O perigo de uma nova “Crise dos Mísseis de Cuba”

A recusa dos setores mais radicais do Establishment dos EUA em aceitar a dinâmica da mudança de época global, com a determinação da aliança estratégica Rússia-China para promover uma nova ordenação cooperativa e não hegemônica para o cenário mundial, está criando uma situação potencialmente explosiva, que pode resultar em um novo conflito de grandes proporções.

De Washington, não cessam de jorrar manifestações de que pelo menos alguns segmentos das elites “excepcionalistas” estadunidenses estão dispostos a ir às últimas consequências para sustentar o status hegemônico que o país tem desfrutado desde o fim da Guerra Fria, pretensão que se mostra cada vez mais insustentável.

Uma delas é o documento “Operações nucleares” (Nuclear Operations), do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, que contém “princípios fundamentais e orientação para planificar, executar e avaliar operações nucleares” (RT, 20/06/2019, documento original neste link). A orientação do texto é clara: o comando militar estadunidense sustenta a antiga e perigosa ilusão de que é possível vencer uma guerra nuclear.

“Utilizar armas nucleares [táticas – n.e.] poderia criar condições para resultados decisivos e o estabelecimento da estabilidade estratégica”, afirma o documento, acrescentando que o seu uso “mudará fundamentalmente o alcance de uma batalha e criará condições que afetarão a maneira em que os comandantes prevalecerão em um conflito”.

Em outro trecho, que poderia ter sido retirado dos roteiros de filmes apocalípticos de Hollywood, como Dr. Fantástico ou Limite de segurança (ambos de 1964), o texto menciona os bombardeiros estratégicos nucleares (B-1 e B-52) como oferecendo “o maior grau de flexibilidade na tríade [nuclear, que inclui submarinos e mísseis intercontinentais – n.e.], porque eles podem ser um sinal de determinação altamente visível e, uma vez tendo recebido ordens de conduzir um ataque nuclear, podem ser chamados de volta”.

Na mesma linha, o vice-chefe do Estado-Maior Conjunto, general Paul Selva, tem reforçado tal insanidade publicamente, sugerindo que parte das ogivas dos mísseis intercontinentais Trident lançados de submarinos seja substituída por ogivas de baixa potência, para permitir o seu emprego tático. A proposta recebeu uma dura resposta da chancelaria russa, destacando que não há maneira de se limitar o uso de armas nucleares em uma guerra entre as superpotências. A nota afirma que os EUA estão retornando à visão doutrinária “de 60 anos atrás”, quando concebia ser possível travar e vencer uma “guerra nuclear limitada”. Porém, ressalta, qualquer lançamento de uma arma nuclear contra o território russo, “independentemente da capacidade da sua ogiva, será tratada como uma agressão com o uso de armas nucleares e respondida de forma apropriada”.

Não obstante, a nota afirma que a pretensão tem menos a ver com a Rússia do que com outros países “rebeldes” à liderança estadunidense: “Parece que Washington não se importaria em fazer das ogivas de baixa potência um menio de chantagear os países que se opoem aos ditames estadunidenses.”

Outra iniciativa preocupante é a retirada unilateral estadunidense do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, em inglês), que, somada à aparente falta de interesse na renovação do Tratado de Redução de Armas Estratégicas III (START III) com a Rússia, tem instigado as desconfianças de Moscou sobre as motivações desses grupos.

Em 24 de junho, o vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Riabkov, afirmou que a colocação de mísseis terrestres próximo às fronteiras russas poderia provocar um impasse comparável à Crise dos Mísseis de Cuba de outubro de 1962, quando as duas superpotências estiveram muito próximo de um tiroteio nuclear.

“Se se chega à mobilização real de tais sistemas em terra, a situação não só se complicará, mas piorará até o limite. Poderemos encontrar-nos em uma situação de crise de mísseis, não só parecida com a crise da década de 1980, mas com a do Caribe”, disse ele, em uma reunião do Conselho da Federação (RT, 24/06/2019).

De acordo com ele, a Rússia não pode deixar de reagir de forma recíproca ao abandono do INF, atitude que qualificou como “um importante passo desestabilizador que fragiliza a segurança regional”.

Aparentemente, o fato de a Rússia dispor de um novo e ultramoderno arsenal de armas hipersônicas, contra as quais os EUA não têm qualquer defesa e capazes de assegurar uma devastadora capacidade de retaliação a um eventual ataque, não tem sido suficiente para arrefecer os ânimos belicistas dos piromaníacos de Washington. E as provocações não precisam nem restringir-se ao campo nuclear. Em 15 de junho, o jornalista do New York Times David Sanger revelou que os EUA estão conduzindo ataques cibernéticos contra a rede elétrica russa, como uma “advertência” ao presidente Vladimir Putin. A reação de Donald Trump foi considerar a reportagem como “um ato de traição”, mas, em um irônico comentário, o ex-analista da CIA Philip Giraldi se perguntou “por que Sanger não foi preso por expor uma informação de segurança nacional”, além de apontar o risco de que tais agressões poderiam levar rapidamente a uma perigosa escalada (Checkpoint Asia, 24/06/2019).

A esses fatos, acrescentem-se as crescentes provocações de Washington contra o Irã, que resultaram no abate de um sofisticado drone Global Hawk da Marinha estadunidense por um míssil antiaéreo iraniano, em 20 de junho. O ataque foi respondido com a ameaça de um ataque retaliatório contra instalações miltiares iranianas, alegadamente, cancelado por Trump minutos antes de ser lançado, além de novas manifestações agressivas via Twitter do ocupante da Casa Branca, ameaçando “obliterar” partes do Irã, em caso de um novo ataque.

A despeito da sua retórica, Trump não parece estar interessado em inaugurar um novo conflito, ainda mais com uma potência militar em condições de dar uma firme resposta assimétrica a um ataque eventual, caso do Irã, o que seria um evidente óbice para a sua já lançada campanha de reeleição. Uma evidência foi a rara acusação pública ao ultrabelicista conselheiro de Segurança Nacional John Bolton, feita em uma entrevista à rede NBC, na qual afirmou que tem tanto “pombas” e “falcões” no seu gabinete. “John Bolton é absolutamente um falcão. Se dependesse dele, ele encararia o mundo inteiro ao mesmo tempo. Mas não importa, porque eu quero ambos os lados”, disse ele ao jornalista Chuck Todd (The Hill, 23/06/2019).

O problema é que os “neoconservadores”, como Bolton e seus sequazes, não se mostram dispostos a abandonar a agenda de provocações contra o país persa. Este, por sua vez, tem também um Establishment orgulhoso e seguro de suas capacidades, centrado na Guarda Revolucionária, que controla os recursos militares mais avançados do país, inclusive o sofisticado sistema de mísseis antiaéreos que derrubou o drone estadunidense capaz de voar a 18.000 metros de altitude, surpreendendo o Pentágono.

Para piorar, ao contrário de 1962, havia estadistas de grosso calibre em serviço nas principais capitais, inclusive na Europa, onde hoje são inexistentes. Por isso, nessa atmosfera carregada de gases combustíveis, qualquer descuido ou provocação mais agressiva tem potencial para provocar uma violenta explosão de consequências imprevisíveis.

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