Os biocombustíveis da fome

O mundo está diante de uma iminente crise dos alimentos, com os EUA, os maiores exportadores mundiais, enfrentando a pior seca dos últimos 50 anos e os preços dos gêneros alimentícios quebrando recordes no mercado internacional. Em meio a esse cenário conturbado, um número crescente de vozes tem apontado a decisão de diversos governos, EUA inclusive, de impulsionar o consumo de biocombustíveis, como um sério fator agravante. Até mesmo grandes corporações alimentícias transnacionais têm se juntado às advertências de que a persistência dessa política “verde” de usar grãos como combustível está contribuindo para configurar uma crise alimentícia pior que a de 2007-2008.

Em reportagem publicada em 19 de julho, o diário londrino Financial Times destacou que a seca que assola os EUA está “empurrando os preços das commodities agrícolas para altas recordes. Os preços do milho e da soja subiram para níveis recordes nesta quinta-feira [19/07], superando os picos da crise de 2007-2008, quando revoltas estouraram em mais de 30 países. Os preços do trigo ainda não atingiram níveis recordes, mas tiveram alta de mais de 50% nas últimas cinco semanas, superando os preços observados quando a Rússia baniu a exportação do grão, em 2010″.

Entretanto, segundo o FT, a seca nos EUA é apenas parte da história, pois o país tem incentivado a conversão de vastas quantidades de milho em bicombustível: “A maior redução potencial na demanda por milho vem da indústria do etanol, a qual consome 50 bilhões de bushels [equivalente a 1,2 bilhão de toneladas], ou aproximadamente 40% de todo o milho colhido nos EUA a cada ano, para fazer combustível para automóveis e para alimentar animais”. O jornal destacou ainda que o governo britânico considera seguir o exemplo, e que o Escritório Parlamentar de Ciência e Tecnologia do Reino Unido se manifestou, recentemente, sobre o uso dos biocombustíveis, ocasião na qual demonstrou pouca preocupação com o impacto que tal uso teria.

Críticas até certo ponto surpreendentes a tal prática têm vindo das multinacionais de alimentos. É o caso do presidente da Nestlé, Peter Brabeck-Letmathe, que afirmou à BBC (18/07/2012) que, “se os alimentos não fossem usados para produzir combustível, os preços cairiam novamente – isso é bastante evidente”. Segundo o executivo, os biocombustíveis só são economicamente viáveis devido aos grandes subsídios que recebem dos governos, em especial nos EUA: “Isso é absolutamente inaceitável e não pode ser justificável… Eu só peço uma coisa, que não se use comida como combustível.”

Para ele, os políticos ainda não compreendem que o mercado de alimentos e o mercado de combustíveis são uma só coisa: “A única diferença é que no mercado de alimentos você precisa de 2.500 calorias por pessoa por dia, enquanto, no mercado de energia, são necessárias 50.000 calorias por pessoa.”

Segundo Brabeck-Letmanthe, portanto, quando políticos resolvem substituir 20% dos combustíveis fósseis por biocombustíveis, isto significa que a produção agrícola terá que triplicar.

Outro aspecto ignorado, apontou ele, é o fato de que a agricultura consome 70% da água potável utilizada no mundo, o que significa que, ao promover o uso dos biocombustíveis, diversos países também contribuem para agravar a questão do acesso à água. Em suas palavras, “são necessários 4.500 litros de água para produzir um litro de etanol a partir de cana de açúcar, e 1.900 litros de água por litro de bicombustível feito com óleo de palma”.

Outro executivo do setor a protestar contra os biocombustíveis é o presidente da Cargill, Paul Conway, cuja percepção é a de que a “explosão no uso de biocombustíveis e a financeirização dos mercados agrícolas” têm contribuído para a alta dos preços alimentos. A mesma posição também é defendida por Ken Powell, executivo-chefe da General Mills, para quem os subsídios do governo estadunidense ao etanol estão resultando no encarecimento do milho: “Estamos aumentando o preço dos alimentos sem necessidade (The Guardian, 19/07/2012).”

Até mesmo os mercados têm se mostrado preocupados com os impactos dos biocombustíveis nos preços dos alimentos. Segundo a analista Karen Maley, do boletim Business Spectator (20/07/2012), “os mercados estão se preparando para uma onda de instabilidade global”, com os “preços do milho e da soja subindo para níveis recordes noovernight”. Maley destacou que muitos analistas estão alertando que o mundo pode enfrentar um “período de intensa instabilidade social e política, similar ao que se observou em 2007-2008, quando rebeliões atingiram dezenas de países”, em especial, os mais pobres, nos quais a maioria da população gasta cerca de 3/4 de sua renda para comprar comida.

As preocupações com o impacto dos biocombustíveis no preço dos alimentos têm sido compartilhadas pelo G-20, que, em 2 de junho, publicou um relatório intitulado Price Volatility in Food and Agricultural Markets: Policy Responses(Volatilidade nos preços dos alimentos e mercados agrícolas: respostas políticas). O estudo, realizado em parceria com organizações internacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas para os Alimentos e a Agricultura (FAO), aponta que os incrementos na produção de biocombustíveis têm reduzido o suprimento de alimentos, o que está provocando o aumento de preços de grãos (Nuffiled Council on Bioethics, 13/06/2012).

O estudo sugere aos países-membros do G-20 a por fim às políticas nacionais de subsídio ou de ampliação do consumo de biocombustíveis, destacando a meta estabelecida pelo governo britânico, em 2009, de ampliar até 2013 a participação dos biocombustíveis, no setor de transportes, para 5% de todo o combustível consumido no país. O relatório sugere ainda que, caso seja inviável simplesmente abolir tais programas de incentivo aos biocombustíveis, que ao menos estes sejam modificados para se ajustarem temporariamente aos momentos de maior pressão nos mercados globais de alimentos.

O desvio de grandes proporções das safras de grãos para a produção de etanol, que nos EUA chega a 40% do milho colhido (quantidade suficiente para alimentar 300 milhões de pessoas), é uma consequência de uma espúria combinação entre a agenda ambientalista de redução do uso de combustíveis fósseis e o sentido de oportunidade dos mercados financeiros, sempre atento e pronto para criar novas fontes de recursos para a preservação dos fluxos especulativos que elevaram o sistema financeiro internacional ao paroxismo de instabilidade que exibe, atualmente. Em raros países, como o Brasil, existem condições favoráveis à produção de etanol e outros biocombustíveis sem acarretar grandes prejuízos às colheitas alimentícias. Na grande maioria dos que têm aderido a esta agenda, independentemente dos motivos particulares, a produção de biocombustíveis é sinônimo de agravamento da fome no planeta.

2 comments

  1. Os políticos e eleitores dos partidos republicano e democrata precisam ler o terceiro artigo do jornalista estadunidense Mattew L.Wald na revista Scientific American em 2007,que o brasileiro pode ter também o privilégio de le-lo na edição brasileira da revista de junho daquele ano.No artigo,Mattew mostra que cientistas de seu país,descobriram que é possível se usar a palha do milho e não seus grãos,para se produzir etanol.Infelismente não sei se os cientistas conseguiram fazer com que microorganismos que convertem a palha do milho em etanol,aumentassem de forma controlada nos tanques.

  2. Sou a favor dos biocombustíveis, porem não quando extraído de produtos alimentícios, as pesquisas mais recentes estão tentando produzir etanol não apenas da palha de milho e cana, mas de toda matéria que contenha celulose, portanto papel, madeiras de descarte (podas ou entulho de construção, etc) Assim como as pesquisas para obter etanol a partir de algas e varias outras alternativas. O que falta é incentivo sim da indústria em financiar as pesquisas, pois o petróleo ainda é o que gira o mundo, apenas quando esse recurso altamente lucrativo estiver bem próximo de sua extinção as atenção serão voltadas de fato para alternativas renováveis de maneira mais séria. Infelizmente.

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