Os fariseus da seca

A seca que atinge o Sudeste do País não poderia deixar de servir de pretexto para novas intervenções farisaicas dos adeptos da ideologia ambientalista, sempre prontos para aproveitar oportunidades de enfatizar o objetivo de subordinar os requisitos de desenvolvimento e progresso da humanidade aos ditames de uma “proteção” do meio ambiente, geralmente, definida com critérios muito mais ideológicos do que científicos.

Um exemplo foi o estudo, divulgado com grande estardalhaço midiático, que atribuía a seca em São Paulo ao desmatamento da Amazônia, apesar da absoluta falta de evidências comprobatórias. Oportunamente, ele foi logo desqualificado por numerosos cientistas, inclusive, alguns defensores da igualmente não comprovada hipótese da influência humana no clima em escala global.

Outro, ainda mais disparatado, foi o artigo do biólogo Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, publicado em 15 de fevereiro no jornal O Globo. Com o pretensioso título “Nós avisamos”, o autor lançou um feroz ataque aos tomadores de decisões, por ignorarem as advertências da academia e dos ambientalistas “sobre o mito da abundância de recursos naturais no Brasil e a extrema vulnerabilidade do país às mudanças climáticas”. Em sua diatribe, ele chega ao extremo de atribuir parcialmente a crise hídrica à ação dos recém-nomeados ministros Aldo Rebelo (Ciência, Tecnologia e Inovação) e Kátia Abreu (Agricultura), devido à sua atuação pregressa nas negociações da reforma do Código Florestal, segundo ele, em detrimento da proteção das matas ciliares necessárias à conservação das nascentes dos rios.

“Aposto que aqueles metros de mata ciliar andam fazendo falta na torneira dos eleitores de Aldo Rebelo em São Paulo”, dispara Rittl.

Para qualquer pessoa racional e com um mínimo de conhecimento dos fatos, é difícil acompanhar argumentação tão esdrúxula, mais adequada para militantes e indivíduos obcecados pelo ideário do radicalismo ambientalista. Em lugar de apontar o dedo para os agora ministros, Rittl prestaria um serviço realmente útil se propusesse uma discussão honesta sobre as raízes mais profundas da crise que ameaça o abastecimento de água e eletricidade, com potenciais impactos em todo o País.

Ao contrário da não comprovada interferência humana no clima global, a abundância de recursos naturais no Brasil não é um “mito”, pois eles são mais que suficientes para assegurar os insumos necessários a um amplo esforço nacional de desenvolvimento, sustentável a longo prazo e inclusivo para todos os segmentos da sociedade. O que falta é consolidar a exploração e o uso racional deles na formulação das políticas públicas, de modo a otimizar os seus benefícios e reduzir os impactos socioambientais correspondentes, sem os excessos decorrentes do ambientalismo. Os recursos hídricos proporcionam bons exemplos disso.

Um deles é a insidiosa investida do aparato ambientalista-indigenista internacional contra a construção de usinas hidrelétricas com grandes reservatórios, em especial,na Região Amazônica – item no qual a submissão dos sucessivos governos brasileiros a tais ditames, nas últimas décadas, está custando muito caro ao País.

Rittl se queixa: “E os ambientalistas ainda levaram a culpa por ‘não deixarem’ fazer grandes reservatórios na Amazônia.”

A usina de Belo Monte, no rio Xingu, é um caso clássico. Tendo tido o seu reservatório reduzido em quase 60% em relação às dimensões do projeto original, tem uma potência média de apenas 4.500 megawatts (contra uma potência nominal de 11.200 MW), que, no período mais seco do ano, cairá para pouco mais de 1.000 MW.

Nos países desenvolvidos, está consolidado há décadas o conceito dos usos múltiplos dos reservatórios – para geração elétrica, navegação, abastecimento, recreação etc. -, na prática, ainda desconhecido por aqui, onde, por exemplo, ainda se permite o barramento de rios navegáveis sem eclusas, devido à falta de integração entre os setores correspondentes da administração pública e entre estes e o setor privado.

Nas hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, as eclusas sequer foram consideradas, inviabilizando a extensão da hidrovia que, futuramente, com a eventual construção da usina binacional de Ribeirão, na fronteira com a Bolívia, poderia se estender pelo rio Guaporé até Vila Bela da Santíssima Trindade (MT), a 300 km de Cáceres (MT), ponto inicial da hidrovia Paraguai-Paraná.

Outra deficiência é o planejamento e a regulamentação do uso do solo tomando como bases as bacias hidrográficas, que, embora existam formalmente, ainda estão muito distantes de funcionar na prática. E não será penalizando-se os proprietários individuais que se irá solucionar a proteção das cabeceiras dos rios, fundamental para a recarga dos aquíferos.

Igualmente, em São Paulo, é difícil se responsabilizar Rebelo e Abreu por algumas das consequências da conversão da Sabesp em uma empresa de capital aberto, entre elas, a obrigatoriedade de destinar aos acionistas uma considerável parcela da receita da empresa – que, certamente, tem feito falta para os investimentos na melhoria e manutenção da rede de distribuição de água, às voltas com perdas da ordem de 30%.

Como observou em um artigo publicado neste sítio o Dr. Luiz Carlos Baldicero Molion, um dos expoentes da Climatologia brasileira, nas décadas de 1930 e 1960, o estado de São Paulo registrou períodos intensos de secas, evidenciando que o fenômeno não constitui novidade e, por conseguinte, deveria ser adequadamente considerado nos planos dos administradores públicos (“O desmatamento na Amazônia e as secas no Sudeste”).

Da mesma forma, não foram os ministros os responsáveis pelo escamoteamento da seriedade do problema em um ano eleitoral como foi 2014, quando os efeitos da escassez de chuvas já eram visíveis e exigiam, no mínimo, uma campanha de esclarecimento da população.

Em essência, a crise hídrica pode ser atribuída à atávica tendência dos poderes públicos nacionais de “empurrar com a barriga” o enfrentamento efetivo de problemas que demandem soluções de longo prazo e transcendam a duração dos mandatos eletivos, com os necessários planejamento e implementação, em especial, no tocante à alocação de recursos financeiros para os projetos correspondentes.

Finalmente, é um fato que a gestão física da ocupação do território necessita ser incorporada a sério à formulação e à execução das políticas públicas, mas os numerosos efeitos deletérios do radicalismo ambientalista demonstram que os excessos do discurso ideológico precisam ser, definitivamente, substituídos por uma orientação equilibrada e não engajada, baseada na melhor informação científica e, sobretudo, no bom senso.

Em síntese, a crise hídrica requer análises e propostas realmente sérias, em vez de proselitismo farisaico.

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