianças e adolescentes. Referindo-se a vários estudos, demonstrou que o uso excessivo resultou em “miopia” (com grande probabilidade de que esta se desenvolva em cegueira). Segundo ele, a exposição constante ao uso de smartphones e a expectativa de receber mensagens constantemente leva a um vício real, comparável às drogas e ao álcool. De forma significativa, Spitzer iniciou a palestra citando um artigo de 1700 do filósofo alemão G.W. Leibniz, que, ressaltou, não tinha o nosso conhecimento sobre as estruturas cerebrais, conectividade, sinapses (e a capacidade de se ter certas imagens durante as atividades cerebrais). Mas Leibniz disse: “Muitas coisas estão acontecendo no cérebro, das quais não percebemos nada, por um lado, mas que têm um efeito claro, por outro. A soma dessa soma é chamada de pessoa.”
Na entrevista à BBC, Desmurget alerta sobre o abuso dos dispositivos digitais por parte dos jovens. “Simplesmente, não há desculpa para o que estamos fazendo com os nossos filhos e como estamos colocando o seu futuro e desenvolvimento em risco”, afirma. A evidência disto são os testes de QI, que, nos últimos anos, demonstraram que as gerações mais jovens são menos inteligentes do que as anteriores. Diz ele: “Os pesquisadores observaram, em muitas partes do mundo, que o QI aumentou de geração em geração. Isto foi chamado de ‘efeito Flynn’, em referência ao psicólogo americano que descreveu esse fenômeno. Mas essa tendência começou a se reverter, como se tornou visível em países como Noruega, Finlândia, Holanda ou França.” A perda da mentação criativa é evidenciada por um efeito prejudicial no uso da linguagem, na concentração, na memória e, mais amplamente, na cultura – ou seja, a maneira como organizamos e entendemos o mundo. De acordo com Desmurget, os nossos dispositivos digitais causam uma “diminuição na qualidade e quantidade das interações intrafamiliares, que são essenciais para o desenvolvimento da linguagem e da vida emocional”. Isto leva “a uma diminuição do tempo gasto em atividades enriquecedoras, como lições de casa, música, arte e leitura, além de causar distúrbios do sono e uma degradação qualitativa na capacidade de atenção para fazer um trabalho concentrado. Significa uma subestimulação intelectual que impede o cérebro de desenvolver todo o seu potencial”.

Além disso, Desmurget observa que “o tempo gasto diante da tela para fins recreativos retarda a maturação anatômica e funcional do cérebro e das faculdades cognitivas da linguagem”. Todavia, ele também ressalta que isso não significa que a “revolução digital” seja ruim e deva ser interrompida. Os alunos devem aprender habilidades e ferramentas básicas de informática, bem como os professores, usando-as como ferramentas relevantes por razões pedagógicas e o uso de determinados softwares promove efetivamente a transmissão de conhecimento.

O lado negro, de acordo com Desmurget, é que, em média, crianças de dois anos passam quase três horas por dia diante das telas, período que sobe para cinco horas aos oito anos e mais de sete horas, na adolescência. Ele conclui que as crianças, assim como os pais, devem ser mais bem informados sobre os perigos implícitos no uso de dispositivos digitais. Desmurget demonstra que as crianças que iam bem nas escolas tiveram quedas nas notas, meses após receberem videogames. Igualmente, crianças que não jogavam se recordavam de 80% das aulas, contra 50% entre as adeptas dos videogames. Para Desmurget, as crianças que gastam um tempo excessivo em atividades digitais “se parecem com aquelas crianças descritas por Aldous Huxley em seu famoso romance distópico Admirável mundo novo – crianças que são privadas de suas habilidades de linguagem, incapazes de refletir sobre o mundo e que se engajam em entretenimentos bobos”. Por outro lado, ele ressalta que já há uma formação de reação na Ásia: em Taiwan, assim como na China, novas legislações foram aprovadas impondo pesadas multas para os pais que exponham crianças menores de 24 meses a aplicativos digitais e que não limitem a exposição às telas às crianças entre dois e 18 anos, enquanto na China os adolescentes não podem mais brincar com games à noite ou exceder 90 minutos de exposição digital diária durante a semana, com 180 minutos nos fins de semana e durante as férias escolares.

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