Trump transforma EUA em “Estado fora-da-lei”

Na terça-feira 8 de maio, na Casa Branca, o presidente Donald Trump proferiu um dos discursos mais inacreditáveis de um chefe de Estado do Ocidente em todos os tempos, virtualmente, convertendo os EUA em um “Estado fora-da-lei” (rogue state, na definição original criada pelos principais belicistas de Washington, os famigerados “neoconservadores”). Exalando arrogância e agressividade e sem qualquer pudor de alternar mentiras escancaradas com ameaças abertas, num estilo anteriormente popularizado por seu parceiro israelense, o premier Benjamin “Bibi” Netanyahu, anunciou ao mundo a já esperada saída unilateral do acordo nuclear com o Irã e novas sanções contra o país, além de ameaçar todos os demais que não se alinharem com a sua linha de confrontação com o país persa.

Trump lança o seu ultimato ao Irã e ao mundo (AFP/Getty Images)

A rejeição patológica de Trump ao acordo iraniano, motivada pelo fato de ter sido o principal trunfo internacional de seu detestado antecessor Barack Obama, soma-se à agenda incendiária dos “neoconservadores”, empenhados em promover um novo conflito de grandes proporções como forma de preservação da hegemonia global estadunidense – alternativa exposta pela revista The Economist de 25 de janeiro último (ver Resenha Estratégica, 31/01/2018). A mistura tem um potencial explosivo de proporções apocalípticas.

Além de colocar em risco de morte o acordo de 2015 (conhecido pela sigla em inglês JCPOA, de Plano de Ação Conjunto Global), duramente negociado com o Irã, Rússia, China e os fieis aliados dos EUA, Reino Unido, França e Alemanha, Trump reiterou o desprezo do seu governo pelas normas do Direito Internacional e pelos acordos anteriormente assinados pelos seus antecessores, sinalizando que estes valem bem menos que os tuítes motivados pelos seus caprichos emocionais ao levantar-se da cama.

Em paralelo, reforçou o sinal verde para a continuidade das ações agressivas de Israel e da Arábia Saudita, outros dois Estados “fora-da-lei” alinhados com os piromaníacos de Washington e há anos engajados em ações bélicas imotivadas contra a Síria, o Irã e o Iêmen. Sem perder tempo, depois de agradecer a Trump num pronunciamento público, “Bibi” ordenou o enésimo ataque de mísseis contra a Síria, alegadamente, para atingir instalações e equipamentos militares iranianos. Outro ataque ainda maior foi desfechado na noite seguinte, mas desta vez o Exército Sírio retaliou com uma salva de artilharia e mísseis contra alvos militares israelenses nas Colinas de Golan, território sírio ocupado desde a guerra de 1967. No momento, as atenções estão voltadas para a possibilidade de uma escalada militar com potencial para incendiar ainda mais a já conflagrada região.

A justificativa de Trump foi um insulto à inteligência alheia. Segundo ele:

O regime iraniano é o principal Estado patrocinador de terror. Ele exporta mísseis perigosos, alimenta conflitos em todo o Oriente Médio e apoia terroristas substitutos e milícias como o Hizbollah, Hamas, o Talibã e a al-Qaida (New York Times08/05/2018).

Com exceção do apoio ao Hizbollah e ao Hamas, poder-se-iam tomar tais palavras como um lapso psicológico de substituição de personalidade, no caso, colocando o Irã no lugar dos próprios EUA, os verdadeiros incendiários do Oriente Médio.

E prosseguiu, com a maior sem-cerimônia:

Ao longo dos anos, o Irã e seus substitutos têm bombardeado embaixadas e instalações militares estadunidenses, assassinado centenas de militares estadunidenses e sequestrado, aprisionado e torturado cidadãos estadunidenses. O regime iraniano tem financiado o seu longo reinado de caos e terror com a pilhagem da riqueza do seu próprio povo.

Qualquer pessoa com um conhecimento superficial dos acontecimentos mundiais das últimas décadas sabe que nada disso pode ser atribuído à República Islâmica. Embora navios de guerra estadunidenses e lanchas armadas iranianas tenham trocado tiros durante a fase final da Guerra Irã-Iraque (1980-88), desde então, é principalmente o Irã que tem sido alvo de ataques contra seus cidadãos, militares e civis (em especial, cientistas), instalações militares e redes de computadores, tanto por parte dos EUA como de Israel (sem falar na derrubada do Voo 655 da Iran Air por um míssil disparado pelo cruzador Vincennes da US Navy, no Golfo Pérsico, em julho de 1988, causando a morte de 290 pessoas).

Contrariando em público a posição das agências de inteligências estadunidenses e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), as quais afirmam que o programa nuclear militar iraniano não passou da fase de estudos de viabilidade e foi encerrado em 2003, Trump referendou seu parceiro de psicopatia “Bibi” e a pantomima de 30 de abril deste último sobre um imaginário programa secreto iraniano, baseada em documentos requentados e “hackeados” da AIEA (verResenha Estratégica, 02/05/2018):

No centro do acordo com o Irã, estava uma ficção gigantesca: que um regime assassino desejava somente um programa pacífico de energia nuclear. Hoje, nós temos uma prova definitiva de que a promessa iraniana era uma mentira. Na semana passada, Israel publicou documentos de inteligência – há muito ocultados pelo Irã – mostrando de forma conclusiva o regime iraniano e sua história de perseguir armas nucleares.

Em seguida, anunciou seu ultimato aos parceiros do JCPOA e ao mundo:

Consequentemente, estou anunciando hoje que os EUA se retirarão do acordo nuclear com o Irã. Em alguns momentos, eu assinarei um memorando presidencial para começar a reinstituir as sanções nucleares estadunidenses contra o regime iraniano. Nós instituiremos o mais alto nível de sanção econômica (sic). Qualquer nação que ajude o Irã na sua busca por armas nucleares também poderá ser fortemente sancionada pelos EUA (grifos nossos).

Europa na alça de mira

Os alvos principais do ultimato são os aliados europeus dos EUA, já que a China e a Rússia são bem menos suscetíveis de serem afetados por novas sanções. Já a União Europeia (UE) está compreensivelmente alarmada com a perspectiva de as suas empresas serem incluídas nas sanções legais e financeiras contra quem quer que se atreva a fazer negócios com Teerã. Hoje, o bloco é o segundo parceiro comercial do Irã, após a China, com vendas que dispararam após o acordo, passando do equivalente a 9,2 bilhões de dólares, em 2015, para 25 bilhões, no ano passado, com perspectivas de ultrapassar os 30 bilhões em 2020.

Neste particular, a arrogância imperial de Trump foi prontamente replicada por dois de seus procônsules, o secretário do Tesouro Steve Mnuchin e o recém-nomeado embaixador na Alemanha, Richard Grenell.

O primeiro referiu-se diretamente às licenças governamentais emitidas para as já acertadas vendas de aviões das gigantes aeroespaciais Boeing e Airbus ao Irã, esta, por utilizar peças fabricadas nos EUA em seus aviões, afirmando que seriam revogadas, prejudicando negócios de 40 bilhões de dólares (Bloomberg, 08/05/2018).

O segundo, ainda mais fiel ao mestre em estilo e meio de comunicação, utilizou o Twitter para disparar, poucas horas depois de receber o agréement do governo de Berlim: “Como disse @realDonaldTrump, as sanções dos EUA atingirão setores críticos da economia do Irã. As companhias alemãs fazendo negócios no Irã deveriam encerrar as operações imediatamente (The Local, 09/05/2018).”

A petulância de Grenell causou uma justificada indignação, tendo sido respondida, entre outros, pelo veterano diplomata alemão Wolfgang Ischinger, ex-embaixador em Washington e Londres e atual presidente da Conferência de Segurança de Munique (MSC, na sigla em inglês), também via Twitter:

Ric: meu conselho, após uma longa carreira como embaixador: explique as políticas do seu próprio país e faça lobby no país anfitrião – mas nunca diga ao país anfitrião o que fazer, se você não quiser ter problemas. Os alemães estão ansiosos para ouvir, mas se ressentirão de (receber) instruções (RT, 09/05/2018).

Na condição de líder da MSC, as palavras de Ischinger podem ser consideradas como uma posição oficiosa do governo alemão.

Embora os governos do Reino Unido, França e Alemanha tenham divulgado uma nota conjunta manifestando a intenção de preservar o acordo, apoiados por declarações no mesmo teor pela diplomata-chefe da UE, Federica Mogherini, será preciso aguardar as próximas semanas para saber até onde irá a disposição de resistir a Washington.

De seu lado, o presidente iraniano Hassan Rouhani, que se equilibra em uma delicada corda bamba entre os outros dois polos de poder no país, o líder supremo aiatolá Ali Khamenei e a Guarda Revolucionária, deixou claro que a bola está com os europeus. Em uma conversa telefônica com o presidente francês Emmanuel Macron, ele disse esperar que a Europa atue rapidamente para salvar o acordo: “Na situação atual, a Europa tem um prazo muito limitado para salvar o JCPOA e deve determinar e anunciar a sua posição clara e firme sobre as suas obrigações no acordo (Presstv, 09/05/2018).”

Dependendo da atitude europeia, o tiro de Trump poderá sair pela culatra. Se decidir por uma resistência unificada à pretensão do candidato a “policial econômico do planeta”, como afirmou o ministro da Fazenda francês, Bruno Le Marie, o bloco europeu poderá catalisar o fracasso do ultimato e, com ele, uma sinalização de que a hegemonia de Washington chegou ao fim. Em um debate na rede France24 (10/05/2018), a cientista política Caroline Galactéros, do Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional e coronel da reserva do Exército francês, afirmou que a saída dos EUA oferece uma grande oportunidade à UE:

No final das contas, cabe a nós decidir se realmente queremos aceitar essa extraterritorialidade das leis estadunidenses. Em minha opinião, esta é a grande questão. Isto pode ser uma mudança real na balança de poder. Se a Europa permanecer no acordo e os iranianos forem cautelosos e não replicarem – porque, provavelmente, é isso que Washington espera que façam –, então, temos a Europa e o Irã se mantendo no acordo, assim como a Rússia e a China. (…) Tudo isso transforma a balança de poder.

Além do aspecto econômico, há um fator moral inescapável: até quando os europeus aceitarão passivamente a submissão aos desígnios da agenda hegemônica de Washington? Que concepção do direito e de justiça pretendem defender? O “Princípio de Trasímaco”, para recordar o truculento personagem de Platão que definia a justiça como o interesse do mais forte? Ou se juntarão às demais nações do planeta para promover a reconstrução da ordem de poder mundial, com base na cooperação para o desenvolvimento e num princípio real de justiça? Se a segunda opção for escolhida, as ondas de choque resultantes poderão até mesmo reverberar dentro dos próprios EUA, acelerando o esgotamento do seu atual regime imperial e “excepcionalista”.

Vale registrar que o próprio Establishment estadunidense se dividiu diante da truculência presidencial. Entre outros, o secretário de Defesa, general Jim Mattis (cujo apelido “Cachorro Louco” sugere não ser nenhum pacifista) admitiu publicamente que o Irã tem cumprido rigorosamente todas as obrigações estabelecidas no JCPOA. E, seguramente, os dirigentes e acionistas da Boeing e outras empresas não ficarão nada satisfeitos com a perda dos lucrativos negócios empenhados com o Irã.

Um novo (velho) papel para os EUA

Há quase 55 anos, um antecessor de Trump na Casa Branca falou à 18ª Assembleia Geral das Nações Unidas:

É um fato que os EUA, como uma grande potência nuclear, têm uma responsabilidade especial no mundo. De fato, é uma responsabilidade tríplice: uma responsabilidade com os nossos próprios cidadãos; uma responsabilidade com as pessoas de todo o mundo, que são afetadas pelas nossas decisões; e com a próxima geração da humanidade. Nós acreditamos que a União Soviética também tem essas responsabilidades especiais – e que essas responsabilidades requerem que as nossas duas nações se concentrem menos nas nossas diferenças e mais nos meios de solucioná-las pacificamente. Pois ambas têm, durante muito tempo, aumentado os nossos orçamentos militares, nossos arsenais nucleares e nossa capacidade de destruir toda a vida neste hemisfério – humana, animal e vegetal – sem qualquer aumento correspondente na nossa segurança. (…)

Mas eu diria aos líderes da União Soviética e ao seu povo, que se é para que os nossos países sejam plenamente seguros, nós precisamos de uma arma muito melhor que a bomba de hidrogênio – uma arma melhor que mísseis balísticos ou submarinos nucleares – e que esta arma melhor é a cooperação pacífica (grifos nossos).”

O autor destas palavras otimistas e encorajadoras, dirigidas não só à URSS mas a todo o mundo, foi o último grande presidente dos Estados Unidos da América, John Fitzgerald Kennedy, e esse foi o seu último grande discurso. Na ocasião, 20 de setembro de 1963, ele reiterou a intenção esboçada num discurso anterior, na Universidade Americana de Washington, de colocar um fim à Guerra Fria e à sua perigosa escalada bélica, que no ano anterior colocara as superpotências à beira de um confronto nuclear, na Crise dos Mísseis de Cuba. Para não ficar na retórica, fez uma proposta concreta: a união de esforços dos dois países para a exploração do espaço cósmico, a começar por uma missão conjunta à Lua, pondo fim à corrida em que ambos estavam empenhados.

“Seguramente, nós deveríamos explorar se os cientistas e astronautas dos nossos dois países – de fato, de todo o mundo – não podem trabalhar juntos na conquista do espaço, enviando à Lua, em algum momento desta década, não os representantes de uma única nação, mas os representantes de todos os nossos países”, disse ele à plateia eletrizada.

Para infortúnio do mundo, Kennedy não pode concretizar as suas intenções, pois, pouco mais de dois meses depois, em 22 de novembro, foi abatido à luz do dia por atiradores no centro de Dallas, Texas. Seu sucessor, Lyndon Johnson, abandonou de imediato quase toda a agenda progressista que havia colocado o carismático JFK em rota de colisão direta com os interesses do Establishment anglo-americano – principalmente, quanto ao prosseguimento da Guerra Fria, elemento-chave da sua estratégia de hegemonia global. O magnicídio foi, sem dúvida, um evento pivotal da segunda metade do século XX, provocando uma inflexão histórica no papel positivo dos EUA no mundo e consolidando a hegemonia das estruturas do “governo mundial”, as mesmas que, mais de meio século depois, não perderam tempo em dominar o governo de Donald Trump, após a derrota eleitoral imposta por este à sua candidata preferencial, Hillary Clinton.

Mais de meio século depois, o ultimato de Trump poderá acabar sendo o proverbial tiro no pé da hegemonia imperial de Washington e, em algum momento do futuro próximo, os EUA poderão retomar o caminho de grandeza interrompido em Dallas, naquela tarde de 1963.

 

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