Líbia, um ano depois: da "proteção humanitária" à balcanização

Um ano após o início da intervenção militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Líbia, vale a pena dar uma olhada no país, para constatar os resultados da ação que deveria proteger uma população que, supostamente, ansiava pelas bênçãos da “democracia” ocidental, das atrocidades promovidas pelo líder Muamar Kadafi. Para tanto, vejamos a avaliação de alguns conhecedores do país, ouvidos pelo sítio Voz da Rússia, que divulgou matéria a respeito, em 19 de março.

O presidente do Instituto do Oriente Médio da Academia Russa de Ciências, Evgeni Satanovski, é categórico e afirma que a intervenção ocidental mergulhou o país no caos. Diz ele:

O motim separatista em Benghazi, que deu início à “Primavera Árabe”, teve sua continuação lógica. A Cirenaica anunciou a sua autonomia e isso torna evidente por que motivo a Arábia Saudita e o Catar levaram a cabo a operação de derrubada de Kadafi. Hoje, a hostilidade entre as tribos já alcança o nível de genocídio, são massacradas algumas tribos africanas. A bandeira da “Primavera Árabe” não resultou na formação de nenhuma democracia na Líbia: o país está à beira do desmoronamento.

Por sua vez, Sergei Demidenko, especialista em assuntos orientais do Instituto de Pesquisas e Análises Estratégicas, afirma que, ao apoiar a luta dos insurretos contra Kadafi, o Ocidente pensava em tudo, menos em reformas democráticas na Líbia, visando apenas os recursos naturais do país. Porém, observa que eles sequer conseguiram estabelecer o seu controle sobre tais recursos:

O Reino Unido e a França tentaram estabelecer o seu controle sobre o petróleo líbio. Mas este objetivo também não foi alcançado, pois a exploração de jazidas petrolíferas é possível apenas quando existe estabilidade política. Quando no país se trava uma guerra de todos contra todos, este objetivo torna-se irrealista. Por outro lado, a União Europeia obteve um foco poderosíssimo de proliferação do radicalismo islâmico.

Outro especialista, Aleksei Podserob, do Instituto de Estudos Orientais da Academia Russa de Ciências, reitera que o poder local está nas mãos de comandantes de campo, mais de cem mil líbios estão armados e a atividade do Conselho Nacional de Transição é confusa e nebulosa. Até hoje, nem sequer se conhecem ao certo os integrantes do conselho. Para ele, os verdadeiros ganhadores foram outros:

Ganharam os países em cujos bancos se encontram os ativos líbios, que não foram descongelados definitivamente até hoje. Ganhou, certamente, o Catar, pois a derrubada do regime de Kadafi permitiu-lhe reforçar consideravelmente a sua influência política nessa região.

Pobserob completa, observando que, em 2011, o PIB da Líbia baixou bruscamente, o desemprego aumentou e o nível de vida decaiu. Mais de 10 mil pessoas estão detidas nas prisões e as repressões contra os partidários de Kadafi continuam. Ademais, todas as tentativas da Corte Criminal Internacional para conseguir informações sobre a situação nas prisões foram inúteis, até agora.

Por outro lado, até mesmo a Anistia Internacional, que com frequência atua como linha auxiliar dos interesses do Establishment anglo-americano, está cobrando da OTAN uma investigação séria sobre as mortes de civis no conflito líbio, em especial, as decorrentes dos mais de 10 mil ataques aéreos oficialmente desfechados contra as forças de Kadafi. Em um relatório divulgado em 19 de março, intitulado “Líbia: as vítimas esquecidas dos ataques da OTAN”, a organização acusa a Aliança Atlântica de não ter realizado as necessárias investigações sobre tais casos ou sequer tentado estabelecer contato com sobreviventes e parentes das vítimas.

Como afirmou Donatella Rovera, alta funcionária da organização:

É profundamente desapontador o fato de que, mais de quatro meses após o fim da campanha militar, as vítimas e os parentes daqueles quer foram mortos pelos ataques aéreos da OTAN permaneçam no escuro quanto ao que aconteceu em quem foram os responsáveis. Os funcionários da OTAN reiteraram, repetidamente, o seu compromisso com a proteção dos civis. Eles não podem, agora, varrer para o lado as mortes de um monte de civis com alguma vaga declaração de lamento, sem investigar adequadamente aqueles incidentes mortais.

Diante de tal quadro, não admira que potências como a Rússia e a China, que se abstiveram na votação da Resolução 1973, tenham aprendido a lição e decidido que uma nova intervenção semelhante não ocorreria, por exemplo, no caso da guerra civil na Síria. O mesmo argumento justifica a ação cautelosa de seus parceiros no grupo BRICS, Brasil inclusive, frente às pressões diplomáticas externas e, no caso brasileiro, dos setores midiáticos internos, adeptos de alinhamentos semiautomáticos às estratégias hegemônicas do bloco anglo-americano, para um posicionamento mais firme contra o regime de Bashar al-Assad.

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