Política externa: choques de realidade

Dois episódios recentes sugerem que, pelo menos na orientação da política externa, o governo de Jair Bolsonaro parece estar se acomodando aos requisitos da realidade, em contraste com o enfoque ideológico inicial do governo. De fato, de um alinhamento semiautomático e incondicional com os EUA de Donald Trump – o pretenso “salvador da civilização judaico-cristã”, na visão do chanceler Ernesto Araújo –  o mundo real se apresenta bem mais favorável à velha e consagrada tradição “pragmática” da diplomacia nacional, que privilegia políticas de Estado e os interesses estratégicos do País, acima das predileções dos governantes de plantão.

O primeiro fato foi a esdrúxula invasão da embaixada da Venezuela em Brasília, em 13 de novembro, por um grupo de 20 seguidores do autoproclamado “presidente interino” Juan Guaidó. A invasão, que durou 12 horas, foi evidentemente planejada para coincidir com a realização, na capital, da 11a cúpula do grupo BRICS, com o objetivo de criar constrangimentos para os presidentes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, que têm sido importantes aliados políticos do acossado presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Comentando o episódio, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, o considerou como uma clara provocação: “No que diz respeito à história da tentativa de tomada, realizada por apoiadores do autoproclamado – indeterminado em qual qualidade – Guaidó, em relação à embaixada da Venezuela [no Brasil], nós consideramos isso uma provocação, como ação coincidida com um evento internacional de peso [cúpula do BRICS], que está ocorrendo esses dias neste país (Sputnik Brasil, 14/11/2019).”

As suspeitas sugerem que, minimamente, o assalto foi articulado por Guaidó e seus controladores dentro do Departamento de Estado estadunidense, com a evidente intenção de fazer parecer que contava com o apoio de elementos ligados ao governo brasileiro, o que levou o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI) a negar, peremptoriamente, que Bolsonaro ou algum membro do governo tivesse tido conhecimento prévio da invasão, além de condená-la. O próprio presidente repudiou a ação, em sua conta no Facebook.

Não obstante, causaram espécie as imediatas e repetidas manifestações nas redes sociais do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa da Câmara dos Deputados, apoiando a operação.

“Nunca entendia essa situação. Se o Brasil reconhece Guaidó como presidente da Venezuela por que a embaixadora Maria Teresa Belandria, indicada por ele, não estava fisicamente na embaixada? Ao que parece agora está sendo feito o certo, o justo”, escreveu ele no Twitter, na primeira delas (Correio Braziliense13/11/2019). Mais tarde, postou: “Essa é uma situação bizarra. Brasil reconhece Guaidó como presidente, mas quem ocupa a embaixada é o adido militar indicado por Maduro, Gen. Barroso. Chegou a hora de cessar essa usurpação de poder. Todo apoio a Tomás Silva e Belandria.”

Belandria, que estava em Washington, divulgou uma nota afirmando que um grupo de funcionários da embaixada apoiador de Guaidó havia dado acesso voluntariamente aos invasores, mas funcionários da legação a desmentiram, dizendo que eles haviam pulado o muro.

Por sua vez, o Itamaraty de Ernesto Araújo demorou a enviar ao local o diplomata Maurício Correia, chefe da Coordenação Geral de Privilégios e Imunidades, cuja atuação foi criticada por várias testemunhas. Uma delas foi o senador Telmário Mota (PROS-RR), presidente da subcomissão de Relações Exteriores do Senado: “Eu fui chamado por membros da Embaixada para dialogar, buscar um entendimento. Ao chegar lá, eu fui impedido de entrar pelo ministério das Relações Exteriores. Como assim? Desde quando o ministério das Relações Exteriores vai controlar quem entra e quem sai de uma Embaixada que é território de um outro país? (Rede Brasil Atual, 13/11/2019).”

Posteriormente, o chanceler venezuelano, Jorge Arreaza, também reclamou de Correia: “A chancelaria também enviou um funcionário do Itamaraty, bastante pouco útil. O que ele fazia era defender o fato de que essas pessoas estivessem ali. Porque o governo supostamente não reconhece o governo legítimo da Venezuela (UOL, 21/11/2019).” Segundo ele, durante a crise, foram efetuados contatos entre militares brasileiros e venezuelanos, na busca de uma solução para o imbróglio. Praticamente desde o início do governo Bolsonaro, tais canais militares estão encarregados da diplomacia efetiva entre os dois países, passando ao largo do ultraideológico chanceler brasileiro.

O outro episódio relevante foi a palestra do ministro-chefe do GSI, general Augusto Heleno, no Comando Militar do Planalto, em 25 de novembro, na qual, ao lado de Bolsonaro, decretou, para todos os fins práticos, o retorno do “pragmatismo” na política externa. Na ocasião, de forma emblemática, citou a política externa do governo de Ernesto Geisel (embora tenha se equivocado quanto ao nome do seu chanceler, Antonio Azeredo da Silveira, em vez do citado Ramiro Saraiva Guerreiro), que não tinha “nada de ideológico”.

Para exemplificar, citou duas regiões consideradas estratégicas para os interesses brasileiros, o Leste da Ásia, por sua “densidade populacional” e “poderio bélico”, e o Oriente Médio, destinos de recentes viagens presidenciais. Quanto ao Oriente Médio, chegou a mencionar a polêmica intenção de Bolsonaro de transferir a embaixada em Israel para Jerusalém, deixando implícito que a ideia foi abandonada de vez, afirmando que Israel “também é importante, mas o mundo árabe não pode ser esquecido”.

Em essência, parecem afastados os temores de que o Brasil de Bolsonaro poderia vir a funcionar como um elemento de enfraquecimento do BRICS, além de privilegiar Israel no Oriente Médio, em detrimento dos países árabes. Até mesmo quanto ao menosprezado Mercosul, não deixa de ser curioso ouvir o chanceler Araújo afirmar que o bloco poderá vir a ser “um novo Sudeste Asiático”, com as políticas corretas (O Globo, 27/11/2019). Apesar de não ter mencionado exemplos de tais políticas, salta aos olhos que delas não poderão estar ausentes as iniciativas de integração de infraestrutura física, principalmente, de transportes, visando à incorporação do subcontinente sul-americano ao dinamismo desenvolvimentista deflagrado pela estratégia de integração da Eurásia, encabeçada pela China e a Rússia.

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