“Governo mundial” volta a fustigar Forças Armadas brasileiras

Em meio à deterioração crescente do sistema político-partidário e à recessão que avassala o Brasil, as Forças Armadas voltam a constituir uma pedra no sapato dos poderes oligárquicos anglo-americanos, por continuarem sendo a instituição mais confiável para a grande maioria dos brasileiros.

Desta feita, o agente da investida foi Matias Spektor, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas e colunista do jornal Folha de S. Paulo. Em sua página no Facebook, ele postou um texto baseado em documentos desclassificados da Agência Central de Inteligência (CIA) estadunidense entre 2015-16, que identificam o presidente Ernesto Geisel (1974-79) como mentor da repressão à oposição armada ao seu governo. De imediato, os meios de comunicação deram grande repercussão à suposta denúncia, iniciando uma bem calculada pressão para a reabertura do surrado debate sobre a anulação da Lei da Anistia de 1979. As reações oficiais foram imediatas.

O próprio presidente Michel Temer viu-se obrigado a interferir, dizendo ter achado “a história muito estranha”, chamando a atenção para a credibilidade da fonte. “Os documentos não são nacionais, são da CIA, uma entidade estrangeira. Nem tudo o que a CIA diz é necessariamente verdade, é uma verdade absoluta”, disse ele ao jornal O Estado de S. Paulo (12/05/2018).

No dia seguinte, referindo-se à conversa, a colunista Eliane Cantanhêde observou: “Acrescente-se: os Estados Unidos invadiram e aniquilaram o Iraque, sem aval do Conselho de Segurança da ONU, com base na informação da sua agência de inteligência de que Saddam Hussein desenvolvia sofisticadas armas químicas e biológicas. Foi um erro grosseiro. Ou uma mentira intencional (O Estado de S. Paulo, 13/05/2018).”

Em fevereiro, em seguida à intervenção federal no Rio de Janeiro, na qual as F.As. foram chamadas a assumir a responsabilidade pela segurança pública do estado, um precedente significativo ocorreu no Ministério da Defesa, que, pela primeira vez desde a sua criação, em 1999, passou a ser chefiado por um oficial militar, o general-de-exército (RRm) Joaquim Silva e Luna. A mudança caiu como um raio sobre o aparato internacional que, há décadas, se empenha em pressões constantes para consolidar a debilitação institucional e operacional – e o virtual desmantelamento – das Forças Armadas ibero-americanas, com destaque para as brasileiras.

Uma das entidades que sustenta esse “projeto desmilitarizador” é o Diálogo Interamericano (DI), criado por notórios mentores e agentes de influência do poder anglo-americano (como detalhado no livro Uma nação desarmada, de Lorenzo Carrasco, Silvia Palacios e Geraldo Luís Lino, publicado em 2016 pela Capax Dei Editora). Por isso, não surpreende que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, membro fundador do DI e criador do Ministério da Defesa, tenha sido um dos ferozes críticos da nomeação do general Silva e Luna.

Por sua vez, Spektor tem no currículo passagens por instituições-chave do Establishment oligárquico anglo-americano, tanto acadêmicas, na Universidade de Oxford e na Escola de Economia de Londres, como em think-tanks do calibre do Centro Woodrow Wilson de Washington (entidade irmã siamesa do DI) e o ultrasseleto Conselho de Relações Exteriores (CFR) de Nova York. Assim, não surpreende que vários dos seus artigos jornalísticos exibam um tom crítico ou negativo de qualquer coisa que envolva os militares brasileiros.

Um exemplo é a sua coluna de 17 de maio na Folha, intitulada “Volta dos militares à política abre as feridas do passado”, na qual mostra uma grande preocupação com a crescente visibilidade – e credibilidade – das F.As. no cenário nacional: “(…) A sociedade ainda desconhece detalhes importantes daquilo que aconteceu. A ferida segue aberta porque tanto as forças que ocupavam o poder quanto seus opositores na luta armada esconderam os aspectos mais nefastos de sua atuação. Diante da limitação de informações e de documentos brasileiros, ficamos à mercê de evidência empírica estrangeira para contar a história mais completa. (…) Agora, os militares estão de volta na política. Seja na intervenção federal no Rio de Janeiro, seja em candidaturas para o Legislativo e para o Executivo, a corporação militar entrou mais uma vez no jogo. Desta vez, tudo corre sob as regras da democracia, mas há um choque ferrenho. Por um lado, os candidatos militares contam com espaço fértil para crescer porque a deterioração desses 30 anos de Nova República tem levado muitos eleitores – inclusive jovens – a olhar com saudosismo para um passado imaginado.”

O argumento da “ferida aberta” tem sido recorrente entre os ativistas da revogação da Lei da Anistia. Igualmente, chama a atenção a oportunidade para a investida contra Geisel. Precisamente, foi ele quem rompeu o acordo militar com os EUA, vigente desde a década de 1950, e enfrentou o regime estadunidense de “apartheid tecnológico” imposto aos países em desenvolvimento, com a assinatura do acordo nuclear com a então Alemanha Ocidental.

Essa capacidade de resposta nacional independente, que perdura nas F.As. brasileiras, é o que incomoda e alarma aqueles poderes globais e seus cipaios domésticos.

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