Marina Silva em Londres: medalha colonial de salto para trás

A inesperada presença da ex-senadora e ex-ministra Marina Silva, na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, na sexta-feira 27 de julho, deve ser vista como uma clara mensagem ao Brasil, sobre a relevância da agenda ambientalista para os círculos internacionais que a controlam de cima para baixo. Em um momento em que o governo da presidente Dilma Rousseff tem dado sucessivas demonstrações de que pretende restringir a influência do aparato ambientalista-indigenista nas políticas públicas nacionais, os mentores do ambientalismo-indigenismo decidiram dar um “recado” ostensivo ao país que sediará as próximas Olimpíadas. Assim, o pretexto oficial, de “homenagear” a ex-ministra do Meio Ambiente, por sua trajetória na defesa do meio ambiente e da Floresta Amazônica, se presta apenas aos relatos ingênuos ou engajados publicados na mídia brasileira.

A própria Marina, em entrevista a Bob Fernandes, divulgada no dia seguinte, no blog do jornalista no portal Terra, admitiu que o convite do comitê organizador dos jogos foi feito à última hora, no domingo 22 de julho, tendo o comitê lhe pedido sigilo absoluto a respeito – com a evidente intenção de que a informação não chegasse a Brasília, antes da cerimônia. Na entrevista, ela afirmou, candidamente, que se sentiu honrada, porque o convite teria sido, “antes de tudo, o reconhecimento do Brasil como potência ambiental do mundo”.

O jornal Daily Mail (29/07/2012) ouviu um representante do comitê organizador, que afirmou: “Marina foi selecionada com base no trabalho ambiental e nas campanhas para proteger a Floresta Amazônica e outros assuntos ambientais, e estava representando o pilar ambiental do movimento olímpico. O trabalho dela em favor do meio ambiente tem sido reconhecido globalmente e o COI [Comitê Olímpico Internacional] estava plenamente a par da escolha de Marina para ajudar a carregar a bandeira.”

Em verdade, tratando-se de um ambiente olímpico, poder-se-ia dizer que a ex-ministra foi agraciada com um reconhecimento por serviços prestados, uma medalha virtual da modalidade “salto para trás” – a favorita do aparato ambientalista internacional, que tem nela um de seus grandes ícones da atualidade, na agenda de manipulação da causa ambiental para obstaculizar o pleno desenvolvimento de países como o Brasil.

Para quem estranhou a relação entre o COI e o ambientalismo, que justificasse o convite à ex-ministra, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, proporcionou uma explicação sucinta e objetiva: “Marina sempre teve boa relação com as casas reais da Europa e com a aristocracia europeia. Não podemos determinar quem a Casa Real vai convidar, fazer o que?” (Agência Estado, 27/07/2012).

De fato, a aristocracia europeia participa diretamente do “bloco de controle”, tanto do movimento ambientalista internacional como do COI, como se depreende da presença de notáveis representantes das casas monárquicas europeias nas principais ONGs ambientalistas e no Comitê, do qual cinco de seus oito presidentes foram condes, barões, marqueses e lordes, inclusive o atual, o belga Jacques Rogge.

A propósito, Marina Silva não é a primeira ambientalista brasileira a desfrutar de tal proximidade com a monarquia do Velho Continente: a primazia coube ao agrônomo José Lutzenberger, cuja nomeação como secretário de Meio Ambiente de Fernando Collor de Mello foi anunciada pelo então presidente eleito, após uma reunião com o príncipe Charles, em Londres. A própria Marina teve o seu nome anunciado pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, durante uma viagem aos EUA, o outro pólo de controle do ambientalismo, juntamente com o do futuro ministro da Fazenda Antônio Palocci, o que dá uma ideia da importância atribuída pelos poderes hegemônicos a tais áreas.

Ao saber das reações negativas da delegação governamental à sua presença na cerimônia, Marina teria chorado e acusado as autoridades de “apequenar” a sua participação, afirmando que a equipe de Dilma “não sabe separar as coisas” (Agência Estado, 28/07/2012).

Mas pelo menos um jornalista, o veterano Mauro Santayana, apontou na direção certa, ao comentar o fato em seu blog, em 30 de julho:

Marina é militante de uma causa vista como nobre, a da defesa da natureza. Mas não se pode dizer, com o mesmo reconhecimento, de que se trata de uma boa brasileira. Marina é hoje, e é preciso dizer, uma patriota do mundo. Nenhum brasileiro, vivo ou morto, foi tão homenageado pelos mais poderosos governos estrangeiros e organizações não governamentais do que esta senhora, ainda relativamente jovem. Ela, ao militar pela natureza universal, não tem servido realmente ao Brasil e à sua soberania. O Brasil, com o apoio, direto ou indireto, da senhora Silva, tem sido acusado de destruir a natureza.

Por sua vez, a indefectível Míriam Leitão, uma das mais graduadas porta-vozes do “globalismo” na mídia nacional, deixou de lado o tema habitual de sua coluna, a economia, para sair prontamente em defesa da ex-ministra, acusando o ministro Aldo Rebelo de não ter “entendido o espírito olímpico”. Segundo ela, “Marina é internacionalmente conhecida por sua militância ambiental, goste o governo ou não” (O Globo, 31/07/2012).

Efetivamente, o ministro pode não ter “entendido o espírito olímpico”, mas, como demonstrou a sua decisiva participação nas discussões do projeto de reforma do Código Florestal – o que o tornou um adversário detestado pelos “verdes” -, ele conhece perfeitamente os interesses e mecanismos que movimentam a agenda ambientalista e o apreço dos seus mentores pelos simbolismos.

De resto, outros simbolismos se manifestaram na cerimônia de Londres, com o hasteamento das bandeiras britânica e olímpica sendo conferido a um pelotão de 16 militares, selecionados a dedo entre veteranos das recentes intervenções britânicas nos Bálcãs, Afeganistão, Iraque e Líbia. Como observou, oportunamente e com ironia, o jornalista italiano Manlio Dinucci:

O fato de que um esquadrão militar tenha desfraldado não apenas a bandeira britânica, mas também a olímpica, foi um gesto altamente simbólico: a reafirmação de que as forças do Reino Unido e de outros países da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] não conduzem guerras de agressão, mas operam nos interesses da paz e da humanidade. É ultrajante que o Comitê Olímpico Internacional tenha autorizado esta escolha, que deveria ser banida em qualquer país em que as Olimpíadas sejam realizadas. Igualmente ultrajante é o fato de que a mídia internacional tenha ignorado o fato, embora estivesse presente em Londres com milhares de jornalistas. A sua tarefa foi a de descrever o chapéu usado por Sua Majestade, no momento em que a bandeira Olímpia era hasteada por soldados que estavam renovando a glória do Império Britânico (Il Manifesto, 29/07/2012).

Por tudo isso, é de muito bom alvitre que os brasileiros prestem atenção às palavras do ministro do Esporte e não se deixem ludibriar por encenações e fábulas para crédulos.

4 comments

  1. Marina sempre homenageada pelo aparato anglo-americano/europeu pelos serviços prestados a eles, é claro.

  2. Parece-me que já estamos numa nova guerra-fria. Mas acredito que os brasileiros razoalvelmente bem informados já perceberam que os primos ricos não deixaram o Brasil decolar tão facilmente. Marina Silva mais uma vez foi usada de forma descarada e desmedida pela ‘establishment’.

  3. Ressalvada a importância de fazer um contraponto ao consenso geral, haja teoria da conspiração (e rancor pela decadente aristocracia europeia)…

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