{"id":988,"date":"2014-02-21T01:31:47","date_gmt":"2014-02-21T01:31:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=988"},"modified":"2014-02-21T01:31:47","modified_gmt":"2014-02-21T01:31:47","slug":"contra-o-reducionismo-psicofisico-nas-pesquisas-do-cerebro-humano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/contra-o-reducionismo-psicofisico-nas-pesquisas-do-cerebro-humano\/","title":{"rendered":"Contra o reducionismo psicof\u00edsico nas pesquisas do c\u00e9rebro humano"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">O fil\u00f3sofo estadunidense Thomas Nagel \u00e9 um polemista inato. Seu \u00faltimo livro,\u00a0\u00abMente e Cosmos: por que a concep\u00e7\u00e3o materialista e neodarwinista da natureza \u00e9 quase certamente falsa\u00bb\u00a0(<em>Mind and Cosmos &#8211; Why the materialist, Neo-Darwinian Conception of Nature is Almost Certainly False, Oxford University Press, ainda sem edi\u00e7\u00e3o brasileira<\/em>), publicado em 2012, \u00e9 nada menos que uma luva atirada aos p\u00e9s da grande maioria da comunidade cient\u00edfica. Nele, o professor da Universidade de Nova York n\u00e3o apenas questiona os atuais pilares da Ci\u00eancia, como praticada nos \u00faltimos s\u00e9culos, como exp\u00f5e as vaidades de alguns dos seus protagonistas. N\u00e3o admira que, numa resenha publicada no jornal\u00a0The Guardian\u00a0(4\/01\/2013), o jornalista Mark Vernon o tenha rotulado como \u00abo mais desprezado livro sobre a Ci\u00eancia\u00bb.<\/p>\n<p align=\"left\">Qual o motivo de semelhante virul\u00eancia? Nagel n\u00e3o pertence \u00e0 vasta corrente que se digladia em torno dos conceitos de \u00abcriacionismo\u00bb e \u00abdesenho inteligente\u00bb (Intelligent Design, em ingl\u00eas), ainda que tenha afirmado que certos questionamentos dos proponentes desta \u00faltima corrente deveriam ser respondidos com mais seriedade. Ele se descreve como n\u00e3o religioso, mas, igualmente, enfatiza que foi a ortodoxia da altamente disseminada vis\u00e3o do mundo (no original, ele emprega a palavra alem\u00e3\u00a0Weltanschaaung) do naturalismo, com a qual, supostamente, todos os fen\u00f4menos poderiam ser explicados, que o motivou a escrever o livro: \u00abO meu alvo \u00e9 um retrato do mundo abrangente e especulativo, desenvolvido a partir da extrapola\u00e7\u00e3o de algumas descobertas da Biologia, da Qu\u00edmica e da F\u00edsica &#8211; uma\u00a0Weltanschaaung\u00a0naturalista particular, que postula uma rela\u00e7\u00e3o hier\u00e1rquica entre os sujeitos daquelas ci\u00eancias e a integralidade, em princ\u00edpio, de uma explica\u00e7\u00e3o de tudo no universo, por meio da unifica\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p align=\"left\">No tocante ao papel da consci\u00eancia e da mente humanas, Nagel demonstra com seus argumentos, nem sempre de leitura f\u00e1cil, que a quest\u00e3o n\u00e3o pode ser enfocada pelos m\u00e9todos da sele\u00e7\u00e3o neodarwinista convencional: \u00abO ponto de partida para o argumento \u00e9 o fracasso do reducionismo psicof\u00edsico, uma posi\u00e7\u00e3o na filosofia da mente que \u00e9 grandemente motivada pela esperan\u00e7a de se demonstrar como as ci\u00eancias f\u00edsicas poderiam, em princ\u00edpio, proporcionar uma teoria de tudo.\u00bb<\/p>\n<p align=\"left\">A essa altura, ainda nas primeiras p\u00e1ginas do livro, o leitor \u00e9 tentado a afirmar: at\u00e9 que enfim, um livro que coloca a consci\u00eancia humana no centro das ci\u00eancias da vida e n\u00e3o cai na armadilha do reducionismo psicof\u00edsico!<\/p>\n<p align=\"left\">De diferentes pontos de vista, Nagel demonstra que tal caracter\u00edstica especial do ser humano representa um princ\u00edpio constituinte not\u00e1vel na hist\u00f3ria natural. Quando este autor estudava Medicina, nas d\u00e9cadas de 1960-1970, manifestava-se uma intensa discuss\u00e3o sobre o chamado \u00abparalelismo psicof\u00edsico\u00bb, na determina\u00e7\u00e3o dos processos da consci\u00eancia e autoconsci\u00eancia humana. O triunfo do reducionismo psicof\u00edsico na pesquisa cient\u00edfica se mostra, por exemplo, no Projeto C\u00e9rebro Humano da Uni\u00e3o Europeia e na Iniciativa C\u00e9rebro (BRAIN) estadunidense, projetos que contam com financiamentos na casa dos bilh\u00f5es de euros e d\u00f3lares, cujos resultados, at\u00e9 agora, t\u00eam sido p\u00edfios (ver o artigo do autor, no\u00a0Alerta Cient\u00edfico e Ambiental\u00a0de 16\/05\/2013).<\/p>\n<p align=\"left\">Na Alemanha, onde, uma d\u00e9cada atr\u00e1s, se faziam progn\u00f3sticos um tanto exuberantes sobre as futuras possibilidades t\u00e9cnicas da neuroci\u00eancia, j\u00e1 se promove uma reavalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica das evid\u00eancias. Em um recente artigo publicado na revista\u00a0Psychologieheute\u00a0(3\/2014), intitulado \u00abNeuroci\u00eancia reflexiva\u00bb, um grupo de 15 destacados neurocientistas exige uma reavalia\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o:<\/p>\n<blockquote><p>O que se necessita \u00e9 uma nova imagem do homem, que tenha um fundamento cient\u00edfico. Ao nosso ver, o presente estado de coisas \u00e9 um tanto desapontador. Estamos muito longe dos objetivos que foram vislumbrados inicialmente. E a raz\u00e3o para isto transcende em muito as dificuldades organizacionais e t\u00e9cnicas. De um lado, h\u00e1 os problemas referentes \u00e0s debilidades da teoria da neuroci\u00eancia e, do outro, as pouco pensadas hip\u00f3teses e conceitos naturalistas. Isto dificulta sobremaneira o desejo de se constru\u00edrem pontes sustent\u00e1veis para a Psicologia, a Filosofia e as Ci\u00eancias Culturais.<\/p><\/blockquote>\n<p align=\"left\">Nagel se distancia das tentativas superficiais de se misturarem os insights e as fa\u00e7anhas cient\u00edficas de Charles Darwin com as teorias altamente simplistas dos neodarwinistas atuais. N\u00e3o obstante, as campanhas militantes do bi\u00f3logo ingl\u00eas Richard Dawkins o t\u00eam desafiado: \u00abQuanto mais detalhes sabemos sobre as bases qu\u00edmicas da vida e a complexidade do c\u00f3digo gen\u00e9tico, menos cr\u00edvel se tornam os conceitos padr\u00f5es hist\u00f3ricos.\u00bb Ele complementa a observa\u00e7\u00e3o, sugerindo aos interessados uma leitura de\u00a0O relojoeiro cego, de Dawkins, para uma exposi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica do tema.<\/p>\n<p align=\"left\">Seria, realmente, desej\u00e1vel que, antes de prosseguir com os seus projetos de pesquisas, alguns pesquisadores s\u00e9rios come\u00e7assem a internalizar as cr\u00edticas de Nagel, que nos trazem \u00e0 mente o di\u00e1logo\u00a0Parm\u00eanides\u00a0de Plat\u00e3o. H\u00e1 alguns anos, juntamente com minha esposa Elisabeth, participei de um semin\u00e1rio na Academia Evang\u00e9lica de Tutzing, na qual tivemos a oportunidade de discutir com o f\u00edsico e fil\u00f3sofo Carl Friedrich von Weizs\u00e4cker (1912-2007), sobre a sua vis\u00e3o dos desafios futuros das pesquisas fundamentais da F\u00edsica. Sua resposta foi: h\u00e1 uma necessidade urgente de se reestudar novamente o\u00a0Parm\u00eanides, para ele, uma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para se encontrar uma sa\u00edda dos debates cient\u00edficos estreitos da atualidade, quanto \u00e0 F\u00edsica. Certamente, a sugest\u00e3o \u00e9 ainda mais v\u00e1lida para as pesquisas sobre a consci\u00eancia humana, os processos cognitivos e o funcionamento do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p align=\"left\">Em seu di\u00e1logo, Plat\u00e3o leva a busca dial\u00e9tica pela verdade ao seu limite extremo, em diferentes n\u00edveis. Mesmo h\u00e1 24 s\u00e9culos ap\u00f3s a elabora\u00e7\u00e3o da sua obra filos\u00f3fica, que cont\u00e9m uma pletora de formula\u00e7\u00f5es instigantes sobre a quest\u00e3o do Uno e do M\u00faltiplo, est\u00e1 claro que, sem este exerc\u00edcio mental e a consci\u00eancia da import\u00e2ncia deste di\u00e1logo, n\u00e3o haver\u00e1 solu\u00e7\u00e3o para os numerosos problemas n\u00e3o resolvidos sobre a natureza da mente e da consci\u00eancia humanas e suas intera\u00e7\u00f5es com as condi\u00e7\u00f5es e processos f\u00edsicos.<\/p>\n<p align=\"left\">O trabalho de Thomas Nagel proporciona um bem-vindo arejamento a esta discuss\u00e3o crucial.<\/p>\n<p align=\"left\"><a href=\"http:\/\/www.alerta.inf.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Thomas_Nagel_teaching_Ethics.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-989\" alt=\"Thomas_Nagel_teaching_Ethics\" src=\"http:\/\/www.alerta.inf.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Thomas_Nagel_teaching_Ethics.png\" width=\"576\" height=\"324\" srcset=\"https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Thomas_Nagel_teaching_Ethics.png 576w, https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/Thomas_Nagel_teaching_Ethics-300x169.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 576px) 100vw, 576px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fil\u00f3sofo estadunidense Thomas Nagel \u00e9 um polemista inato. 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