OTAN se "projeta" no Atlântico Sul

Desde que começou a se estruturar como uma espécie de “gendarmeria global”, após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) não faz segredo de suas pretensões de projetar-se sobre o Atlântico Sul. Como a antiga pretensão dos EUA, que controlam a entidade, de estabelecer uma “OTAS” com os países que margeiam o oceano meridional, não foi bem recebida na região, em especial, pela rejeição do Brasil, Washington e Bruxelas têm optado por uma estratégia literal de “comer pelas beiradas”, envolvendo os países da região em sucessivas manobras militares, às quais o Brasil também se juntou este ano.

A partir de 2011, a Marinha dos EUA (US Navy) tem encabeçado os exercícios multinacionais chamados Obangame Express, reunindo belonaves de países membros da OTAN e africanos, para manobras de patrulhamento do Golfo da Guiné, área de escoamento do petróleo produzido pelos países da região. Desde então, o número de países participantes subiu de nove para nada menos que 22, inclusive, de marinhas de países bastante distantes, como a Dinamarca e a Turquia. Segundo o jornalista Roberto Lopes, especializado em assuntos militares, o Brasil foi incluído nas manobras em 2013 e, na edição deste ano, realizada em abril, enviou para participar delas o navio-patrulha oceânico P-121 Apa, uma das unidades mais modernas da frota brasileira (Defesanet, 25/04/2014).

O jornalista recorda que, em 2010, tanto o Pentágono como a OTAN pressionaram o governo brasileiro, para apoiar uma iniciativa que permitiría a extensão da jurisdição da Aliança Atlântica ao Atlântico Sul. Na ocasião, o então ministro da Defesa Nelson Jobim manifestou a oposição brasileira à pretensão, nos termos mais diplomaticamente vigorosos possíveis, em varias oportunidades, inclusive, em uma palestra no Instituto Nacional de Defesa, em Lisboa, em setembro, dois meses antes da cúpula da própria OTAN na capital lusitana. No evento, Jobim não apenas deu o recado de que o Brasil considerava como distintas “as questões de segurança das duas metades desse oceano”, como afirmou, sem meias palavras, que, após a Guerra Fria, a OTAN havia passado “a servir de instrumento de seu membro exponencial, os EUA, e dos aliados europeus” (O Estado de S. Paulo, 14/09/2010).

Em novembro do mesmo ano, Jobim voltou a se manifestar sobre o tema, na 10ª Conferência do Forte de Copacabana, evento anual patrocinado pela Fundação Konrad Adenauer, do Partido Democrata Cristão da Alemanha, para promover um “diálogo” sobre questões de segurança entre a Europa e a América do Sul, principalmente, o Brasil. Ali, Jobim respondeu acidamente ao general alemão Klaus Naumann, ex-chefe do Estado Maior do Exército e ex-diretor do Comitê Militar da OTAN, que afirmou que a Europa é o “parceiro preferencial” dos EUA para a manutenção do seu papel dominante no mundo.

Depois de dizer que “não seremos parceiros dos EUA para que eles mantenham o seu papel no mundo”, o ministro afirmou que, em sua opinião, a Europa “não se libertará” de sua dependencia dos EUA e, por isso, tende a reducir o seu perfil geopolítico. Enquanto isso, o da América do Sul tenderia a aumentar, pelo crescimento econômico e pelos seus recursos naturais abundantes (Folha de S. Paulo, 4/11/2010).

De acordo com Roberto Lopes, nos últimos quatro anos, a OTAN tem investido em atrair países latino-americanos, como a Colômbia e o Chile, para estabelecer com eles os chamados “acordos de cooperação”, visando a futuras adesões. Este ano, o novo governo do México também se mostrou disposto a estabelecer um vínculo permanente com a organização.

Para ele, embora a Marinha do Brasil (MB) venha ampliando as relações com forças navais africanas – como Namíbia, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Moçambique -, nas últimas duas décadas, as proverbiais restrições orçamentárias têm impedido um aprofundamento desta cooperação.

Nesse contexto, é difícil se entender a motivação das autoridades navais brasileiras para participar das manobras da OTAN, o que, na prática, lhes confere um “selo” de aprovação tácita. Quaisquer ganhos eventuais de adestramento em um ambiente de operações multinacionais, que poderiam justificá-la, talvez, não compensem o óbice político da chancela implícita de operações que contrariam a visão estratégica nacional sobre o oceano meridional. Bem mais relevante seria, entre outras medidas, tratar de ampliar e consolidar a cooperação com os países que compartilham o Atlântico Sul, a começar pela vizinha Argentina e a África do Sul e, posteriormente, com outros países com menos recursos econômicos e tecnológicos.

Particularmente relevantes para tal propósito seriam projetos de tecnologia avançada, como um satélite de vigilância para finalidades civis e militares, de que nenhum desses países dispõe, o qual poderia ser desenvolvido e operado em conjunto pelo Brasil, Argentina e África do Sul, em uma parceria que, eventualmente, poderia ser estendida a outros países.

O Brasil já tem experiências de cooperação tecnológica com os dois países, inclusive, em projetos de maior sofisticação, como o do míssil ar-ar A-Darter, desenvolvido pela empresa sul-africana Denel e as brasileiras Avibrás, Mectron e Opto Eletrônica, com a participação da Força Aérea Brasileira (FAB). O míssil deverá entrar em serviço em 2016 e equipará as aeronaves de combate da FAB e da Força Aérea Sul-africana (SAAF).

Por sua vez, a Argentina tem um centro de excelência tecnológica na empresa Invap, que já desenvolveu vários projetos de satélites artificiais, inclusive, equipados com radares de abertura sintética, ideais para finalidades de monitoramento e vigilância no Atlântico Sul. Com uma liderança de iniciativa vinda de Brasília, possivelmente, se poderia mobilizar a necessária vontade política em Buenos Aires e Pretória. Além de ampliar consideravelmente as sinergias entre países chave para a segurança do Atlântico Sul, em um cenário “extra-OTAN”, um projeto do gênero constituiria uma iniciativa estratégica de grande relevância, em particular, se a Argentina tiver aceito o seu pedido de inclusão no BRICS, que deverá ser examinado na próxima cúpula do grupo, em Fortaleza, em julho próximo.




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