Venezuela: militares brasileiros contra aventuras

Sem ruído, os militares brasileiros se posicionam como referências de sobriedade e lucidez em relação a certos temas delicados da política exterior, em especial, a crítica situação da Venezuela, em contraste com a incendiária e contraproducente retórica proveniente do Itamaraty e de alguns representantes do círculo íntimo do presidente Jair Bolsonaro.

A principal preocupação dos militares é o chanceler Ernesto Araújo, cujas manifestações públicas inflamadas sobre um alinhamento quase incondicional do Brasil com as orientações políticas dos EUA têm criado constrangimentos e não problemas para o País, em um momento crítico de mudança de época global e a ameaça real de um desfecho explosivo na Venezuela, presa entre o desespero de grande parte da população, um presidente disfuncional mas majoritariamente apoiado pelas Forças Armadas e uma oposição em grande medida alimentada por maquinações externas, em um cenário que lembra os alinhamentos da Guerra Fria (ver Resenha Estratégica, 30/01/2019).

Segundo a Folha de S. Paulo de 3 de fevereiro, os militares estariam exercendo uma virtual tutela sobre Araújo, principalmente, em relação ao tema Venezuela, com dois oficiais-generais conversando regularmente com ele, para “acompanhar os seus passos”. A decisão teria sido tomada logo no início do governo Bolsonaro, quando, em um encontro do Grupo de Lima no Peru, em 4 de janeiro, Araújo apoiou um documento que incluía uma decisão de suspensão da cooperação militar com o regime de Maduro. A iniciativa, tomada sem consulta ao Ministério da Defesa, irritou os militares, que, devido às suas relações com as suas contrapartes venezuelanas, recebem informações sobre a situação do país vizinho mais relevantes do que as oriundas de outras fontes.

O comunicado do Grupo também instava as Forças Armadas venezuelanas a se sublevarem contra Maduro e reconhecer o deputado Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, como presidente interino da Venezuela.

Da mesma forma, os militares ficaram contrariados com a sugestão do presidente e do chanceler sobre a eventual instalação de uma base militar dos EUA em território nacional, prontamente descartada pelo ministro da Defesa, general Fernando Azevedo e Silva.

Outro tema de preocupação é a propalada mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, promessa de campanha de Bolsonaro para agradar ao eleitorado evangélico, cujo descarte público foi confiado ao vice-presidente, general Hamilton Mourão.

A mais recente intervenção ocorreu após a visita de Araújo a Washington, onde reuniu-se com o secretário de Estado Mike Pompeo e o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton. Embora Araújo não tenha se pronunciado sobre as reuniões, o hiperbelicista “neoconservador” Bolton se manifestou via Twitter, afirmando que “a aliança EUA-Brasil está mais forte do que nunca” e revelando o “apoio mútuo ao presidente interino da Venezuela Guaidó”, com uma “logística para fornecer assistência humanitária ao povo venezuelano (Sputnik Brasil, 06/02/2019)”.

Como tanto Bolton como o presidente Donald Trump têm ventilado publicamente a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela (apesar de descartada pelo Pentágono, ciente da sua inviabilidade), suas palavras poderiam ser interpretadas como uma eventual adesão brasileira à tal “assistência humanitária”, que só poderia ocorrer pelos territórios do Brasil e/ou da Colômbia. De imediato, segundo O Estado de S. Paulo (06/02/2019), representantes do núcleo militar do governo manifestaram a objeção das Forças Armadas a qualquer iniciativa do gênero, não apenas pelas dificuldades logísticas, mas também pela possibilidade de incidentes graves envolvendo militares brasileiros em solo venezuelano, que abririam “um caminho sem volta na relação entre os dois países”.

O cientista político Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), comenta as idiossincrasias de Araújo e o papel “moderador” dos militares:

Nunca tivemos um chanceler brasileiro com um nível de entusiasmo com um líder político estrangeiro [referência à idolatria de Araújo por Trump – n.e.] em nenhum momento da nossa história (…). Quer dizer, se não houvesse essa pressão dos militares, sabe-se lá o que Araújo estaria fazendo, o que a política externa estaria fazendo hoje. Mas, sem dúvida, os militares estão fazendo valer um papel de moderação, de tentar conter as iniciativas mais truculentas do governo Bolsonaro na política externa. (…)

Claro que por razões ideológicas, pelo fato do governo Bolsonaro estar buscando uma aproximação enorme com os EUA, isso tem afetado a forma com que o Brasil tem respondido à crise na Venezuela. É um assunto muito difícil, um tema complicadíssimo, que deveria estar sendo pautado por uma enorme cautela, um enorme cuidado, e muitas vezes o que vemos é o Brasil entrando em um entusiasmo pueril com as declarações americanas, e isso é perigoso (Sputnik Brasil, 06/02/2019).

Como a maioria dos analistas, Santoro também não acredita em uma intervenção militar externa no país vizinho, mas diz que se ela ocorresse o Brasil não participaria:

Caso ela ocorra, ainda que o governo Bolsonaro tivesse essa intenção, de atrelar ao máximo o Brasil aos EUA, que a rejeição a uma intervenção deste tipo seria tão alta na América Latina que o Brasil acabaria ficando fora, mesmo com todo desejo do governo de ver algo desse tipo ocorrendo.

Anteriormente, o vice-presidente Mourão também já havia descartado qualquer possibilidade de participação brasileira em uma aventura semelhante.

Para Santoro, a atitude de Araújo em relação à crise venezuelana deverá ser determinante para a sua permanência à frente do Itamaraty, pelo menos no curto prazo:

Acho que tem duas possibilidades para ele: ou ele se torna uma figura mais moderada, mais próxima à essa visão dos militares, que possa trabalhar junto com o ministro da Economia [Paulo Guedes], ou eu acho que ele vai acabar sendo defenestrado. A gente já está vendo uma briga interna dentro do governo entre o Olavo de Carvalho, que afinal de contas é o padrinho político e ideológico do chanceler, e os militares, e uma briga com um nível de exaltação retórica muito alto, se xingando publicamente.

Apesar de rechaçarem qualquer interferência militar externa, os militares brasileiros deixam claro a sua oposição ao regime de Maduro. Em entrevista ao “Estadão”, o ministro da Secretaria de Governo, general Carlos Alberto dos Santos Cruz, afirmou que “a situação da Venezuela é resultado do desespero de um povo contra um governo que não responde a nenhum anseio da população”.
Perguntado se o Brasil poderia unir-se ao México e ao Uruguai, que tentam atuar como mediadores de um diálogo entre o governo de Maduro e a oposição, Cruz respondeu:

Isso aí não tem que raciocinar agora. Isso aí, o próprio povo venezuelano está reagindo. Então, existe um processo dentro do próprio país para a solução do problema. Tem de deixar as forças do país fazerem sua própria reação e receber o apoio devido institucional e político daqueles que estão apoiando essa mudança de situação na Venezuela para melhoria do povo venezuelano (O Estado de S. Paulo, 26/01/2019).

México: “Não defendemos Maduro nem o seu regime”

A despeito de, juntamente com o Uruguai, ter se posicionado contrário à atitude intervencionista do Grupo de Lima, o governo do México tem reiterado que não apoia Maduro, mas pretende apenas incentivar um diálogo entre as partes confrontadas, na busca de uma solução negociada para a crise venezuelana, que poderia até mesmo desembocar em uma guerra civil.

Em entrevista à rede Televisa, o chanceler mexicano, Marcelo Ebrard, foi categórico:

Não estamos respaldando o regime de Maduro, quero deixar isto bem claro, nós podemos ter muitas opiniões e gostaríamos de muitas coisas, mas não é o assunto, a pergunta é como podemos ser úteis para que um conflito que é sério, que está dividindo um povo irmão e que pode acabar em um enfrentamento, não ocorra. Esta é a pergunta que o México se tem feito e, por isso, temos uma posição favorável ao diálogo, que implica em que não se desconheça a nenhuma das partes que devem participar, porque se fazemos isto, então, não há diálogo (RT, 05/02/2019).

Em 7 de fevereiro, convocado pelo México e o Uruguai, reúne-se em Montevidéu o Grupo de Contato Internacional, coordenado pela União Europeia e integrado por 13 países europeus, latino-americanos e caribenhos, tentativa de estabelecimento de um diálogo entre as partes em confronto. O Brasil não reconhece o grupo, como faz questão de ressaltar o chanceler Araújo.

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