Mais da metade da indústria brasileira precisa dar um salto tecnológico

A indústria brasileira está bastante atrasada para adaptar-se à chamada Quarta Revolução Industrial. De 24 setores industriais, 14 precisam dar um salto tecnológico para adaptar-se à crescente integração de diversos tipos de tecnologias nos processos produtivos, entre elas, a chamada Internet das Coisas, coleta e o processamento de dados em larga escala (Big Data), impressão 3D, robótica avançada e inteligência artificial. A avaliação consta de uma pesquisa recém divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) (Agência Brasil05/02/2018).

O estudo analisou taxas de produtividade, exportação, importação e inovação de diversos segmentos industriais brasileiros e realizou uma comparação com as 30 maiores economias do mundo, para avaliar a situação das empresas nacionais nos mercados interno e externo.

Segundo a pesquisa, os setores mais distantes do novo patamar de qualificação são os seguintes: impressão e reprodução; farmoquímicos e farmacêuticos; químicos; minerais não-metálicos; couro e calçados; vestuário e assessórios; têxteis; máquinas e aparelhos elétricos; outros equipamentos de transporte; produtos de metal; máquinas e equipamentos; móveis; artigos de borracha e plástico; e produtos diversos.

Em termos de produtividade, ficam acima da média dos demais países analisados apenas os segmentos: extrativista; produtos derivados de petróleo e biocombustíveis; metalurgia; e fumo. Já quando considerada a taxa de inovação, o desempenho superior às demais economias ocorre nas indústrias extrativista, alimentícia e de móveis.

O estudo destaca que a adaptação a esta nova organização é diferente em cada segmento, mas que este fenômeno é uma realidade e todos os ramos precisam se atualizar para seguir competindo nos mercados interno e externo.

“A velocidade de disseminação das tecnologias habilitadoras dessa revolução indica que a chegada e a consolidação da Indústria 4.0 [outro nome para a Quarta Revolução Industrial] será, também, muito mais rápida se comparada a casos anteriores. A capacidade de a indústria brasileira competir internacionalmente dependerá, portanto, da nossa habilidade de promover essa transformação”, diz o estudo.

Segundo a pesquisa, a necessidade deste salto tecnológico se dá especialmente pelo fato da produtividade da indústria nacional ter caído durante dez anos consecutivos na comparação com outros países até 2014. Este problema, associado às dificuldades de inovação, aumentam a distância entre o Brasil e as economias mais ricas do planeta.

João Emílio Gonçalves, diretor-executivo de Política Industrial da CNI, destaca a importância dessas mudanças em todos os tipos de indústria: “Essas alterações são estratégicas para empresas numa situação de baixa competitividade em relação ao mundo e para quem já está inserido, uma vez que este processo está ocorrendo em outros países. Quem hoje é competitivo, amanhã pode não ser.”

Ele coloca como um dos obstáculos para a adaptação à Indústria 4.0 o fato de muitas firmas ainda não estarem familiarizadas com o conceito: “Até três anos atrás, ninguém sabia o que isso era. Estamos procurando mostrar que não é ficção, que é um fenômeno que começa a acontecer e é algo que faz sentido no mundo e no Brasil para a inserção no mercado.”

Para ele, as empresas que desejem se adaptar a esse novo paradigma devem elaborar seus planos de digitalização identificando as necessidades de atuação tecnológica e de integração de seus processos produtivos. “E isso vai exigir investimento em modernização, treinamento de pessoal, adaptação de tecnologias, etc”, diz.

Por outro lado, o professor de Sociologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Ricardo Antunes, autor de livros sobre as mudanças no mundo do trabalho, a noção de Indústria 4.0 foi elaborada a partir de uma realidade das economias mais ricas, como a Alemanha, e não pode ser importada para os países do chamado “Sul Global”, que não possuem destaque em mercados tecnológicos de ponta.

“Em países como Brasil e Índia, se você avança digitalmente sem ter uma regulação social e de garantia de direitos sociais, você aumenta ainda mais as condições de precarização do trabalho e vai criar um fosso entre setores industriais avançados pequenos, em um nível europeu, e uma área industrial poluente e com péssimas condições, como a extrativista e o agronegócio”, observa.

Outros riscos são a redução de postos de trabalho por meio da robótica e a piora da qualidade do trabalho: “Há um processo de desaparecimento da barreira entre a vida privada e a pública, porque a pessoa vai para casa e continua disponível para as demandas, cumprindo metas em um volume de trabalho crescente.”

O dilema é preocupante e, por isso, a discussão sobre a qualificação da indústria para a nova revolução tecnológica, que é inevitável, terá que envolver toda a sociedade, e não apenas os setores produtivos e o governo. Na verdade, este precisa ser um dos principais elementos de um novo projeto nacional de desenvolvimento, do qual o País não poderá prescindir para a superação da presente crise sistêmica que o acossa.

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