IPCC apresenta “Aquecimento global 5.0”

Em meio a muitas fanfarras – e uma considerável dose de controvérsias -, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou o esperado “Sumário para formuladores de políticas” (Summary for Policymakers) do Grupo de Trabalho I, referente ao “Quinto Relatório de Avaliação” (AR5) da entidade. Como era esperado, o documento elevou ainda mais o nível do alarmismo intrínseco dos trabalhos da entidade, em relação aos relatórios anteriores. Mas, desta feita, o caráter predominantemente político dos conteúdos dos documentos do IPCC ficou explicitado de forma inequívoca, com a divulgação dos conteúdos das discussões sobre a redação final do “Sumário”, que foi extensamente editado pelos representantes dos governos que integram o IPCC, de acordo com as conveniências de cada um ou de cada grupo deles. Quanto à observação dos preceitos fundamentais da Ciência, como de hábito, ficou em plano bastante inferior.

A principal conclusão do documento, disponível no sítio do IPCC, tem sido reproduzida ad nauseam pela mídia internacional, sempre ávida pelo alarmismo característico do grupo:

A influência humana tem sido detectada no aquecimento da atmosfera e do oceano, em mudanças no ciclo global da água, em reduções na [cobertura de] neve e gelo, no aumento médio global do nível do mar e em mudanças em alguns climas extremos. Estas evidências da influência humana aumentou desde o AR4. É extremamente provável que a influência humana seja a causa dominante do aquecimento observado desde meados do século XX.

O documento define “extremamente provável” como um grau de certeza igual ou superior a 95%. Quanto à definição do grau de certeza, o texto explica:

O grau de certeza em afirmativas-chave nesta avaliação se baseia nas avaliações das equipes de autores sobre o entendimento científico subjacente e é expressado como um nível qualitativo de confiança (de muito baixo a muito alto) e, quando possível, probabilisticamente, com uma probabilidade quantificada (de excepcionalmente improvável a virtualmente certo). A confiança na validade de uma afirmativa se baseia no tipo, quantidade, qualidade e consistência das evidências (p.ex., dados, entendimento mecanicista, teoria, modelos, avaliação de especialistas) e no grau de acordo. As estimativas probabilísticas das medidas quantificadas de incertezas em uma afirmativa se baseiam na análise estatística de observações ou resultados de modelos, ou ambos, além de avaliação dos especialistas. (…)

Aos olhos dos leigos – a grande maioria dos leitores do “Sumário” -, o jargão científico pode disfarçar o que os especialistas críticos e os investigadores sérios dos trabalhos do IPCC conhecem de sobra – exatamente, a falta de rigor científico que os caracteriza. Entrevistado pela agência Reuters (18/09/2013), o climatologista norueguês Eystein Jansen, um dos redatores do documento, admitiu, sinteticamente, que o processo “se baseia numa discussão entre os autores” – simples assim.

De fato, em lugar algum do “Sumário” e, de resto, em nenhum documento publicado pelo IPCC, encontra-se qualquer evidência científica que possibilite racional e objetivamente o estabelecimento de tais avaliações numéricas. Como observou o geólogo australiano Bob Carter, em uma entrevista no programa World at One da BBC (27/09/2013):

O problema com a probabilidade de 95% é que isto é ciência por passe de mágica. Em Ciência, a frase 70% de probabilidade ou 90% de probabilidade tem um significado definido. Ela implica em experiências controladas, implica em informações quantitativas numéricas avaliadas objetivamente. Se você perguntar ao IPCC, eles dirão que quando usam o termo 95% de probabilidade, ele se baseia na opinião de um grupo de pessoas reunidas em torno de uma mesa. É completamente errado usar a terminologia de probabilidades para descrever o que não passa de uma opinião de especialistas.

Aliás, como temos enfatizado repetidamente neste espaço, a hipótese fundamental defendida pelo IPCC desde a sua fundação, em 1988, antes mesmo de começar a coletar os trabalhos que são incluídos nos seus relatórios, segundo a qual as atividades humanas estariam influenciando a dinâmica climática em escala global, simplesmente, carece de evidências físicas observadas no mundo real. Este autor desafia qualquer pessoa, cientista ou leigo, do Brasil ou do exterior, a apresentar uma única evidência que permita demonstrar que as variações das temperaturas atmosféricas e oceânicas e dos níveis do mar, observados desde a Revolução Industrial do século XVIII, sejam anômalas em relação às verificadas anteriormente, no passado histórico e geológico.

O grande problema é que a validade da hipótese “antropogênica” foi estabelecida de antemão e as principais ferramentas usadas pelo IPCC para confirmá-la são os modelos matemáticos da dinâmica climática, os quais, a despeito de serem rodados em supercomputadores cada vez mais poderosos, refletem um entendimento bastante parcial dos fatores causadores dos fenômenos climáticos. A sua imprecisão ficou evidenciada no fato de que nenhum dos mais de 40 modelos climáticos atualmente em uso consegue explicar a interrupção na elevação das temperaturas atmosféricas observada desde o final da década de 1990, a despeito do contínuo aumento das concentrações de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Aliás, este foi um dos principais temas das discussões da redação final do “Sumário”, com muitos cientistas e representantes governamentais insistindo para que o documento fosse redigido de forma a minimizar este aspecto (Alerta Científico e Ambiental, 26/09/2013). Como informa o Earth Negotiations Bulletin:

Quanto às taxas de aquecimento mais baixas dos últimos 15 anos, houve um amplo acordo sobre a base científica, bem como a importância de se referir ao fenômeno no SPM [Summary for Policymakers], dada a atenção midiática ao assunto. Houve uma longa discussão sobre como comunicar aos formuladores de políticas a explicação científica a respeito, de uma maneira clara e acessível, para evitar que se transmita uma mensagem desorientadora.

A Alemanha, apoiada pela Bélgica, Luxemburgo e outros, sugeriu acrescentar que as taxas de aquecimento foram mais latas no período de 15 anos precedente. A Noruega observou que apenas períodos de 30 anos são suficientes para se tirar conclusões sobre as taxas de mudanças de temperaturas, como definido no glossário do relatório. Os EUA, com a Bélgica, Luxemburgo e outros, propuseram acrescentar que a taxa de aquecimento desde o final dos anos 1990 é bastante sensível à escolha do ano base, referindo-se ao forte efeito do El Niño em 1997-1998. Esta última sugestão foi adotada de uma forma ligeiramente modificada. (…) (Earth Negotiations Bulletin, Vol. 12. No. 518, 29/09/2013.)

Ou seja, a prática não difere muito das revelações do escândalo “Climategate”, no final de 2009, quando e-mails de cientistas promotores do aquecimento global antropogênico ligados à Universidade de East Anglia foram divulgados na Internet, expondo uma longa prática de manipulação dos dados de pesquisas científicas, para confirmar a hipótese “aquecimentista”. Desta vez, porém, a coisa foi feita às claras.

Por esses e outros motivos, o autor endossa as palavras da Dra. Judith A. Curry, climatologista do Instituto Tecnológico da Geórgia, no artigo publicado pelo jornal canadense National Post, em 30 de setembro:

(…) Nós temos enfocado os modelos climáticos, em lugar da dinâmica do clima e da teoria que é necessária para se entender os efeitos do Sol no clima, a cadeia de variabilidade natural interna em múltiplas escalas de tempo, a matemática dos eventos extremos e a previsibilidade de um sistema complexo caracterizado pelo caos espaçotemporal… O IPCC precisa sair do caminho, para que os cientistas e os formuladores de políticas possam fazer melhor o seu trabalho.

Em síntese, as discussões sobre o clima global e as respostas da humanidade às mudanças que constituem o seu estado natural precisam ser orientadas pelo respeito aos princípios consagrados da prática científica e pelo bom senso, suplantando de vez a coalizão de interesses restritos que integra a “indústria aquecimentista”, que tem no IPCC e seus questionáveis relatórios o seu carro abre-alas.

One comment

  1. Isto sim é um “Sumário Executivo” de toda a patifaria que é o IPCC. Em poucas palavras deixou claro que lá nada há de ciência. Parabéns!

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