Paul Volcker, cavaleiro da usura

A morte do economista estadunidense Paul Volcker, ex-presidente do Sistema da Reserva Federal, motivou manchetes e reportagens midiáticas cujos títulos podem ser sintetizados na fórmula “um funcionário público que combateu ferrenhamente a inflação”. Elio Gaspari, em sua coluna no Globo e na Folha de S. Paulo, destacou o fato de ser tido como uma espécie de asceta, que vestia-se mal e morava numa quitinete quando residiu em Washington. Algumas poucas citaram o papel determinante do choque de juros decretado por ele, em 1979, na deflagração da crise da dívida externa do Brasil e muitos países em desenvolvimento, que marcou toda a década de 1980.

Acima de tudo, Volcker foi um eficiente tecnocrata a serviço do sistema financeiro internacional, mesmo antes de ocupar a Reserva Federal, entre 1979 e 1987, tendo participado diretamente das principais decisões que ensejaram a conversão do Sistema de Bretton Woods, responsável pelas quase três décadas de prosperidade do pós-guerra, no cassino global dos nossos dias, totalmente dominado pela alta finança especulativa, em detrimento do fomento à economia real.

Formado na Universidade Princeton e na London School of Economics, iniciou sua carreira alternando posições no governo, na Secretaria do Tesouro de John Kennedy (1961-1963) e Lyndon Johnson (1963-1969), e no banco Chase Manhattan da família Rockefeller, antes de retornar ao governo, como subscretário do Tesouro para Assuntos Monetários Externos, em 1969.

Ali, com apenas 32 anos, tomou parte ativa na articulação tramada nos altos círculos financeiros estadunidenses para acabar com o Sistema de Bretton Woods, baseado na vinculação do dólar ao ouro e na das demais moedas nacionais ao dólar, com estreitas faixas de variação, o que proporcionava uma considerável estabilidade ao sistema financeiro e às trocas internacionais.

Naquele momento, o arranjo já se tornara incômodo para os interesses do Establishment estadunidense, devido às demandas das principais economias europeias com superávits comerciais crescentes com os EUA, em especial, a França de Charles de Gaulle, que exigiam a troca dos dólares acumulados por ouro, segundo as regras em vigor. Em vez de reformular o sistema, como propunham numerosos economistas e políticos, entre eles o assessor econômico de de Gaulle, Jacques Roueff, os oligarcas estadunidenses decidiram simplesmente detoná-lo.

Juntamente com altos próceres do Establishment, o secretário do Tesouro John Connaly, George Shultz e Henry Kissinger, Volcker integrou o grupo que convenceu o presidente Richard Nixon (1969-1974) a desvincular o valor do dólar do ouro, o que ocorreu em agosto de 1971, data que marcou o início da “financeirização” da economia mundial que ainda hoje prevalece.

Em 1979, Volcker foi nomeado pelo presidente Jimmy Carter (1977-1981) para a presidência da Reserva Federal. No mesmo ano, a pretexto do combate à inflação, iniciou uma brutal escalada que triplicaria os juros básicos do “Fed”, levando-os à impressionante marca de 21,5%, ao final de 1980. Além de devastar muitos dos setores produtivos dos próprios EUA, o choque de juros deflagrou uma crise generalizada entre os países em desenvolvimento, Brasil inclusive, que haviam contraído vultosos empréstimos externos vinculados à armadilha dos juros flutuantes. A famigerada “crise da dívida”, que marcou toda a década de 1980, arruinou os planos de desenvolvimento daqueles países.

Em realidade, Volcker apenas colocou em prática uma agenda planejada no final da década de 1970 pelos “donos do poder” real nos EUA, agrupados no célebre Conselho de Relações Exteriores (CFR), especificada em uma série de estudos coletivamente rotulados como “Projeto para os anos 1980” (Project 1980s). A essência do projeto contemplava uma “desintegração controlada da economia”, codinome para uma transferência de controle para o setor financeiro combinada com um bloqueio dos planos de progresso das economias que lutavam para superar o subdesenvolvimento.

Em paralelo com a explosão de juros, Volcker ativou uma série de medidas para iniciar um gradativo processo de desregulamentação do sistema financeiro, com o intuito de eliminar as diretrizes oriundas do New Deal de Franklin Roosevelt (1933-1945), as quais impunham uma série de restrições à especulação financeira. Tais medidas culminariam na década de 1990, no reinado de seu sucessor Alan Greenspan, quando o governo de Bill Clinton (1993-2001) conseguiu a anulação da Lei Glass-Steagall de 1933, que separava os bancos comerciais dos de investimento.

Após deixar o “Fed”, Volcker voltou a Wall Street, onde prosseguiu sua vitoriosa carreira de serviçal do rentismo especulativo, inclusive, quando tornou-se um dos assessores econômicos de Barack Obama (2009-2017) e integrou o seu Conselho de Assessoria Econômica, até 2011. Neste período, envidou todos os esforços para preservar o sistema financeiro baseado na “independência” do banco central – eufemismo para a hegemonia financeira – e para bloquear as tentativas de retomada dos princípios da Lei Glass-Steagall, após a crise de 2008.

Volcker pode ter sido um homem público austero e um tecnocrata compromissado com os seus deveres, mas não se podem esquecer os calamitosos efeitos das suas políticas sobre as vidas de centenas de milhões de pessoas, em numerosos países. A sua morte, quando o sistema financeiro mundial apresenta evidências crescentes de disfuncionalidade, talvez, seja simbólica do esgotamento de uma era de hegemonia financeira.

x

Check Also

A craca neoliberal e o exclusivo “capitalismo sem risco” brasileiro

No final de março, quando já havia certeza sobre o grande impacto da pandemia de ...