Joe Biden e Donald Trump: para onde vão os EUA?

Os resultados das eleições nos estados da Virgínia e Nova Jersey surpreenderam os observadores políticos, com os reveses do Partido Democrata. Além de eleições para governadores, os pleitos de 2 de novembro incluíram eleições para o legislativo estadual da Virgínia e para prefeituras e legislativos locais em vários outros estados. Um ano após a eleição do presidente democrata Joe Biden, essas eleições constituem uma primeira leitura do rumo que os EUA podem estar tomando.

Na Virgínia o empresário republicano Glenn Youngkin prevaleceu contra o governador democrata Terry McAuliffe. De imediato, ele prometeu banir o ensino da “teoria crítica da raça” nas escolas públicas e suspender certas restrições impostas a pretexto da pandemia de Covid-19. Em Nova Jersey, o democrata Phil Murphy derrotou seu desafiante republicano Jack Ciatarelli por apenas 74 mil votos, em um estado com 6 milhões de eleitores registrados. Tanto nos EUA como na Europa, tais resultados foram qualificados como um sinal de enfraquecimento precoce de Biden.

Ainda assim, na segunda semana de novembro, Biden conseguiu aprovar o seu pacote de infraestrutura de US$ 1,5 trilhão na Câmara dos Deputados, com os votos favoráveis de 32 deputados republicanos. O plano prevê investimentos na reconstrução e modernização de ferrovias, rodovias, pontes, portos, sistemas de abastecimento de água e linhas de transmissão, negligenciados há mais de duas décadas.

No entanto, Biden enfrenta um verdadeiro dilema: de um lado, está a ala radical dos democratas, cuja representante mais visível é a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, a qual pretende que o presidente se concentre nas questões de minorias, raciais e de gênero [no Brasil, a pauta “identitária” – n.e.]; do outro, Biden é pressionado por altos funcionários de seu próprio governo, particularmente, o secretário de Estado Anthony Blinken e a subsecretária de Estado para Assuntos Políticos Victoria Nuland, para adotar uma agenda de confrontação com a Rússia e a China. O que pode aliviar um pouco a pressão sobre o presidente é o recente acordo climático bilateral com a China, baseado em compromissos para ajudar a reduzir as emissões de carbono em ambos os países.

Em um prazo mais dilatado, a menos que Biden seja capaz de implementar plenamente o seu plano de infraestrutura e o combine com uma campanha ativa em todo o país, além de abrandar a retórica geopolítica em relação à Rússia e à China, ele terá pouco espaço de manobra.

Advertência do “neocon” Robert Kagan sobre uma crise constitucional

Os verdadeiros riscos que estão surgindo nos Estados Unidos são domésticos. Eles incluem a possibilidade de Donald Trump voltar à Casa Branca em 2024, que alguns comparam às turbulências pelas quais passou a Alemanha na década de 1930, inclusive, com a possibilidade de um putsch.

Nesse contexto, vale a pena examinar um artigo de Robert Kagan publicado em setembro no Washington Post, intitulado “A nossa crise constitucional já está aí”. O autor é um conhecido historiador “neoconservador” da Brookings Institution, que há mais de duas décadas tem desempenhado um papel influente na definição da agenda “neoconservadora” das elites estadunidenses. No artigo, ele faz uma análise crítica sobre as chances de Trump em 2024 e o impacto que isto teria no país e no mundo, como destaca a edição de 6 de novembro da revista alemã Der Spiegel, que dedicou ao assunto a sua matéria principal, com o título “Operação Retorno”.

A reportagem descreve o que chama o “jogo pérfido” em curso desde o início de 2021, com destaque para a invasão do Capitólio, em 6 de janeiro, por uma horda de desordeiros pró- Trump que acusavam a eleição presidencial como fraudulenta. A revista chama a atenção para Kagan, apresentando-o como um líder “neocon” que trabalhou para muitos republicanos importantes, mas se afastou de Trump e diz ser ingenuidade acreditar que tais acontecimentos não possam repetir-se. Ele também é marido de Victoria Nuland, uma das autoridades mais influentes no Departamento de Estado.

Kagan já afirmou que Trump “é o demagogo-charlatão de maior sucesso na história da política dos Estados Unidos”. Ele foi cofundador do Projeto para o Novo Século Americano (PNAC), consultor do Comitê para a Libertação do Iraque, membro do conselho do Comitê dos EUA sobre a OTAN e é patrono internacional da Sociedade Henry Jackson, um influente think-tank britânico, além de editor colaborador da revista Weekly Standard. Igualmente, foi consultor de política externa para as campanhas presidenciais republicanas de Mitt Romney e John McCain.

Segundo a revista, Trump trabalha para uma “revisão de toda a legislação eleitoral, que poderia, por sua vez, pavimentar o caminho para um golpe de Estado. Desde o início do ano, 19 estados republicanos aprovaram leis que dificultam, em particular, o voto dos negros. Os republicanos querem encurtar os prazos inscrição para os votos por correspondência e definir condições mais rígidas para a identificação no cargo eleitoral – o que poderia levar à exclusão de determinados grupos eleitorais. Os republicanos querem criar as condições para um golpe, questionando a legitimidade de uma vitória eleitoral dos democratas”.

Em seu artigo no Washington Post, Kagan advertiu que “os EUA estão entrando em sua maior crise política e constitucional desde a Guerra Civil, com uma chance razoável de, nos próximos três a quatro anos, ocorrerem incidentes de violência em massa, um colapso da autoridade federal e a divisão do país em enclaves vermelhos [republicanos] e azuis [democratas] belicosos”. Considerando que Trump será certamente o candidato republicano à Presidência em 2024, Kagan enfatiza que a esperança e a expectativa de que ele se tornaria invisível e perderia influência se mostraram ilusórias: “Ele goza de lideranças gigantescas nas pesquisas; está preparando uma enorme caixa de campanha e, neste momento, a chapa democrata parece vulnerável… Trump e seus aliados republicanos estão se preparando ativamente para garantir a vitória por todos os meios necessários.”

De acordo com Kagan, alguns candidatos republicanos já começaram a se preparar para declarar fraude em 2022: “Enquanto isso, os esforços amadores de ‘detenham o roubo’ de 2020 deram lugar a uma campanha nacional organizada, para garantir que Trump e seus apoiadores tenham o controle sobre os funcionários eleitorais estaduais e locais, que faltou em 2020.”

Em suas palavras, os “obstinados” funcionários estaduais republicanos que, efetivamente, salvaram o país de uma calamidade ao se recusarem a proclamar falsas acusações de fraude eleitoral ou a “encontrar” mais votos para Trump, estão sendo “sistematicamente removidos ou expulsos de seus cargos”. Legislaturas republicanas estão assumindo um maior controle sobre o processo de certificação eleitoral, afirma. Algumas legislaturas estaduais buscam impor penalidades criminais aos funcionários eleitorais locais que, alegadamente, cometam “infrações técnicas”, incluindo a obstrução da visão dos observadores das contagens das urnas.

“Assim, o palco está armado para o caos. Imaginem semanas de protestos em massa concorrentes em vários estados, enquanto legisladores de ambos os partidos reivindicam vitórias e acusam o outro lado de esforços inconstitucionais para tomar o poder. Os partidários de ambos os lados, provavelmente, estarão mais bem armados e mais dispostos a infligir danos do que estavam em 2020. Os governadores convocariam a Guarda Nacional? O presidente Biden nacionalizaria a Guarda e a colocaria sob seu controle, invocaria a Lei de Insurreição e enviaria tropas para a Pensilvânia, Texas ou Wisconsin, para reprimir protestos violentos?” – pergunta Kagan.

O artigo enfatiza que os establishments políticos e intelectuais de ambos os partidos têm subestimado Trump desde que ele entrou em cena, em 2015. Eles subestimaram a extensão da sua capacidade de assumir o controle do Partido Republicano e, em seguida, subestimaram o quão longe ele estava disposto a ir para reter o poder.

Uma tentativa de golpe e o que Trump representa para muitos republicanos

“Trump esteve perto de desfechar um golpe no início deste ano”, escreve Kagan. O que o impediu “foi um punhado de funcionários estaduais com notável coragem e integridade e a relutância de dois procuradores-gerais e um vice-presidente (Pence) em obedecer ordens que consideraram inadequadas”. Para Kagan, o que os seguidores republicanos de Trump têm em comum é a “suspeita e hostilidade em relação ao governo federal; ódio racial e medo; uma preocupação de que a sociedade moderna e secular mina a religião e a moralidade tradicional; ansiedade econômica em uma era de rápidas mudanças tecnológicas; tensão de classes, com condescendência sutil de um lado e ressentimento do outro; desconfiança do mundo em geral, especialmente, da Europa, e sua influência insidiosa em subverter as liberdades estadunidenses”.

Ele afirmou ainda que, para “milhões de estadunidenses, o próprio Trump é a resposta aos seus medos ou ressentimentos”. O seu vínculo com muitos “tem pouco a ver com economia ou outras questões materiais. Eles acreditam que o governo dos EUA foi capturado por socialistas, grupos minoritários e desviantes sexuais. Eles veem o establishment do Partido Republicano como corrupto e fraco – ‘perdedores’, para usar a expressão de Trump -, incapaz de desafiar a hegemonia liberal reinante [nos EUA, a palavra tem uma conotação relacionada às atitudes e políticas de esquerda – n.e.]. Eles veem Trump como forte e desafiador, disposto a enfrentar o sistema, os democratas, a mídia liberal dos RINO [sigla em inglês para “republicanos apenas no nome” – n.e.], a Antifa [movimentos antifascistas – n.e.], a Big Tech etc. (…) A sua liderança carismática deu a milhões de estadunidenses um sentimento de propósito e poder, um novo senso de identidade”.

Embora os críticos de Trump o vejam como muito “narcisista” para ser qualquer tipo de líder, os seus apoiadores “admiram o seu egoísmo militante e sem remorso. Ao contrário dos republicanos do establishment, Trump fala sem constrangimentos em nome de um segmento ofendido de estadunidenses, não exclusivamente brancos, que sentem que estão sendo golpeados no queixo por muito tempo”. O mais importante que Trump oferece é “ele mesmo”; a sua egomania faz parte do seu apelo. Na sua professada vitimização pela mídia e pelas “elites”, seus seguidores veem a sua própria vitimização. É por isso que os ataques das elites a Trump apenas fortalecem os seus vínculos com seus seguidores. Como o movimento Trump trata menos de políticas do que do próprio Trump, ele minou o papel normal dos partidos políticos estadunidenses, que é absorver novos movimentos políticos e ideológicos na corrente principal. Como disse um intelectual conservador: que escolha têm eles (os apoiadores de Trump), a não ser ver o governo como o inimigo e se tornarem “unidos e armados para cuidar de si próprios como acharem melhor?”

Kagan cita um apoiador dos eventos de 6 de janeiro, que ressaltou que o episódio foi encenado “como um esforço patriótico para salvar a nação, por uma ação violenta, se necessário… Nós estávamos lá apenas para derrubar o governo”. A maioria era de classe média e meia-idade; 40% eram proprietários de empresas ou trabalhadores de colarinho branco. A maioria dos apoiadores do Trump são bons pais, bons vizinhos e membros sólidos de suas comunidades: “Os eventos de 6 de janeiro provaram que Trump e seus partidários mais ferrenhos estão preparados para desafiar as normas constitucionais e democráticas, assim como os movimentos revolucionários fizeram no passado.”

Para Kagan, Trump escolheu sistematicamente como alvo a derrota aqueles republicanos que votaram pelo seu impeachment ou o criticaram por seu papel no motim. Já houve ameaças de atentados à bomba contra postos eleitorais, sequestro de funcionários e ataques a capitais estaduais.

Olhando para 2022 e 2024, Trump tem insistido que “não há como ganharem as eleições sem trapacear, não tem jeito”. Portanto, diz Kagan, se os resultados mostrarem vitórias democratas, os apoiadores de Trump saberão o que fazer. Assim como “‘gerações de patriotas’ deram o seu suor, seu sangue e até mesmo suas vidas, para construir os EUA, Trump diz a eles, então, hoje não temos escolha. Temos que lutar, para ‘restaurar nosso direito de nascença estadunidense’”.

De acordo com Kagan, o surpreendente é que ninguém realmente tenha se oposto a Trump, incluindo veteranos líderes republicanos: “Apesar de sua repulsa por tudo que Trump representava, esses velhos leões se recusaram a criticá-lo”, observou. “Eles não estavam dispostos a se manifestar contra um Partido Republicano ao qual haviam dedicado as suas vidas profissionais, mesmo quando o partido era liderado por alguém que eles detestavam… Os conservadores alemães acomodaram Adolf Hitler, em grande medida, porque se opunham aos socialistas mais do que se opunham os nazistas, que, afinal, compartilhavam muitos de seus preconceitos básicos. Intelectuais conservadores vieram em defesa de Trump e elaboraram a doutrina política para justificar seu governo, com um apelo ao ‘nacionalismo conservador’. Portanto, são apenas algumas vozes dissidentes dentro do ecossistema republicano.”

Não obstante, ele observa que, em fevereiro, sete senadores republicanos votaram para condenar Trump por incitar uma insurreição e tentar anular uma eleição livre e justa. Mesmo assim, diz, “por mais crédito que eles mereçam por tomar essa posição, ela foi quase inteiramente simbólica”.

Mesmo que, em alguns aspectos, possa parecer que Kagan exagera, ele está correto em termos de seu alerta sobre uma crise constitucional, ao apontar que “o desdém de Trump pelo império da lei é claro. A sua exoneração das acusações levantadas em seus julgamentos de impeachment, praticamente, garante que ele exercerá o poder de forma ainda mais agressiva”.

O que, para ele, permanece uma questão em aberto é se os políticos estadunidenses de qualquer dos dois partidos têm coragem para fazer movimentos ousados, se têm a visão para perceber para onde os eventos estão sendo conduzidos e a coragem de fazer o que for necessário para salvar o sistema democrático.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

x

Check Also

A crise de energia europeia e a audaciosa visão de Macron para o futuro

Nas últimas semanas, a Europa foi atingida por um forte aumento dos preços da energia, ...