Riscos financeiros estão piores que em 2007

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“O sistema financeiro global tornou-se perigosamente instável e enfrenta uma avalanche de falências que irão testar a estabilidade social e política.” As palavras são de uma autoridade: William White, presidente do Comitê de Desenvolvimento e Revisão Econômica da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) e ex-economista-chefe do Banco de Compensações Internacionais (BIS), que há algum tempo tem manifestado suas preocupações em entrevistas e declarações públicas. Recentemente, ele fez o mesmo no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

White tem décadas de experiência de trabalho nos bancos centrais do Canadá e Grã-Bretanha, ou seja, em estreito contato com os “tomadores de decisões” da City de Londres. Antes do colapso do banco Lehman Brothers, em 2008, foi um dos poucos a denunciar a crise inevitável do sistema. Entre outros itens, afirmava que a liberalização dos mercados financeiros, a assim chamada desregulamentação, vinha ocasionando um crescimento excepcional dos empréstimos e valores financeiros.

O problema central é representado pelo aumento exponencial das dívidas em todo o mundo, nos últimos sete anos, de modo que, para White, “hoje a situação é pior do que a de 2007”.

No tocante à Europa, os bancos continentais têm empréstimos duvidosos (créditos vencidos) em um montante aproximado de 1 trilhão de euros! São empréstimos concedidos tanto no mercado interno como nas economias emergentes, que, até agora, têm sido mantidos escondidos nos balanços dos bancos, como “esqueletos no armário”.

Na ausência de um acordo global e de uma nova arquitetura do sistema financeiro, que esteja operacional de uma forma conjunta e célere, a questão de fundo é como lidar com os cancelamentos de dívidas impagáveis e a reorganização do sistema sem criar terremotos econômicos e tempestades políticas.

Trata-se de renovar as discussões sobre as “concordatas financeiras”, infelizmente, abandonadas há tempos. É algo que não pode restringir-se à gestão de cada país, pois exige regras globais e compartilhadas, que combinem justiça e recuperação econômica, com absoluta prioridade sobre os egoísmos locais e os ditames dos mais fortes.

É visível a ausência de uma compreensão clara das responsabilidades e dos métodos de intervenção dos “curadores falimentares”, em meio ao caos deflagrado pela falência de quatro pequenos bancos regionais italianos, em que, além da falta de transparência e justiça, têm prevalecido a improvisação, a incompetência e os interesses especiais dos “amigos” e dos lobbies locais.

O atual montante das dívidas públicas e privadas extrapolou todos os limites, atingindo 265% do PIB nos países da OCDE e 185% nos mercados emergentes – um aumento de 35% em relação a 2007.

Segundo a agência Bloomberg, a dívida das grandes corporações em âmbito mundial está na casa de 29 trilhões de dólares. A metade das multinacionais integrantes do índice S&P de Wall Street não tem receitas suficientes para pagar o serviço de suas dívidas.

A “flexibilização quantitativa” – iniciada pela Reserva Federal dos EUA e seguida depois pelo Banco Cenral Europeu (BCE) – criou e sustentou a possibilidade de se continuar gastando, não nas possibilidades reais da atual situação econômica e fiscal, mas em déficits por meio de empréstimos contra o futuro. Com o tempo, isto se torna uma “adicção” que leva à perda do sentido e de relação com a realidade. Evidentemente, isto tem um limite, pois, em algum momento, o futuro apresentará a conta. Não se pode  gastar continuamente, hoje, o dinheiro que será, eventualmente, ganho amanhã!

Observe-se, também, que grande parte da nova liquidez foi apropriada pelas grandes corporações e pelos megabancos, em operações cada vez mais frequentes de recompra de suas próprias ações. O Wall Street Journal estima que, desde 2005, apenas nos EUA, foram gastos 4,21 trilhões de dólares em tais operações, o que corresponde a cerca de um quinto do valor total das ações registradas nas bolsas de valores estadunidenses. São operações em grande parte cosméticas, que têm desviado recursos significativos, à custa dos investimentos, modernização tecnológica e níveis de emprego.

O endividamento excessivo é uma armadilha na qual a Reserva Federal caiu, na avaliação de White. A situação deteriorou-se tanto que se consegue uma saída: um aumento das taxas de juros tende a torná-la ainda mais difícil e pesada; se ficarem como está, definitivamente, irá piorar.

Mais uma vez, o poder político é chamado a assumir a sua responsabilidade na definição de novas regras para o sistema financeiro.

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