Fissuras na Aliança Atlântica

A despeito de a agenda externa dos EUA continuar contemplando a ampliação da dimensão e do alcance jurisdicional da Organização do Tratado do Atlântico do Norte (OTAN), em uma maldisfarçada intenção de reeditar a Guerra Fria como uma forma de manter subordinados os seus velhos e novos aliados, a debilidade da supremacia do dólar como centro do sistema monetário e financeiro internacional se acentua rapidamente. , levando muitos de seus aliados a uma acomodação pragmática a emergência da China um novo centro financeiro, para o grande desconforto de muitos ocupantes dos gabinetes e escritórios de Washington e Wall Street.

A mais recente fissura no edifício da Aliança Atlântica veio, surpreendentemente, de alguns dos seus mais confiáveis aliados europeus, que decidiram aderir como membros fundadores ao novo Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (AIIB, na sigla em inglês) criado pela China, de olho nas oportunidades oferecidas pelos esperados 8 trilhões de dólares de investimentos em infraestrutura na Ásia, ao longo da próxima década.

A trombeta da rebeldia foi soada por ninguém menos que o Reino Unido, como informou o chanceler do Erário George Osborne, na quinta-feira 12 de março. “Hoje, tenho o prazer de anunciar que o Reino Unido será o primeiro grande país do Ocidente a se tornar um membro fundador em perspectiva do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura, que já tem recebido um significativo apoio na região. Juntar-se ao AIIB no estágio de fundação irá criar uma oportunidade inigualada para o Reino Unido e a Ásia investirem e crescerem juntos”, afirmou ele, em Londres (The BRICS Post, 13/03/2015).

A decisão recebeu uma incomum crítica de Washington, que passou recibo do seu desagrado, pretextando uma risível “preocupação” com os níveis de governança e salvaguardas ambientais e sociais a serem aplicados nos projetos do banco. “Nós esperamos que o Reino Unido use a sua voz para promover a adoção de altos padrões”, grunhiu o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, Patrick Ventrell.

Na mesma linha, se manifestou o secretário de Estado Assistente para Assuntos do Leste Asiático e do Pacífico, Daniel Russell: “Cada governo pode tomar as suas próprias decisões sobre se o caminho para se atingir aquele objetivo é aderir antes que os artigos de acordo sejam esclarecidos ou esperando para ver como as evidências se parecem, quando o banco começar a operar (The BRICS Post, 17/03/2015).”

As lamúrias de Washington receberam um irônico comentário da agência Xinhua (14/03/2015):

A despeito de preocupações vocalizadas pelo seu estreito aliado, os EUA, a Grã-Bretanha, uma força atlântica convencional (sic), se tornará a primeira grande economia ocidental a se juntar a um mecanismo financeiro proposto pela China, que explorará as oportunidades de investimentos, principalmente, na Ásia. Downing Street acredita que a sua decisão de pedir para a ser um membro fundador do Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura, apoiado pela China, é “de interesse nacional do Reino Unido”. Os interesses domésticos podem não ser sempre compatíveis com os aliados de um país… A “oportunidade inigualável” para o Reino Unido, como vista pelo chanceler do Erário George Osborne, é invejável, na medida em que financistas e industriais esperam, com otimismo, investimentos totais em infraestrutura de 8 bilhões de dólares na Ásia, na década vindoura. Sem falar nos estáveis e respeitáveis retornos antecipados associados com os projetos de infraestrutura.

Na esteira de Londres, outras capitais europeias se atropelaram para aproveitar a oportunidade. Na terça-feira 17, foi a vez de Berlim, Paris e Roma anunciarem em conjunto a decisão de aderir ao banco, ao mesmo tempo em que a Suíça e Luxemburgo também consideram a possibilidade.

Outra vez, ouviu-se o grunhido de Washington. Em uma audiência no Congresso, com visível má-vontade, o secretário do Tesouro Jack Lew repetiu a ladainha: “Eu espero que, antes que os compromissos finais sejam feitos, qualquer um que empreste o seu nome a essa organização se assegure de que a governança seja apropriada (Reuters, 17/03/2015).”

Entretanto, ele próprio admitiu que os EUA estavam, em parte, pagando o preço da procrastinação das reformas propostas para o Fundo Monetário Internacional (FMI): “Não é um acidente que as economias emergentes estejam olhando para outros lugares, porque elas estão frustradas com que, francamente, os EUA têm paralisado um conjunto de reformas bastante suave e razoável no FMI.”

Enquanto saboreia a mini-rebelião europeia, Pequim trata de ampliar a sua rede de influência monetário-financeira, com o anúncio do início das operações do seu próprio sistema de pagamentos internacionais, o CIPS (de China International Payments System), em outubro próximo, como uma alternativa ao SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), controlado por Washington, que o tem utilizado como instrumento das suas políticas de sanções contra países como o Irã e a Rússia, embora, neste último caso, não tenha concretizado a ameaça de excluir o país.

Outra iniciativa relevante foi a solicitação de inclusão do yuan entre as moedas componentes dos Direitos Especiais de Saque (SDR, em inglês) do FMI. Segundo um porta-voz do Fundo, o pleito deverá ser avaliado até o final do ano. O SDR é uma cesta de moedas de referência cujo valor é vinculado ao do dólar, libra esterlina, euro e iene. A inclusão da moeda chinesa seria um reconhecimento de fato do rápido crescimento do seu papel nas transações internacionais, tendo fechado 2014 na quinta posição entre as moedas de referência, tendo ganho duas posições ao longo do ano, ultrapassando os dólares canadense e australiano (Bangkok Post, 13/05/2015).

É claro que o dólar ainda representa mais de 60% das reservas cambiais do planeta, mas as fissuras no seu edifício demonstram que o mundo está se cansando rapidamente dos privilégios do sistema “dolarcêntrico”. E Washington parece não estar gostando disso.

One comment

  1. Supreedente! Parece que os “outros” (Franca e Alemanha) aproveitam o jorro de “independencia” dos ingleses como um escudo. Parece que os ingleses ao fim querem dissuadir o congresso e o United States Treasury de abrir mao das investigacoes de bancos ingleses (HSBC etc.) e dos “paraisos” para contas segredas protegidos pela justicia de Bretanha (Channel Islands, Cayman Islands, British Cayman Islands, Bermudas, e outras ligadas aos “anglos” no Pacifico). Os Chineses parece aproveitam os “paraisos” financeiros protegidos pelos ingleses. Exemplo: A investigacao dos adversarios em Washington do projeto para um canal inter-oceanico do empresario chines Wang, tem identificados empresas de Wang em Cayman Islands, e a empresa proprietaria do aviao de Wang nos British Virgin Islands.

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