Putin: a necessidade da cooperação Rússia-UE

Na primeira semana de junho, o recém-empossado presidente da Federação Russa, Vladimir Putin, faz a sua primeira viagem ao exterior, com uma escolha de visitas que dá uma boa indicação das prioridades da sua futura agenda de política externa e de segurança.

A primeira escala da viagem foi a capital bielorrussa, Minsk, em 31 de maio, onde discutiu com o presidente Aleksandr Lukashenko vários aspectos ligados à união aduaneira que reúne os dois países e o Cazaquistão, além da necessidade de aprofundamento da “cooperação eurasiática”.

A parada seguinte foi em Berlim, para uma visita de trabalho à chanceler Angela Merkel, em 1o. de junho, seguida por uma visita semelhante ao igualmente recém-empossado presidente francês François Hollande, em Paris, no dia seguinte. No domingo 3, participou da cúpula Rússia-União Europeia, em São Petersburgo e, na segunda-feira 4, esteve em Tashkent, Usbequistão, para um encontro com o presidente Islam Karimov.
Prosseguindo a maratona, em 5-6 de junho, Putin visita a China, onde participa da reunião do Conselho de Chefes de Estado da Organização para a Cooperação de Xangai (SCO, em inglês), para a qual foi convidado o presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad. O périplo se encerra em Astana, Cazaquistão, em 7 de junho.

Cooperação energética na pauta

A visita à Alemanha foi bastante positiva. Em particular, na área da cooperação econômica, os dois países manifestaram a intenção de intensificar a cooperação bilateral, e ambos concordaram em que uma solução militar para a crise na Síria seria contraproducente, sendo preferível uma solução política, na qual a Rússia pode ser instrumental.

Em uma entrevista coletiva, o assistente presidencial Yuri Ushakov ressaltou que a primeira reunião “informal” entre Merkel e Putin teve o propósito de dar um “novo impulso” às estratégicas relações bilaterais. Ele destacou que, em 2011, o comércio bilateral atingiu a marca de 72 bilhões de dólares, um aumento de 37% em relação a 2010. Sendo particularmente intensas no campo energético, as relações russo-alemãs representam um importante “fator de estabilidade para a Europa e o mundo”, afirmou.

O mais importante projeto que envolve os dois países é o gasoduto submarino Nord Stream, atravessando o Mar Báltico, cuja primeira seção foi inaugurada em novembro último. Ao final de 2012, o sistema deverá estar plenamente operacional, levando gás natural russo aos consumidores alemães e de outros países europeus.

Anteriormente à reunião Merkel-Putin, na cidade alemã de Stralsund, ocorreu uma cúpula do Conselho dos Estados do Mar Báltico, consórcio dos 11 países banhados pelo Báltico, atualmente presidido pela Alemanha, que passará o bastão à Rússia, em julho. Na ocasião, Merkel destacou que o Conselho pode servir como modelo para a cooperação regional.

Nos bastidores da conferência, os bancos de fomento russo Vneshekombank (VEB) e o alemão KfW concluíram um acordo para o financiamento de projetos no Noroeste da Rússia, em montante anual de 100 milhões de euros, até 2014.

Na entrevista que se seguiu à reunião com Merkel, Putin manifestou o seu desejo de um diálogo político intensivo, que reforce a cooperação russo-alemã em todas as áreas. Em suas palavras, a agenda econômica é central, inclusive, em termos de segurança energética:
Com respeito ao projeto comum Nord Stream, a primeira seção do gasoduto já está em operação e a parte submarina da segunda seção será concluída em breve e, no último trimestre deste ano, estará entregando gás aos consumidores na Alemanha. Isto, certamente, reforçará a segurança energética de toda a Europa. Putin enfatizou que o projeto “está se tornando verdadeiramente paneueropeu”.

Um aspecto interessante foi o anúncio feito por ele, de que a próxima rodada de consultas intergovenamentais russo-alemãs será realizada no próximo outono, no Cazaquistão.

Síria: solução política

Na reunião Merkel-Putin, um espaço considerável foi reservado para a situação na Síria. Ficou claro que, para o presidente, não poderá haver uma solução construtiva, no âmbito das Nações Unidas, sem um papel ativo da Rússia. Na entrevista, perguntado a respeito, Putin disse que ele e Merkel concordaram em que “a única maneira de solucionar a sangrenta guerra civil é uma solução política”. Ele enfatizou que Moscou não apoia unilateralmente o regime de Bashar al-Assad, nem qualquer dos lados que estão engajados no violento conflito interno.

“Eu concordo com a chanceler Merkel: o nosso objetivo comum é evitar o desenvolvimento de uma situação que leve a um tal cenário desfavorável. Hoje, já estamos vendo a emergência de elementos de uma guerra civil. Isto é altamente perigoso”, disse ele, manifestando a esperança de que a missão do ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, não venha a fracassar.

“Eurobonds”

A propósito da emissão de títulos europeus (eurobonds), Putin foi cauteloso. Ele afirmou que, embora ainda não se saiba exatamente como tais instrumentos poderão ser usados, isto só deveria ocorrer “após uma garantia plena de estabilidade e ordem econômica”.

Ademais, ele reiterou que a Rússia tem um interesse total no funcionamento normal das economias europeias. “Cerca de 40% das nossas reservas são em euros, e elas são as terceiras maiores do mundo. Uma proporção significativa dessas reservas, e eu mencionei este fato hoje com a senhora chanceler, está em títulos governamentais alemães”, ressaltou, acrescentando que a metade do saldo comercial russo é obtido junto aos países da UE.

Defesa antimísseis: qual a posição da França?

Em Paris, e durante a entrevista coletiva com Hollande, Putin deu mais atenção ao tema da defesa antimísseis, que não discutiu na Alemanha. Ele deixou bastante claro que, na recente cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), foram tomadas decisões sem qualquer consideração com as posições e os interesses de segurança da Rússia, assinalando que a França é um país que ouvirá as preocupações russas neste campo.

Putin destacou que, embora a Rússia ouça repetidamente que o sistema antimísseis não é direcionado contra os seus interesses de segurança, “o que gostaríamos de receber não são apenas palavras, mas garantias militares e tecnológicas estabelecidas em documentos vinculantes, com o que, só então, podermos sentir-nos seguros e manter um diálogo entre parceiros”.

A Rússia quer um diálogo construtivo e, como Putin sublinhou, em sua conversação com Hollande, lhe parece “que tal diálogo é possível com a França e, portanto, eu espero que também seja possível com outros países da OTAN”.

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