Governo preocupado com impacto das mudanças climáticas na saúde

Após anos dando uma crescente importância à suposta emergência do aquecimento global antropogênico, o governo brasileiro decidiu abrir uma consulta pública na internet, para auxiliar a elaboração do novo Plano Nacional de Mudanças Climáticas. A consulta pública, iniciada em 1º. de outubro, foi lançada poucos meses após a publicação do Plano Setorial de Saúde para Mitigação e Adaptação para a Mudança Climática, em junho deste ano, e se insere em um projeto mais amplo de mitigação climática por parte do governo.

A iniciativa foi justificada com a afirmativa de que as mudanças nas temperaturas globais terão impactos diretos, como a ocorrência de desastres naturais, e indiretos (mudanças na qualidade da água, do ar e dos alimentos) e perturbações sociais e econômicas.

O grau de alarmismo nos corredores de Brasília em relação às mudanças climáticas se elevou após a divulgação dos resultados do último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), no final de setembro (Alerta Científico e Ambiental, 3/10/2013). Um exemplo desta elevação foi a declaração do secretário nacional de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, Carlos Klink: “A questão é como preparar o sistema de saúde para esses eventos. Dentro do sistema que já existe, temos que começar a prepará-lo para isso. Pelo que os relatórios apontam, haverá chuvas muito fortes e secas muito fortes no país (Agência Brasil, 6/10/2013).”

Em agosto de 2012, Klink foi o signatário da carta-resposta do MMA à carta aberta enviada à presidente Dilma Rousseff por 18 cientistas brasileiros, em maio daquele ano, alertando-a sobre a desorientação e a falta de bom senso da política brasileira referente às questões climáticas. Na longa missiva, o secretário produziu um verdadeiro monumento ao pensamento burocrático, com argumentos redundantes e circulares e um texto abstruso, que não apenas não ofereceu qualquer contestação séria à argumentação dos cientistas, como se limitou a repetir chavões e lugares comuns retirados de textos padrões da literatura ambientalista.

Um parágrafo emblemático afirmava: “Deve-se ter em conta que a base científica sobre mudança do clima está relacionada ao entendimento mais abrangente e profundo da variabilidade climática natural. Nesse sentido, a variabilidade climática natural deve ser entendida no contexto das variações naturais relacionadas a causas naturais [grifos nossos] (Alerta Científico e Ambiental, 28/08/2012).” (Ganha um livro da Capax Dei Editora, à escolha – www.capaxdeieditora.com.br – quem conseguir explicar satisfatoriamente o significado da frase grifada.)

Voltando à agenda de preocupações com os efeitos do “aquecimento global”, o governo inclui preocupações que são legítimas mesmo sem tal “urgência climática”, como o combate às doenças transmitidas por vetores – como a dengue, malária, febre amarela e leishmaniose -, ou pela água e alimentos contaminados – como diarreias agudas, leptospirose e toxoplasmose. Neste sentido, o governo pretende ampliar a cobertura de vacinação da população, a sondagem de doenças crônicas, a redução de doenças provocadas por vetores, e a análise constante da qualidade da água. Importante destacar que tais medidas devem ser efetivamente tomadas, ainda que sem a existência de uma hipotética catástrofe climática global para justificá-las.

O governo teme ainda um cenário dantesco, onde haja escassez de água e alimentos, além de transtornos psicológicos resultantes de eventos climáticos extremos, levando ao aumento do estresse, por exemplo. Todavia, o Executivo devia voltar a sua atenção para problemas ambientais mais concretos e efetivamente urgentes, como a questão dos resíduos sólidos, a falta de saneamento básico e de investimentos na prevenção de catástrofes ocasionadas pelas fortes chuvas em diversas regiões brasileiras, dentre outros. Apesar de não estarem na moda, tais questões têm castigado a população brasileira e demandam soluções efetivamente urgentes, em lugar da morosidade atávica com que têm sido tratadas pelo poder público.

Brasil precisa de R$ 6,7 bilhões para solucionar resíduos sólidos

Em contraste com as preocupações “climáticas”, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), os investimentos das diversas esferas de governo para solucionar a questão dos resíduos sólidos continuam à míngua. O mais grave é que, segundo a entidade, com apenas R$ 6,7 bilhões (cerca de 0,15% do PIB) seria possível garantir, de forma adequada, a coleta de todos os resíduos sólidos e dar fim a tal material em aterros sanitários. Todavia, o desinteresse generalizado da classe política pelo assunto tem postergado as soluções para o problema.

Segundo a Abrelpe, caso o País mantenha o mesmo ritmo de investimentos na solução dos resíduos sólidos que o observado na última década, a universalização da adequada coleta e destinação final desses rejeitos só deverá ser alcançada em 2060. Conforme o diretor-executivo da entidade, Carlos Silva Filho, “no atual ritmo, chegaremos a agosto de 2014 com apenas 60% dos resíduos coletados com destino ambientalmente correto” (Agência Brasil, 4/10/2013).

Tal afirmação é ainda mais preocupante quando consideramos que agosto de 2014 é a data limite estabelecida pela Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) para abolir a destinação inadequada dos rejeitos. Ainda segundo a Abrelpe, cerca de 30 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos que continuam sendo despejados em locais inadequados em todo o país. “Se não contarmos com esforços conjuntos e recursos disponíveis para custear o processo de adequação, corremos o risco de ver o principal ponto da PNRS não sair do papel”, observa Silva Filho.

x

Check Also

Neocolonialismo “verde” mostra suas garras

A União Europeia (UE) escancarou definitivamente a sua intenção de empregar os temas ambientais como ...