Mangabeira Unger esfria ímpeto de “aquecimentistas”

mangabeira_unger

A demissão de dois técnicos da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE), responsáveis por um levantamento sobre os impactos das mudanças climáticas na economia brasileira, pelo ministro Roberto Mangabeira Unger, provocou contrariedade nos “aquecimentistas” brasileiros, que avaliaram a medida como uma redução da importância dos temas climáticos na agenda do governo federal.

Os demitidos, na semana passada, foram o economista Sérgio Margulis, que ocupava a Secretaria de Desenvolvimento Sustentável do órgão, e a administradora de empresas Natalie Unterstell, diretora de Programas. Os dois eram encarregados da elaboração do estudo Brasil 2040: Cenários e Alternativas de Adaptação à Mudança do Clima, que deverá subsidiar as propostas brasileiras na conferência climática COP-21, em Paris, no final do ano. O estudo, iniciado há dois anos, ainda na gestão do economista Marcelo Neri à frente da SAE, desenvolve vários cenários sobre os efeitos das mudanças climáticas sobre a agricultura, energia, infraestrutura de transportes, costeira e urbana, saúde e recursos hídricos, no País. O trabalho, que deverá ser apresentado em abril, custou R$ 3,5 milhões, provenientes de recursos do Tesouro e de um apoio do governo do Reino Unido (Valor Econômico, 19/03/2015).

Para a ONG Observatório do Clima, que divulgou as demissões,

a troca no comando da secretaria sinaliza uma queda de importância da mudança climática no governo federal, justamente num momento em que essa agenda sobe na escala de prioridades de lideranças políticas no mundo todo. Em dezembro, um novo acordo global contra emissões deverá ser assinado numa conferência das Nações Unidas em Paris, a COP-21. Líderes de EUA, Europa, Índia e China têm dado declarações e feito acordos bilaterais para ampliar a possibilidade de sucesso em Paris. No Reino Unido, os líderes do governo e da oposição se juntaram para prometer esforços ampliados contra as mudanças do clima. Um grupo de megaempresários pediu em fevereiro que o planeta zere as emissões de CO2 em 2050, e o Banco da Inglaterra alertou na semana passada contra o risco de investir em combustíveis fósseis. Até o papa Francisco deve lançar nos próximos meses uma encíclica sobre a mudança climática.

A SAE informou que as mudanças fazem parte “do processo normal de definição de seus colaboradores imediatos pelo novo ministro e não indica qualquer esmorecimento no compromisso com as políticas de sustentabilidade, que sempre ocuparam e continuarão ocupando papel relevante na atuação da pasta”. Mas os “aquecimentistas” estão desconfiados das intenções de Mangabeira Unger, alguns dos quais recordaram que ele foi o pivô do pedido de demissão da então ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em 2008, quando a SAE, e não o Ministério do Meio Ambiente, foi encarregada da coordenação do Plano Amazônia Sustentável.

Em entrevista reproduzida em vários sítios noticiosos, o secretário-geral do Observatório do Clima, Carlos Rittl, manifestou uma “grande preocupação” com as demissões. Segundo ele, Margulis e Untersell estavam concluindo o estudo, considerado o mais importante já feito no Brasil sobre adaptação às mudanças climáticas. “O estudo forneceria dados para que o País pudesse repensar seu planejamento de longo prazo”, afirmou (R7 Notícias, 13/03/2015).

A rigor, não parece ser muito provável que a política nacional para as questões climáticas passe por uma guinada drástica, a curto prazo, como parecem temer os “aquecimentistas”, devido à extensão dos compromissos assumidos pelo País na área e, não menos, à fragilidade do governo neste início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff (a quem, de modo algum, interessaria criar mais um campo de conflito com forças de grande influência política e midiática). No entanto, a presença de Mangabeira Unger na SAE e de Aldo Rebelo no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) – ambos conhecedores da natureza política do catastrofismo climático – permite esperar uma posterior redefinição no setor, possibilitando uma futura reorientação de prioridades, que contemple os aspectos realmente relevantes para o necessário aumento da resiliência nacional aos fenômenos climáticos – meta para a qual o alarmismo e a obsessão com as emissões de carbono prevalecentes constituem um grande desserviço.

One comment

  1. Prezados,
    por favor, retificar informacao pois o Brasil 2040 nada tem a ver com emissoes de carbono. Muito ao contrario, ele foca na gestao de riscos, considerando diferentes niveis.
    atenciosamente,

x

Check Also

A “retomada verde” da OTAN

Por Lorenzo Carrasco e Geraldo Luís Lino Desde a implosão da União Soviética e do ...