General Villas-Bôas: falta um projeto nacional

Em uma palestra comemorativa do Dia do Exército, 19 de abril, o comandante da força terrestre, general Eduardo Villas-Bôas, fez importantes considerações sobre o momento que vive o País. Em destaque, a sua afirmativa de que o Brasil está à deriva, devido à ausência de um projeto nacional de desenvolvimento.A seguir, reproduzimos as passagens referentes da palestra, que pode ser vista no Youtube.

“O Brasil, da década de 1930 a 1980, foi o país do mundo que mais cresceu, pegando desde Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek aos governos militares. Nas décadas de 1960,70 e 80, nós cometemos um erro: nós permitimos que a linha de confrontação da Guerra Fria passasse dentro da sociedade brasileira e nos dividisse. E o Brasil, que vinha com forte sentido de projeto, com ideologia de desenvolvimento, perdeu a coesão e esse sentido de projeto. Perdeu o rumo e a direção, o nosso país está à deriva. Eu conversava isso com o ministro da Defesa [Aldo Rebelo], que é do Partido Comunista do Brasil e, hoje, trabalhamos juntos, absolutamente identificados em termos como ‘convergência dos interesses nacionais’. [No regime militar] ficamos cada um para um lado. Nos considerávamos inimigos. Então, vejam que erro que cometemos. Nos falta esse sentido de projeto. Até porque precisamos recuperar isso, pois não estamos livres de acontecer uma nova Guerra Fria, que venha a nos dividir novamente. Não nos mesmos parâmetros e fundamentos ideológicos. Mas vou dar um exemplo: quando a Nicarágua anunciou que iria construir um novo Canal [bioceânico], com o apoio da China, houve uma enorme movimentação ambientalista, no sentido de dizer que o novo canal iria trazer problemas ambientais. E isso vem de onde? Vem justamente dos países que seriam prejudicados pela construção do Canal. Então, não tenho dúvida de que podemos sofrer um processo semelhante, que possa nos dividir novamente. Portanto, precisamos recuperar a coesão nacional e o sentido de projeto. Colocar o interesse do País e da nação acima de todas essas querelas que dominam o nosso dia a dia. Com relação a 1964, comparando com os dias de hoje. Houve duas diferenças básicas em relação a 64: primeiro, era aquele período de Guerra Fria, de posições extremadas.  E segundo, em 1964, o País não contava com instituições amadurecidas, com os seus espaços de atuação definidos e cumprindo adequadamente os seus papeis. Então, hoje, a grande diferença está aí: o nosso País tem instituições amadurecidas. O Brasil já é um país sofisticado, com sistemas de pesos e contrapesos, que dispensa a sociedade de ser tutelada.

“A partir daí, as Forças Armadas entendem que há dois aspectos fundamentais que orientam a nossa atuação: o primeiro é o da legalidade – todo e qualquer emprego das Forças Armadas estará absolutamente condicionado pelos dispositivos legais, desde a Constituição, passando pelas leis complementares, e assim por diante. E se formos empregados, isso se dará sempre por iniciativa de um dos poderes, conforme vimos na redação do Artigo 142 da Constituição. As Forças Armadas não existem para fiscalizar governo, e muito menos para derrubar governo. O segundo fundamento: temos obrigação de contribuir para a estabilidade, condição extremamente necessária para que as instituições continuem trabalhando enquanto a sociedade encontre os caminhos para superar toda essa crise que estamos vendo. Vimos esta semana, que foi extremamente preocupante. Uma série de medidas preventivas foram adotadas por nós, e vimos que as coisas transcorreram normalmente. Os embates na área política e judiciária têm sido extremamente acirrados, mas as instituições seguem  funcionando.

“É interessante, porque eu recebi a visita de um comandante do Exército Argentino, que veio participar das comemorações do Dia do Exército, hoje, e ele falava extremamente animado e admirado sobre como as instituições brasileiras funcionam bem. Impensável era para eles que um presidente da Câmara pudesse mover um processo de impeachment contra o presidente [da República], coisas desse tipo. Esse é o fundamento que seguimos, e estamos seguros de que a sociedade tem todas as condições de superar essa crise. A crise é de natureza política, econômica e ética. E aqui entra outro problema que está fugindo à nossa sociedade. Estamos impregnados desse pensamento do politicamente correto, uma ditadura do relativismo, e todos os parâmetros estão se esgarçando para menos, para baixo, e estamos perdendo todas as referências. Nos degradamos nos parâmetros éticos, nos parâmetros de eficiente, tudo se aceita, nos parâmetros estéticos – o nosso País está feio. Enfim, me preocupa ver que nas discussões em busca de soluções para a crise, eu vejo que essas discussões não têm profundidade: elas ficam no limite da questão econômica, em termos de política financeira: se sobe ou desce juros, taxa de câmbio, e coisas desse tipo. Eu me preocupo que os alicerces do nosso País não estão sendo considerados.”

“As pessoas são críticas em relação ao nosso nacionalismo, combatem o fato de que no Brasil aja um sentimento nacional forte, mas se deleitam e adoram o nacionalismo de outros países, em especial o dos Estados Unidos. Com relação à percepção da sociedade em relação a nós [militares], as pesquisas de opinião sempre colocam as Forças Armadas em primeiro lugar no índice de credibilidade entre todas as instituições nacionais, sempre num patamar de 70%. Normalmente, em segundo lugar vem a Igreja, com 62%. Então, de uma maneira geral, a percepção que a sociedade tem da gente é extremamente favorável, em razão daquelas ações subsidiárias: nós estávamos presentes em todos os pontos do território, apoiando a população. Alguns setores específicos têm uma visão estigmatizada, e às vezes preconceituosa, em relação a nós, e atribuímos isso à falta de informação.

“Eu vi, por exemplo, uma reportagem sobre colégios militares – nós temos treze colégios militares, mas existem no Brasil mais de sessenta, porque muitas polícias também possuem colégios militares -, e é o desempenho dos alunos desses colégios é sempre elevadíssimo. Por que? Por uma razão muito simples: a disciplina. A disciplina torna a vida confortável, estabelece claramente os limites de comportamento, e dentro desses limites, você é totalmente livre. E eu achei curiosa a discussão, porque vi uma educadora dizendo que a disciplina restringia a liberdade e a criatividade. Então vejam que tem uma idéia absolutamente preconcebida, distorcida, de alguém que ela não conhece.”

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