“Senhores do Universo” descobrem que desigualdade prejudica os negócios

Antes tarde do que nunca. Os altos círculos da finança “globalizada” estão descobrindo o óbvio: o aumento das desigualdades em escala global é prejudicial à economia e pode contribuir para uma nova grande depressão como a da década de 1930.

Uma séria advertência veio de ninguém menos que a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva. Em uma palestra no Instituto Peterson de Economia Internacional e em um artigo publicado no blog do Fundo, ela revelou as graves conclusões de um recente estudo da entidade.

Na palestra, realizada em Washington, em 17 de janeiro, Georgieva advertiu que a economia mundial enfrenta o risco de uma nova grande depressão, causada pela desigualdade crescente e pela instabilidade do setor financeiro internacional. Segundo ela, o estudo do FMI revela que uma tendência similar à que culminou com a quebra dos mercados financeiros em 1929 encontra-se em marcha.

Ademais, afirmou, embora a brecha de desigualdade entre os países tenha se reduzido nas últimas duas décadas, o fenômeno aumentou dentro dos Estados, citando como exemplo o Reino Unido, onde “os 10% do topo controlam agora quase tanta riqueza como os 50% na base (RT, 18/01/2020).

Georgieva acrescentou que “essa situação se reflete na maioria dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), onde a desigualdade de renda e riqueza atingiu ou está perto de níveis recordes”.

Para ela, “de alguma maneira, essa tendência preocupante recorda a primeira metade do século XX, quando as forças gêmeas da tecnologia e da integração conduziram à primeira era dourada, os anos 20, e, em última instância, ao desastre financeiro”.

No artigo, publicado em 7 de janeiro (“Reduzir a desigualdade para gerar oportunidades”), ela elabora:

Nos últimos dez anos, a desigualdade transformou-se em um dos desafios mais complexos e desconcertantes da economia mundial. Desigualdade de oportunidades Desigualdade entre gerações . Desigualdade entre mulheres e homens. E, é claro, desigualdade de renda e de riqueza . Todas essas facetas da desigualdade estão presentes em nossas sociedades e, infelizmente, estão aumentando em muitos países. A boa notícia é que dispomos dos meios para enfrentar esses problemas, desde que tenhamos a vontade de fazê-lo. A implementação de reformas é um processo politicamente difícil, mas os ganhos em termos de crescimento e produtividade valem o esforço.

Para tanto, faz uma observação que pode soar como anátema para os adeptos do darwinismo social:

Combater a desigualdade exige uma abordagem nova. Primeiro, é preciso repensar as políticas fiscais e a tributação progressiva. A tributação progressiva é um componente essencial de uma política fiscal eficaz. Nossos estudos mostram que é possível elevar as alíquotas tributárias marginais no topo da distribuição de renda sem sacrificar o crescimento econômico.

Em português claro, tributação progressiva significa impostos maiores para os mais privilegiados, algo que os cultores do neoliberalismo à brasileira costumam rechaçar de pronto.

Outra sugestão se refere às políticas públicas de gastos sociais:

Segundo, as políticas de gastos sociais são cada vez mais importantes para combater a desigualdade. Quando bem aplicadas, conseguem cumprir um papel fundamental na mitigação da desigualdade de renda e de seus efeitos nocivos sobre a igualdade de oportunidades e a coesão social.

A educação, por exemplo, prepara os jovens para se tornarem adultos produtivos que contribuirão para a sociedade. A saúde salva vidas e também pode melhorar a qualidade de vida. Os programas de previdência social ajudam a preservar a dignidade dos idosos.

E o elenco de propostas prossegue, apontando para uma participação crucial dos Estados nacionais na formulação e implementação das medidas necessárias:

Por exemplo: em áreas básicas como saúde, educação e infraestrutura prioritária, estimamos que as economias de mercados emergentes teriam que elevar os gastos a cada ano até chegar a cerca de 4 pontos percentuais do PIB em 2030, enquanto a média dos países em desenvolvimento de baixa renda teria de despender o equivalente a 15 pontos percentuais do PIB.

Terceiro, reformar a estrutura da economia poderia apoiar os esforços para combater a desigualdade ao reduzir os custos do ajuste, minimizar as disparidades regionais e preparar os trabalhadores para ocupar um número crescente de empregos verdes.

Políticas ativas para o mercado de trabalho – como a assistência na procura de emprego, os programas de capacitação e, em alguns casos, o salário-desemprego – podem melhorar a qualificação dos trabalhadores e encurtar os períodos de desocupação.

Facilitar a mobilidade dos trabalhadores entre empresas, setores e regiões minimiza os custos de ajuste e promove uma recolocação rápida. Políticas de habitação, crédito e infraestrutura podem ser úteis nesse sentido.

Políticas e investimentos direcionados a determinadas áreas geográficas podem complementar as transferências sociais já existentes.

Para ela, a implementação de tal agenda exige uma vital sinergia entre os diversos atores envolvidos: “Vislumbramos uma parceria entre organismos internacionais, acadêmicos, autoridades nacionais, sociedade civil e setor privado, trabalhando juntos para melhorar as políticas de gastos sociais e lançar as bases para o cumprimento dos ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável).”

Porém, adverte que não há uma única “receita de bolo” para todos os países: “Naturalmente, em se tratando de gastos sociais, não existe uma solução que se aplique a todos os casos. Os países têm preferências distintas, enfrentam desafios variados e aspiram a coisas diferentes.”

Desigualdade em Davos

Em Davos-Klosters, Suíça, os mais de 3 mil participantes da 50ª edição do Fórum Econômico Mundial (WEF, sigla em inglês) também foram informados das vantagens do combate à desigualdade, com o que foi prometido ser a primeira edição do “Relatório de mobilidade social” (Social Mobility Report) da entidade símbolo das elites globalizadas.

O boletim de imprensa, com o sugestivo título “Revelado: por que as economias se beneficiam do combate à desigualdade”, sintetiza as principais “descobertas” do estudo:

– um aumento de 10% na mobilidade social não paenas beneficiaria a coesão social, mas também promoveria um crescimento econômico de quase 5%, ao longo da próxima década;

– apenas um punhado de nações entre as 82 estudadas têm colocado em prática as condições adequadas para promover a mobilidade social (o Brasil aparece na parte inferior da tabela, na 60ª posição);

– as cinco primeiras são escandinavas, enquanto as cinco economias que poderão ganhar mais com a promoção da mobilidade social são a China, EUA, Índia, Japão e Alemanha (aqui, em uma demonstração das potencialidades do País, o Brasil vem em oitavo lugar, à frente do Reino Unido e da França);

– quatro dimensões emergem como prioritárias para a melhora global da mobilidade social: salários justos, proteção social, educação permanente e melhores condições de trabalho (Weforum.org, 19/01/2020).

“Criar sociedades onde cada pessoa tem a mesma oportunidade de preencher os seus potenciais em vida, independentemente do seu ambiente socioeconômico, traria não apenas enormes benefícios societários, na forma da redução das desigualdades e de vidas mais saudáveis e frutíferas, mas também fomentaria o crescimento econômico em centenas de bilhões de dólares por ano”, afirma o boletim.

O estudo avaliou 82 economias do mundo, em cinco aspectos necessários para a criação da mobilidade social: saúde, educação (acesso, qualidade e equidade), tecnologia, trabalho (oportunidades, salários e condições) e proteções e instituições (proteção social e instituições inclusivas).

Devido ao fato de poucas economias apresentarem as condições adequadas para a promoção da mobilidade social, “em consequência, a desigualdade se tornou entrincheirada e, provavelmente, irá piorar, em uma era de mudanças tecnológicas e esforços para uma transição rumo a uma economia verde”.

O estudo identifica quatro áreas em que os progressos têm sido deficientes: baixos salários, falta de proteção social, condições de trabalho inadequadas e sistemas de educação permanente inadequados, tanto para os trabalhadores como para os desempregados.

“As consequências sociais e econômicas da desigualdade são profundas e abrangentes: um crescente sentido de injustiça, precariedade, perda percebida de identidade e dignidade, enfraquecimento do tecido social, erosão da confiança nas instituições, desencanto com o processo político e uma erosão do contrato social. A resposta do empresariado e do governo deve incluir um esforço concertado para se criar novos caminhos para a mobilidade socioeconômica, assegurando que todo mundo tenha oportunidades justas de sucesso”, afirma o presidente-esecutivo do Fórum, Klaus Schwab.

De acordo com o estudo, se as economias lograrem uma melhora de 10 pontos na sua mobilidade social, haveria um aumento de 4,4% no PIB até 2030, além dos benefícios societários obtidos.

O estudo também observa que a mobilidade social irá requerer novos e maciços investimentos públicos, mas será o destino e a qualidade destes que garantirá a sua eficácia, combinados com necessárias mudanças nas práticas empresariais. Trata-se, portanto, de um desafio para múltiplos protagonistas, no qual os negócios também devem assumir a liderança, promovendo uma cultura de meritocracia nas contratações e proporcionando educação vocacional, requalificação, melhorias de qualificação e condições de trabalho e pagando salários justos.

Em realidade, nada disso é novidade, pois já no século XIX economistas brilhantes como o estadunidense Henry Carey já propalavam a necessidade de as sociedades e as economias se estabelecerem em torno de uma harmonia de interesses entre os seus membros, e, no início do século XX, um gigante empresarial como Henry Ford colocava tais preceitos em prática.

Igualmente, não é novidade que as social-democracias europeias, em especial, as escandinavas, logararam atingir níveis elevados de avanços civilizatórios ao assegurar uma considerável harmonização entre políticas públicas e atividades privadas, de forma a beneficiar o conjunto de suas sociedades. Não por acaso, lideram a lista do estudo do WEF.

Não obstante, a conhecida obstinação dos que estão no topo da cadeia alimentar em permitir qualquer melhora nas condições dos situados abaixo deles sempre dificulta sobremaneira qualquer mudança no status quo. Por isso, talvez, seja preciso uma nova megacrise como a prevista pelo FMI, para que surjam as condições necessárias para uma mudança de rumo.

Ainda assim, vale conhecer o estudo do WEF (https://www.weforum.org/reports/global-social-mobility-index-2020-why-economies-benefit-from-fixing-inequality).

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