ABEN: setor nuclear brasileiro precisa sair do imobilismo

O Brasil está “parado no tempo” em relação à energia nuclear e precisa sair já do imobilismo. O alerta é do novo presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), Carlos Henrique Mariz, que acaba de assumir o cargo, após o falecimento de Rogério Arcuri Filho, em maio, por complicações decorrentes da Covid-19.

Em entrevista publicada no sítio da entidade (08/06/2021), Mariz traça um panorama do setor e comenta a criação do Fórum Nuclear Já, iniciativa de seu antecessor, com o objetivo de promover discussões sobre a ampliação da geração nuclear na matriz energética brasileira. A seguir, publicamos os principais trechos da entrevista.

Qual a importância do Ministério de Minas e Energia (MME) ter sinalizado, no Plano Nacional de Energia (PNE) 2050, a necessidade de construção de oito a dez gigawatts (GW) de matriz nuclear?

O prazo de 30 anos contemplado pelo PNE 2050 pode parecer tranquilo, mas, na verdade, não é. São pelo menos oito novas usinas nucleares. Se tomarmos a decisão em 2021 de escolha de sítio, levaremos no mínimo dez anos para ter uma planta – cinco de projeto e licenciamento e cinco de construção. A China possui a meta de oito novas usinas por ano, mas a situação no Brasil é diferente. No último estudo de seleção de sítios, feito em 2009, foram analisadas 40 regiões, com dois sítios com análises mais intensas (Itacuruba/PE e Montes Claros/MG). Infelizmente, estamos parados no tempo. Comparemos com a Coreia do Sul, que começou a desenvolver seu programa nuclear junto conosco. Hoje, ela tem 24 usinas em operação e exporta reatores, como fizeram para os Emirados Árabes Unidos, onde forneceram quatro usinas, das quais uma já em funcionamento, outra em vias de entrar em operação e mais duas na sequência. O país também foi desenvolvido de modo geral, pois no rastro da construção de centrais nucleares há desenvolvimento social, tecnológico e econômico. O Brasil teve racionamento há 20 anos e agora poderá ter um novo, talvez até mais intenso, fora os apagões ocorridos nos últimos anos. Adicionalmente, o uso de mais térmicas, sobretudo que queimam óleo combustível, encarece o custo tarifário, ao ponto de o Brasil ser hoje o segundo colocado em termos de maior tarifa de eletricidade no mundo, apenas atrás da Alemanha.

O Brasil deveria aproveitar mais o fato de dominar completamente o ciclo do combustível nuclear e, simultaneamente, deter grandes reservas de urânio?

No passado, foi feito um imenso investimento em recursos humanos e em instalações, como a fábrica da Nuclep. Isso criou uma massa crítica de pessoas altamente qualificadas pensando em tecnologia e ciência. Não podemos deixar esse investimento ser perdido. Temos tecnologia de enriquecimento de urânio, que permite que fabriquemos nosso próprio combustível, temos urânio em abundância, temos a Indústrias Nucleares do Brasil (INB), operamos usinas nucleares, possuímos pessoal qualificado e temos um grande mercado de energia elétrica.

Que ações a ABEN pretende tomar no âmbito do Fórum Nuclear Já?

Temos que apoiar os programas do governo e acompanhar a seleção de sítios, bem como incentivar mesas-redondas e artigos em prol do Programa Nuclear Brasileiro (PNB), em articulação com a Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), da qual sou conselheiro. A viabilização de um bom programa nuclear passa também por uma boa estratégia de comunicação. Percebemos que ela ainda é muito precária no setor nuclear brasileiro. O pessoal da área sabe que a energia nuclear é a mais segura que existe e tem alto fator de capacidade, mas temos que mostrar à população o que de fato é essa energia. Ela é limpa e dá segurança ao sistema. Como ABEN, temos condições de movimentar, em paralelo com as empresas, a comunicação em nível nacional, pois isso facilita a aceitação pública.

Como enxerga os passos tomados pelo governo no sentido de flexibilizar o monopólio da energia nuclear?

Existem movimentações em torno de uma PEC [Proposta de Emenda Constitucional] que possa flexibilizar o monopólio, sobretudo na questão dos combustíveis, colocando o setor privado na comercialização do urânio no Brasil. Precisamos, também, incentivar um modelo que viabilize a vinda de capitais para cumprir as metas do PNE 2050. Se escolhermos agora um sítio para nova central nuclear, a referência seria 2032 para que a primeira usina pós-Angra 3 entre em operação. No caso de Angra 3, ela deixou de ser construída por questões políticas e não técnicas, deveria ter sido feita logo na sequência da “irmã” Angra 2. Felizmente, a Eletronuclear tem conduzido, com muita competência, os processos necessários para a sua retomada. As novas centrais podem caminhar em paralelo. Antigamente, construíamos várias hidrelétricas ao mesmo tempo. O setor nuclear é assim em vários países.

Qual análise faz do provável sítio de novas centrais de Itacuruba/PE?

A Eletronuclear desenvolveu um estudo entre 2009/2010 e encontrou bons sítios em Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe, aqui no Nordeste. A evolução no sítio de Itacuruba, particularmente, foi muito rápida. O governador do estado na época, Eduardo Campos, era grande incentivador do setor nuclear e nos apoiou. O sítio tem um potencial fantástico, seja pela topografia, fundação, proximidade de linha de transmissão ou logística. Fizemos missões técnicas, inclusive com um grande especialista, o engenheiro americano Paul Rizzo, que tem experiência vasta na área. Ele recomendou o sítio de Itacuruba por considerá-lo um excelente sítio nuclear. O Nordeste precisa de usinas nucleares para estabilizar o sistema elétrico, devido à grande intermitência das eólicas, e para prover energia de base de boa qualidade e quantidade, necessária para o desenvolvimento socioeconômico da região. É importante uma nova central no Nordeste. Assim como a maioria dos estados do Brasil, Pernambuco tem uma Constituição que veda usinas nucleares, mas não considero isso um impeditivo, basta acionar o STF, porque compete à União a determinação de locais de usinas nucleares no Brasil. Pernambuco abriga o Centro Regional de Ciências Nucleares do Nordeste (CRCN-NE), unidade da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) no Nordeste, administrada pelo professor Carlos Alberto Brayner, meu colega da Academia Pernambucana de Engenharia (APEENG); o Departamento de Energia Nuclear da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e até mesmo o Museu de Ciências Nucleares, que é comandado pela professora Helen Khoury, que faz parte da Diretoria da ABEN. Temos um pessoal altamente qualificado em Pernambuco.

O que acha das novas tecnologias de reatores nucleares de potência?

A tendência é que nossos novos reatores sejam de água pressurizada (PWR) da Geração III+ e/ou da próxima, a IV, que apresentam mais segurança. Existem vários bons fabricantes, como os russos (Rosatom), franceses (Framatome), americanos (Westinghouse e GE, caso reatores BWR sejam utilizados), chineses (CNNC, SPIC e CGN) e sul-coreanos (Kepco). Lembro também que os pequenos reatores modulares (SMRs) estão em franco desenvolvimento. Eles podem dar flexibilidade maior, sobretudo considerando a intermitência das fontes eólica e solar. Não podemos esquecer a questão do licenciamento, agora mesmo está sendo discutida a cisão da CNEN, com a criação da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN). É preciso que a Autoridade tenha a capacitação necessária para tocar esse grande programa que virá pela frente, bem como nas demais áreas da energia nuclear.

Quais outros desafios existem para o desenvolvimento de novas centrais nucleares, além da escolha de sítios e de tecnologia e formação e retenção de recursos humanos no setor?

Cadeia produtiva nacional. Temos que capacitar a indústria para fornecimento e, para isso, é necessário que façamos parcerias quando começar esse grande programa nuclear, assim como os chineses e coreanos fizeram. Não é só abrir vagas em universidades, mas motivar alunos, que vão ver horizonte no mercado de trabalho lá na frente. Com tudo isso caminhando junto, conseguimos levar o programa. O Brasil é uma grande nação, pois tem muitos recursos, não só naturais, mas também humanos. Fazer programas de Estado, para ter continuidade. Sobretudo na área nuclear, cujos empreendimentos são de longo prazo. O índice médio de consumo por habitante/ano de energia no Brasil é de 2.500 kWh. Existe grande relação entre IDH e eletricidade. Países desenvolvidos na faixa mais inferior estão na ordem de 6 mil kWh por habitante/ano. O Brasil precisa de energia para se desenvolver. Temos que sair do imobilismo em que fomos colocados no setor nuclear no Brasil, sobretudo expandir a nossa matriz com energia em abundância embasada nos três pilares fundamentais: segurança energética, segurança econômica e segurança ambiental.

(Imagem: Eletronuclear.)

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