Um fantasma apavora “The Economist”

No ano em que completa 175 anos de existência, a influente revista britânica The Economist tem demonstrado uma grande inquietação com o visível desmoronamento do cenário de hegemonia global que ajudou a construir, desde meados do século XIX, em torno da supremacia financeira, militar e política e da influência ideológica do eixo anglo-americano. Em várias reportagens publicadas este ano, seus editores pedem socorro para salvar o que denominam o sistema de “democracia liberal”, sustentado no livre comércio e em uma visão do mundo utilitarista.

No início do ano, a edição de 25 de janeiro foi dedicada ao tema central “A próxima guerra: o crescente perigo de um conflito de grandes potências”. Nela, mostrava preocupação com a crescente assertividade da Rússia e da China, frente aos esforços dos EUA para assegurar a hegemonia unipolar desfrutada no período pós-Guerra Fria, e apresentava um virtual ultimato dirigido a todo o mundo: submeter-se indefinidamente a tal estrutura de poder ou correr o risco de uma Terceira Guerra Mundial.

“Se os EUA permitirem que a China e a Rússia estabeleçam hegemonias regionais, seja conscientemente ou porque as suas políticas são muito disfuncionais para formular uma resposta, lhes darão o sinal verde para perseguir os seus interesses pela força bruta. Quando isto foi tentado pela última vez, o resultado foi a Primeira Guerra Mundial”, afirma um dos textos da edição (Resenha Estratégica, 31/01/2018).

Em maio, a edição do dia 5 celebrou o bicentenário de nascimento de Karl Marx com um editorial intitulado “Governantes de todo o mundo, leiam Marx” (reproduzido na edição do jornal O Estado de S. Paulo, no dia seguinte), destacando a semelhança da descrição que Marx fazia do capitalismo selvagem do século XIX com os desmandos atuais causados pela globalização financeira, convertida em um cassino global.

O texto dirigia um apelo aos centros do poder econômico e financeiro, para que buscassem um analgésico para aliviar as dores causadas pelas injustiças da globalização financeira. Caso contrário, advertia, estas tenderiam a abrir caminho para a ascensão de regimes “populistas”, rótulo usado para qualificar qualquer esforço contrário à ordem estabelecida pelo eixo de poder anglo-americano. Portanto, a mensagem era a de manter o mundo confinado a uma falsa dicotomia como a vigente durante a Guerra Fria, entre o livre comércio ou o coletivismo marxista, sendo este substituído pelo “populismo”.

Já a edição de 13 de setembro, comemorativa do 175º aniversário, trouxe um editorial intitulado “Reinventando o liberalismo para o século 21” (reproduzido no “Estadão” do dia 17). O longo texto reforça a percepção de uma escalada do pânico do Establishment anglo-americano com o evidente desgaste da sua visão do mundo maniqueísta. “O liberalismo está sob ataque”, brada a revista:

O ataque é uma resposta à ascendência de pessoas identificadas por seus detratores… como elite liberal. A globalização do comércio mundial; índices de migração historicamente altos; e uma ordem liberal mundial com base na premissa dos Estados Unidos de projetar poder duro; são todas coisas que a elite vem procurando criar e sustentar. São coisas que a elite tem feito bem, congratulando-se por sua adaptabilidade e abertura a mudanças. Às vezes, elas beneficiaram apenas uma faixa menor da população; às vezes, se consolidaram às expensas dessa faixa.

Como “inimigos” dessa ordem liberal, a revista inclui os “políticos e movimentos populistas” e as “potências ascendentes”, destacando a Rússia e a China. Entre os primeiros, cita nominalmente o presidente estadunidense Donald Trump, o eurodeputado nacionalista britânico Nigel Farage, o Movimento 5 Estrelas italiano e o premier húngaro Viktor Orbán. Curiosamente, na semana seguinte, a revista dedicou a sua capa ao candidato presidencial Jair Bolsonaro, rotulando-o como “a mais nova ameaça à América Latina” e enquadrando-o entre os “populistas”, a cuja lista, além dos citados anteriormente (exceto Farage), acrescentou o brasileiro, o filipino Rodrigo Duterte, o italiano Matteo Salvini e o mexicano Andrés Manuel López Obrador. “Bolsonaro pode ser um acréscimo particularmente nefasto ao clube”, lamenta o texto.

Evidentemente, as políticas postas em prática por Trump, Orbán, Duterte e Salvini, embora expressem uma revolta contra o sistema globalista, com diversos matizes, pelo menos até agora, não representam de per si alternativas à máquina de produção de desigualdades representada pela globalização financeira, defendida pela revista. O que lhes falta é empreender uma guinada histórica, para afastar-se do sistema liberal e optar por uma concepção superior do que significa um sistema econômico, para sustentar a refundação dos Estados nacionais, seriamente prejudicados pela corrente de pensamento defendida pela revista desde a sua fundação.

Economist foi fundada, em 1843, com a finalidade explícita de fazer campanha contra as chamadas “Leis do Milho” (Corn Laws), conjunto de tarifas protecionistas da produção local de alimentos, que vigorou no Reino Unido entre 1815 e 1846, cuja revogação sinalizou o “livre comércio total” como a diretriz fundamental das políticas econômicas britânicas. Com a publicação do “Manifesto Comunista”, de Marx e Engels, em 1848, os estrategistas liberais, que tinham na revista um dos seus fortins, passaram a dispor da contrapartida necessária ao cultivo da falsa dicotomia de economia política que promovem até hoje, como sendo as únicas alternativas disponíveis. Não por acaso, tais círculos promoveram a obra de Marx (que viveu na Inglaterra de 1849 até a sua morte, em 1883, e está enterrado em Londres), que sabiam ser inócua como uma crítica séria ao sistema colonial britânico.

Por outro lado, ela era perfeita para proporcionar a decomposição dos Estados nacionais, sendo astutamente inflada para servir como contrapeso ao sistema econômico oposto, que ameaçava o poderio britânico na segunda metade do século XIX: o Sistema Americano de Economia Política ou Sistema Americano de Economia Nacional, com o qual as antigas colônias da América do Norte se libertaram do jugo britânico e construíram uma próspera nação industrial soberana.

Um dos mais notáveis representantes desse sistema, ainda hoje vigente na necessária refundação dos Estados nacionais soberanos, foi o grande economista Henry Carey (1793-1879), que concebia a economia como um projeto civilizatório e foi devastador em sua polêmica contra o sistema de livre comércio britânico, por ele chamado genericamente “sistema ricardiano-malthusiano”. Em seu livro A harmonia de interesses, publicado em 1851, apenas oito anos após a fundação da Economist, ele estabeleceu as diferenças básicas entre os dois sistemas.

A escola de Carey et alii vê a economia política como algo mais que a mera organização material da sociedade, mas como o substrato que cria ou destrói nações e civilizações. A propósito, vale mencionar o frade dominicano francês Raymond L. Bruckberger, que viveu oito anos nos EUA após a II Guerra Mundial e escreveu um dos mais lúcidos retratos das bases fundamentais da nação estadunidense. No seu livro, cuja edição brasileira recebeu o nome A República Americana (Ed. Fundo de Cultura, 1960), ele identifica assim a questão:

Ainda hoje, não se pode refutar Marx eficazmente se não se rejeitarem do mesmo passo Adam Smith, Ricardo, Malthus e todos os grandes economistas da tradição capitalista, como Henry Charles Carey parece tê-lo compreendido bem. Marx apenas leva mais longe esta tradição, desenvolve-a, tira certas consequências novas, mas não só não sai dela, como a reconhece como sua, prestigia-a intelectualmente, ela lhe parece irrefutável. Mesmo quando ele combate o sistema burguês e pretende derrubá-lo, permanece ajuizadamente dentro deste sistema. (…)

(…) Carey… atribui a esta associação de forças e de produção um objetivo muito longínquo, muito elevado, uma finalidade mais imperiosa do que o simples domínio sobre a natureza. De Carey estas palavras inesperadas: “O objetivo final de todo esforço humano é a produção desse ser que sabemos ser o homem, capaz das mais altas aspirações”… Para além da economia política, o que Carey pretende construir é uma teoria da civilização… Carey viu que todos os poderes conquistados sobre a natureza, todas as riquezas adquiridas pelo trabalho de nada servem, se estes poderes e estas riquezas não são finalmente postos ao serviço do homem que as utiliza para seus próprios fins humanos… O que Carey não perdoa à escola inglesa de economia política é dar por objetivo à civilização inteira a perseguição, não da felicidade, mas da riqueza e do poder, aviltar o homem ao nível de uma conquista que fica abaixo dele, porque a força e o bem-estar são também o ideal do bruto: esquecer os homens e a natureza humana para aplicar pretensas leis que reduzem o homem ao nível dos animais.

Voltando ao longo “auto-de-fé” da Economist, depois de afirmar que os liberais “têm sido tipicamente reformadores”, os editorialistas apontam que a saída para o impasse está na reinvenção do liberalismo: “O liberalismo precisa hoje fugir da identificação com as elites e o status quo e retomar esse espírito reformador.”

A questão-chave é que a única reforma possível para um sistema cujo principal resultado socioeconômico tem sido a expansão das desigualdades e da injustiça social e, no campo cultural, a destruição da dignidade do homem, é a sua substituição pura e simples, por um sistema realmente compatível com o direito de todos os seres humanos a uma vida digna e ao pleno desenvolvimento das suas capacidades individuais, em um ambiente de respeito ao bem comum das sociedades. O liberalismo e o utilitarismo, como a História tem demonstrado, passam muito longe dessas metas.

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