O fim da “Nova República”

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Em um comentário publicado hoje no seu sítio (“O fim do período da Nova República”), o jornalista Luís Nassif falou sobre o significado das manifestações públicas dos últimos dias. Em suas palavras:

São estranhos esses tempos de vácuo político. O velho morreu, o novo ainda não nasceu. E o que pode vir pela frente é uma incógnita. A redemocratização foi montada em cima de uma gambiarra, composta por membros do velho MDB e uma fauna variada, egressa da Arena. A morte de Tancredo Neves criou um vácuo político. Depois dos pacotes econômicos, José Sarney terminou o último ano de seu governo de joelhos. O vácuo político criado abriu espaço para a aventura Fernando Collor. Sem base política, sem um know-how de governança, em pouco tempo inviabilizou seu governo. A partir dos destroços de Collor, e após o curto interregno Itamar Franco, firma-se um bi partidarismo – PSDB e PT – que conduziria o país pelas décadas seguintes, com um partido-ônibus auxiliar. No governo FHC, foi o PFL; no governo Lula, o PMDB.

A rigor, embora Nassif atribua a qualificação de “interregno” ao governo de Itamar Franco (1992-94), ela se aplicaria melhor à fase final do regime de 1964, com o esgotamento do modelo de desenvolvimento baseado no endividamento direto, provocado pela crise da dívida de 1982, que abriu caminho para as rodadas de renegociações da dívida externa (Plano Brady) e a “globalização financeira” da economia mundial. Essa primazia do rentismo, em geral apoiado pela grande mídia, foi herdada pela “Nova República” e se manifesta, hoje, no vergonhoso contraste entre a prioridade absoluta atribuída na formulação das políticas do governo ao serviço da dívida pública, enquanto as necessidades reais dos setores produtivos e da sociedade em geral – investimentos em educação, saúde, infraestrutura etc. – têm que se contentar com as sobras orçamentárias e se conformar com os famigerados contingenciamentos das verbas setoriais.

O que denota a eclosão das recentes manifestações é a ausência de um propósito coletivo de nação, lacuna cujo preenchimento irá requerer um novo projeto nacional de desenvolvimento, a exemplo do que já ocorreu em outros momentos da história brasileira, como a Revolução de 1930, herdeira dos ideais modernizadores do movimento tenentista da década anterior.

A propósito, tanto Getúlio Vargas em sua fase ditatorial como o próprio regime de 1964, com as deficiências de ambos, se orientavam por projetos nacionais bem definidos. Por ironia, com o fim do regime militar, a restauração democrática, cujas contradições estão refletidas na quilométrica e disfuncional Constituição de 1988, acabou praticamente se convertendo em um fim em si mesma, com o País sendo arrastado para a órbita da “globalização” e cada vez mais submetido à influência política de uma pletora de agentes supranacionais, como organizações não governamentais (ONGs) e fundações internacionais, que passaram a exercer uma enorme influência na formulação de políticas como as referentes ao meio ambiente, assuntos indígenas e outras áreas.

A “Nova República” está desenganada. Com os limites da democracia formal e do divórcio litigioso entre as classes políticas e a sociedade sendo escancarados pelas manifestações, começando pelas de junho de 2013, é urgente que a saída para esse impasse seja orientada para a formulação de um novo projeto nacional baseado no princípio do bem comum, capaz de restaurar a confiança no futuro hoje ausente na maioria da sociedade.

2 comments

  1. O Primeiro mandato de FHC foi razoável. O segundo, ruim. Já o de Lula, um desastre, péssimo. Ninguem quer que um pobre passe fome, mas o Bolsa família construiu um exército de milhões da vagabundos que não trabalham mais. Tudo errado. Vejam a quanto anda a dívida interna do País, e quanto se paga aos Bancos de juros, anualmente. E a roubalheira? Não me venham dizer que Brasileiro é povo trabalhador. Estão sendo estimulados a serem não trabalhadores. Nenhum País vai para frente assim.

    • A média do valor do benefício do Bolsa Família 2014 é de R$ 97,00, achas que uma família consegue se sustentar com isso. Faça as contas tem mais gente querendo sair do que entrar no programa. O o benéfico auxilia famílias em extrema pobreza, não dando conforto, nem mesmo chegando perto disso, mas apenas alguns itens alimentícios. Promove a movimentação da economia local. Pesquisas apontam que o custo médio que se tem com um filho desde seu nascimento até seus 23 anos de idade é de R$ 703,64 mil. Recebendo mensalmente R$ 97,00 durante 23 anos, o total é de R$ 26772,00. Compare com o valor total de quem não recebe e veja se realmente se esse valor permite a vadiagem dos beneficiários.

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