IPCC reforça “Reset” do Fórum de Davos

Menos de cinco quilômetros separam os endereços do secretariado do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e do Fórum Econômico Mundial (WEF), respectivamente, nas aprazíveis cidades suíças de Genebra e Cologny. E se a distância física é pequena, ela se reduz a zero na concordância das agendas das duas entidades para a implementação de uma irreal economia de “carbono zero” em escala mundial. Para tanto, o primeiro acaba de lançar o seu mais recente manifesto catastrofista, recebendo o imediato endosso do segundo como um mais que oportuno reforço à sua pauta do chamado “Great Reset” (Grande Reinicialização”).

O “Reset” do Fórum de Davos, como o WEF é mais conhecido, é uma pretendida repaginação do turbocapitalismo globalizado para dar-lhe uma face aparentemente mais humanizada, ou “capitalismo das partes interessadas” (stakeholder capitalism), apresentado sob o disfarce de uma suposta salvação do planeta das consequências das mudanças climáticas e da devastação ambiental, inclusive, da Floresta Amazônica brasileira.

Agenda que promete ser o nirvana para a alta finança “globalizada”, mas um desastre potencial para a maioria da humanidade, às voltas com outras emergências concretas, a exemplo da pandemia de Covid-19, as deficiências de disponitilidade de saneamento (de longe, o maior problema ambiental do planeta) e de eletricidade, e outras, que não costumam receber sequer uma fração da atenção dada à inexistente emergência climática.

Em 9 de agosto, o IPCC anunciou ao mundo as conclusões do seu sexto “Relatório de Avaliação” (AR6) das mudanças climáticas globais, o mais alarmista de todos, desde a criação do órgão que tem sido uma peça-chave para a consolidação do radicalismo ambientalista como fator crucial de influência nas políticas de desenvolvimento em escala global. O boletim de imprensa divulgado na ocasião sintetiza a mensagem apocalíptica:

(…) Muitas das mudanças observadas no clima são inusitadas em milhares, se não em centenas de milhares de anos, e algumas das mudanças já ocorridas – como a elevação contínua do nível do mar – são irreversíveis por um período de centenas a milhares de anos. Porém, reduções fortes e sustentadas nas emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases de efeito estufa limitariam as mudanças climáticas (grifos nossos). (…)

A evidente intenção política do documento foi enfatizada pelo presidente do IPCC, o economista sul-coreano Lee Hoesung: “Este relatório reflete esforços extraordinários sob circunstâncias excepcionais. As inovações neste relatório e os avanços na ciência do clima que ele reflete proporcionam uma contribuição inestimável para as negociações e a tomada de decisões climáticas.”

O boletim prossegue:

O relatório proporciona novas estimativas das chances de se cruzar o nível de aquecimento global de 1,5oC nas próximas décadas, e observa que, a menos que haja reduções imediatas, rápidas e em grande escala nas emissões de gases de efeito estufa, limitar o aquecimento a perto de 1,5oC ou mesmo 2oC será impossível. O relatório mostra que as emissões de gases de efeito estufa das atividades humanas são responsáveis por aproximadamente 1,1oC de aquecimento desde 1850-1900, e observa que, na média dos próximos 20 anos, espera-se que a temperatura global atinja ou exceda 1,5oC de aquecimento. (…)

Para 1,5oC de aquecimento global, haverá um aumento de ondas de calor, estações quentes mais longas e estações frias mais curtas. Com 2oC de aquecimento global, extremos de calor atingiriam mais frequentemente os limites de tolerância crítica para a agricultura e a saúde, diz o relatório. Mas não se trata apenas de temperatura. As mudanças climáticas estão provocando múltiplas mudanças diferentes em regiões diferentes – todas as quais aumentarão com mais aquecimento. Elas incluem mudanças na umidade e aridez, nos ventos, neve e gelo, áreas costeiras e oceanos. (…)

“Tem sido claro durante décadas que o clima da Terra está mudando, e o papel da influência humana no sistema climático é inquestionável”, proclama a copresidente do Grupo de Trabalho 1 (WG1) do IPCC, Valérie Masson-Delmotte.

Seu colega Panmao Zhai reforça a advertência: “Estabilizar o clima irá requerer reduções fortes, rápidas e sustentadas nas emissões de gases de efeito estufa, e atingir zero emissões líquidas de CO2. Limitar outros gases de efeito estufa e poluentes aéreos, especialmente, metano, poderia ter benefícios tanto para saúde como para o clima.”

Quanto ao WEF, o componente ambiental do “Reset” visa a subordinar a economia em geral a critérios de “sustentabilidade” e “neutralidade de carbono”, os novos indicadores selecionados para arbitrar atividades produtivas e políticas de desenvolvimento, principalmente, nas economias emergentes. Com isto, os grandes fundos de gestão de ativos, os novos tiranossauros rex do turbocapitalismo financeiro, juntamente com outros predadores financeiros menores, tendem a tornarem-se os árbitros supremos das atividades produtivas e das agendas de desenvolvimento dos países que atrelarem os seus destinos a essa estrutura hegemônica.

Tudo, claro, em nome da “salvação” do planeta, da “inclusão” social e dos “interesses de todas as partes”, como refletido na alardeada agenda ESG (abreviatura em inglês de meio ambiente, ação social e governança), a nova escritura preparada para os setores empresariais sintonizados com os novos tempos.

Sem surpresa, o WEF não tardou em saudar o novo evangelho do IPCC:

(…) O último relatório do IPCC torna inquestionáveis estas verdades. As mudanças climáticas estão ocorrendo, as atividades humanas são a fonte do problema e as nossas normas necessitam mudar rapidamente para limitar mais danos. Estamos na zona vermelha; não temos tempo a perder.

O relatório prova que para vencer a corrida para zero [emissões], é imperativo que todos nós participemos das ações climáticas, colaborando tanto com os negócios como com o governo. Precisamos fazer isto porque a janela de tempo para estabilizar o clima está desaparecendo rapidamente. Este ano, o G-20 e a [conferência climática] COP-26 são momentos decisivos para o futuro da humanidade (WEF, 19/08/2021).

A nota informa que cerca de 700 grandes empresas internacionais, representando 24 milhões de funcionários e com um valor de capitalização de 13 trilhões de dólares, estão comprometidas com a meta de reduzir à metade as suas emissões de carbono até 2030, e que 70% da economia mundial estão comprometidos com a meta de “carbono líquido zero” até 2050, o número mágico da campanha de “descarbonização”.

Tais números dão uma ideia das enormes dimensões já atingidas pela campanha, que dificultam sobremaneira – embora não inviabilizem – as tentativas de resistência à tsunami “aquecimentista”.

Como enfatizou, na última edição do Fórum de Davos, em janeiro, o executivo-chefe da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, Laurence Fink: “Vamos precisar de 50 trilhões de dólares em investimentos para chegar a um mundo de emissões líquidas zero… Na medida em que mais empresas divulgarem seus relatórios e tivermos dados melhores em cada nível corporativo, seremos capazes de customizar e personalizar os portfólios. Isto vai fazer a diferença entre as companhias que forem bem-sucedidas e as que não forem (WEF, 26/01/2021).”
Jargão financista à parte, o recado é direto: as empresas que não se enquadrarem nos questionáveis requisitos de sustentabilidade, visando ao utópico mundo de “emissões líquidas zero”, serão excluídas do “Admirável Mundo Novo” idealizado por Fink e seus comensais de Davos. E o mesmo argumento vale para os países que insistirem em restringir as suas opções de desenvolvimento aos fluxos financeiros internacionais, além de não se articularem para neutralizar os impactos políticos e econômicos de tal agenda exclusivista, cujo efeito principal será aprofundar as mesmas desigualdades que aqueles potentados globais fingem combater.

Além de servir de pretexto para o virtual controle da economia pela alta finança “padrão ESG”, a agenda do “carbono zero” servirá para a conversão em “títulos verdes” de uma grande proporção da montanha de instrumentos financeiros especulativos que ameaça implodir o sistema financeiro internacional, estimada entre 1,5-2 quatrilhões de dólares, mais de 15 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) de todo o planeta.

Quanto à Ciência, apesar de toda a propaganda de que o IPCC seria o portador da última palavra sobre o clima e a suposta influência humana, nenhuma novidade. Nas quase 4 mil páginas dos volumes integrantes do AR6, não há uma única evidência observada no mundo real de alguma anomalia nos padrões de temperaturas atmosféricas e oceânicas e do nível do mar observados desde o século XIX, em relação aos dos séculos e milênios anteriores. Na ausência de tais anomalias, sem as quais é ilógico sugerir uma influência humana na dinâmica climática global, o IPCC recorre aos notórios modelos matemáticos de clima elaborados com uma sensibilidade exagerada ao CO2, para produzir as suas projeções catastrofistas.

Para piorar o déficit de Ciência real, os autores do relatório não se melindraram em reapresentar o famigerado gráfico do “taco de hóquei”, já apresentado no AR3 de 2001 e comprovadamente desqualificado como uma fraude dos seus autores, elaborada para ocultar as oscilações naturais das temperaturas globais, que já foram mais altas que as atuais (assim como os níveis do mar) durante vários períodos do Holoceno, a época geológica iniciada há 12.900 anos, dentro da qual a civilização humana tem existido. Desta feita, porém, a aposta alarmista foi dobrada, pois o gráfico de 2001 pretendia reproduzir a evolução das temperaturas atmosféricas entre os anos 1000-1998, e o atual estende o período entre o ano 1 da era cristã e 2000 (tema que será tratado na próxima edição deste Alerta).

Em essência, o que a agenda WEF-IPCC oferece são pseudossoluções para um problema que só existe em computadores, mas passa longe do mundo real.

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