O coronavírus e a peste da usura

“A peste, atirada sobre os homens por justa cólera divina e para nossa exemplificação, tivera início nas regiões orientais. Incansável, fora de um lugar para outro, e estendera-se de forma miserável para ocidente […]. Nenhuma providência foi válida, nem valeu a pena qualquer providencia do homem.

“Entre tanta aflição e tanta miséria de nossa cidade, a autoridade das leis, quer divinas quer humanas desmoronara e dissolvera-se. Ministros e executores das leis, tanto quanto outros homens, todos estavam mortos, ou doentes, ou haviam perdido os seus familiares e assim não podiam exercer nenhuma função. Em consequência de tal situação permitia-se a todos fazer aquilo que melhor lhes aprouvesse.

“Para dar sepultura a grande quantidade de corpos, já não era suficiente a terra sagrada junto às igrejas; por isso, passaram-se a edificar igrejas nos cemitérios, punham-se nessas igrejas, às centenas, os cadáveres que iam chegando; e eles eram empilhados como as mercadorias nos navios.”

Não poderiam ser mais atuais as palavras do grande escritor italiano Giovanni Boccaccio, no Decameron (1353), descrevendo a extensão da Peste Negra, que, em meados do século XIV, eliminou quase a metade da população europeia, diretamente, pelos efeitos da pandemia, e indiretamente, em consequência da desagregação socioeconômica dela derivada – em condições de debilidade social, nos estertores de um sistema feudal dominado por um sistema bancário usurário.

Não muito diferentes são as condições da humanidade, na presente erupção da pandemia deflagrada pelo coronavírus Sars-CoV-2, não somente pelo potencial de mortalidade, mas também – e sobretudo – pelas condições impostas pela “globalização financeira” sobre a economia mundial, nas últimas décadas. Há meio século, seria impossível imaginar, por exemplo, que os EUA não disporiam da capacidade de produzir os seus próprios equipamentos de saúde pública, nem possuí-los em estoque, por ser mais conveniente financeiramente mandar produzi-los no estrangeiro (outsourcing). Ou que Washington pretendesse, vergonhosamente, facilitar vistos de entrada para médicos e enfermeiros estrangeiros, a fim de ajudarem a combater a pandemia nos EUA, como se não fossem necessários em seus próprios países e fossem sujeitos apenas ao mesmo princípio da mercantilização absoluta das atividades humanas, que está na raiz do presente impasse civilizatório, sobre o qual desabou a Covid-19. Lá, o que poderíamos qualificar de “saúde just in time” (outro preceito da “globalização”), mostra que o móvel do sistema de saúde estadunidense não é a proteção da população, mas os negócios que gravitam ao seu redor.

Agora, os cerca de 8 trilhões de dólares que os países do G-20 pretendem injetar na economia, correm o risco de, em grande medida, serem atirados no buraco negro do hiperalavancado e hiperespeculativo sistema financeiro global, assim como ocorreu na crise de 2008. Sim, a economia física e os empregos devem ser mantidos, mas este é um momento – talvez, irrepetível – de se reconduzir os Estados nacionais soberanos à sua função insubstituível de condutores e reguladores da vida econômica das nações, reenquadrando os respectivos sistemas financeiros e reorientando-os para a tarefa de sustentação da economia produtiva real, inclusive, com as suas próprias instituições de crédito público – subitamente, requisitadas até mesmo pelos mais radicais adeptos do liberalismo econômico.

No Brasil, onde o fundamentalismo de mercado e pró-rentista capitaneado pelo “superministro” Paulo Guedes vai sendo suplantado pelo peso da realidade, que exige uma pronta disposição de recursos públicos para o combate à emergência sanitária e socioeconômica, este será um momento de definições cruciais para o futuro imediato do País. É hora de se livrar a formulação das políticas econômicas do vírus da usura, que as infesta ininterruptamente desde a década de 1990, vide os lucros indecentes dos grandes bancos, em meio a cinco anos de estagnação econômica. É hora de iniciar já a inadiável reconstrução nacional, orientada pelo “Princípio do Bem Comum”.

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