Semanas atrás, um funcionário do megafundo de gestão de ativos BlackRock disse a uma jornalista que “a [guerra na] Ucrânia é boa para os negócios”, pois “a volatilidade cria oportunidades para lucros (Resenha Estratégica, 28/06/2023)”.
Sem dúvida alguma. Aliás, foi um dos oficiais mais condecorados da história militar dos EUA, o general dos Fuzileiros Navais Smedley Butler, quem disse isso com todas as letras em seu hoje clássico livro de 1935, War is a racket (A guerra é uma extorsão). Mas até mesmo ele ficaria envergonhado diante da dimensão tomada pela guerra como empreendimento nos EUA do século XXI, como se vê na Ucrânia.
E o BlackRock, que comanda ativos superiores ao PIB (Produto Interno Bruto) de quase todos os países, exceto os EUA e a China, não deixaria de estar à frente dessa potencialmente hiperlucrativa empreitada.
Em maio, o BlackRock e o governo do presidente Volodymyr Zelensky assinaram um acordo para a criação do Fundo de Desenvolvimento Ucraniano (UDF, em inglês), instituição financeira nominalmente destinada à reconstrução da economia do país devastado pela guerra com a Rússia. O fundo deverá mobilizar capitais para aplicação em setores como agricultura, energia, infraestrutura, indústria e tecnologia de informação.
Na prática, tal “mobilização” de capitais parece apontar para uma vasta investida privada sobre os setores estratégicos da economia ucraniana, aí incluídos as “terras negras”, solos que se encontram entre os mais férteis do mundo, e as empresas estatais de energia, agricultura e ferroviária, entre outras.
Na Ucrânia, como herança da era soviética, as terras não eram de propriedade dos agricultores. Em 2020, uma nova lei passou a permitir que pudessem comprar até 100 hectares e, a partir de 2024, empresas ucranianas poderão adquirir até 10 mil hectares. De forma sintomática, um plebiscito já marcado para o mesmo ano irá determinar se a medida poderá ser estendida a investidores e capitais estrangeiros. E, de qualquer maneira, a lei atual permite que bancos internacionais se convertam em acionistas de empresas ucranianas ou invistam nelas, deixando as portas abertas para a penetração de fundos como o BlackRock.
Segundo o Financial Times de 19 de junho, o BlackRock está compartilhando com o JP Morgan Chase a tarefa de “ajudar” o governo de Kiev a criar o UDF, empenho que também conta com a colaboração (seguramente, desinteressada) do governo do Reino Unido, copatrocinador de uma conferência em Londres montada para vender a ideia a investidores em potencial.
“Muitos dos desafios de longo prazo de hoje são melhor enfrentados por meio das finanças híbridas e esse é um deles. Você precisa desses veículos para mobilizar capitais em escala”, disse no evento o vice-presidente do BlackRock, Philipp Hildebrand.
Finanças híbridas (blended finance) é um termo empregado para o uso de recursos não reembolsáveis e filantropia com o intuito de atrair capitais de terceiros para determinados empreendimentos, em especial, aqueles engajados na agenda ESG (meio ambiente, social e governança).
Ou seja, nada melhor do que aplicar um rótulo “esverdeado” à rapinagem que já se esboça para o pós-guerra na Ucrânia. E o BlackRock é particularmente aparelhado para a empreitada, tendo ex-altos funcionários em postos-chave no governo dos EUA: o vice-secretário do Tesouro, Wally Adeyemo, o conselheiro sênior para assuntos econômicos ligados à Ucrânia e à Rússia, Eric van Nostrand, e o conselheiro sênior da vice-presidente Kamala Harris, Mike Pyle.
Em março, o Banco Mundial estimava que a Ucrânia necessitaria de investimentos superiores a US$ 400 bilhões para a sua reconstrução no pós-guerra. Com a continuação da guerra, esse número, provavelmente, já supera a casa de US$ 500 bilhões.
Realmente, um butim dos (muito) grandes, diante do qual os abutres rentistas já estão à espreita.

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