{"id":974,"date":"2014-02-07T17:30:15","date_gmt":"2014-02-07T17:30:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=974"},"modified":"2014-02-07T17:30:15","modified_gmt":"2014-02-07T17:30:15","slug":"contra-a-bioadversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/contra-a-bioadversidade\/","title":{"rendered":"Contra a \u00abbioadversidade\u00bb"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\"><em>Evaristo Eduardo de Miranda<\/em><\/p>\n<p align=\"left\"><em>Doutor em Ecologia e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa). Artigo originalmente publicado no jornal <\/em>O Estado de S. Paulo<em> de 24 de janeiro de 2014.<\/em><\/p>\n<p align=\"left\">Nas \u00e1reas rurais, nas periferias urbanas e na produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, os brasileiros enfrentam uma dura e cotidiana batalha contra a \u00abbioadversidade\u00bb: pragas e doen\u00e7as atacam humanos, animais, cultivos e o meio ambiente. Sem a\u00e7\u00f5es efetivas de gest\u00e3o e controle, popula\u00e7\u00f5es de animais selvagens, nativos e ex\u00f3ticos, proliferam.<\/p>\n<p align=\"left\">Exemplo conhecido \u00e9 a prolifera\u00e7\u00e3o das capivaras em espa\u00e7os urbanos e \u00e1reas agr\u00edcolas. Al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o na vegeta\u00e7\u00e3o, elas disseminam a febre maculosa, por meio do carrapato-estrela, respons\u00e1vel pela morte de dezenas de pessoas. Isso interditou o acesso a espa\u00e7os p\u00fablicos em diversas cidades. As placas advertem: \u00abCapivaras. Afaste-se. Risco de febre maculosa\u00bb. Elimin\u00e1-las n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e constitui crime ambiental inafian\u00e7\u00e1vel. As prefeituras est\u00e3o de m\u00e3os atadas.<\/p>\n<p align=\"left\">Problema an\u00e1logo ocorre com a prolifera\u00e7\u00e3o de micos, saguis e at\u00e9 do macaco-prego, capazes de devorar ovos e filhotes, mesmo nos ninhos mais escondidos. Eles causam o decl\u00ednio e a extin\u00e7\u00e3o local de popula\u00e7\u00f5es de aves, al\u00e9m de invadirem resid\u00eancias e destru\u00edrem a vegeta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p align=\"left\">Como as pombas, os \u00abratos do c\u00e9u\u00bb, as maritacas adaptaram-se \u00e0s cidades, n\u00e3o cessam sua expans\u00e3o e causam diversos danos, at\u00e9 \u00e0s instala\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas. Com a pomba-amargosa e outras pragas aladas, as maritacas chegam a impossibilitar o cultivo de girassol, sorgo e outras plantas, causam danos \u00e0 fruticultura e atacam os gr\u00e3os no transporte, como o amendoim.<\/p>\n<p align=\"left\">Dois graves problemas faun\u00edsticos vieram da Argentina e do Uruguai: a lebre e o javali. A superpopula\u00e7\u00e3o da lebre europeia virou caso de seguran\u00e7a aerovi\u00e1ria. O grande n\u00famero desses animais \u00e1geis e de h\u00e1bito noturno preocupa a opera\u00e7\u00e3o de aeroportos. Sua reprodu\u00e7\u00e3o crescente e r\u00e1pida torna invi\u00e1vel a produ\u00e7\u00e3o de hortali\u00e7as. Elas destroem planta\u00e7\u00f5es de maracuj\u00e1, laranjais e cafezais em forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 cerca ou tela capaz de cont\u00ea-las. Um dos maiores prejudicados \u00e9 o coelho nativo. O tapiti e seus filhotes s\u00e3o mortos pela lebre, que invade e ocupa suas tocas. J\u00e1 o javali segue em expans\u00e3o e ataca as mais diversas lavouras e ambientes naturais. N\u00e3o h\u00e1 defesa contra esse animal agressivo que chega a 200 quilos, atua em bandos e invade at\u00e9 mesmo cria\u00e7\u00f5es de su\u00ednos em busca de f\u00eameas. Em \u00e1reas protegidas, o javali ocupa o h\u00e1bitat e concorre com a queixada e o cateto.<\/p>\n<p align=\"left\">Sem manejo adequado, a recupera\u00e7\u00e3o das \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o permanente e de reserva legal, determinada pelo novo C\u00f3digo Florestal, criar\u00e1 corredores e novos espa\u00e7os para ampliar ainda mais essas pragas e as doen\u00e7as transmitidas. Seu contato com a fauna selvagem e dom\u00e9stica ampliar\u00e1 a prolifera\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias doen\u00e7as, como febre amarela, aftosa, lepra, raiva, leishmaniose, etc. Sem gest\u00e3o territorial e ambiental, a introdu\u00e7\u00e3o e a aproxima\u00e7\u00e3o desses animais de \u00e1reas rurais e urbanas tornar\u00e1 invi\u00e1vel a elimina\u00e7\u00e3o de diversas doen\u00e7as e trar\u00e1 novas &#8211; e dif\u00edceis &#8211; realidades ao combate \u00e0s zoonoses.<\/p>\n<p align=\"left\">A bioadversidade dos invertebrados resulta em parte da biodiversidade de mosquitos, pernilongos, carapan\u00e3s, borrachudos e assimilados. A dengue, transmitida pelo mosquito <em>Aedes aegypti<\/em>, ultrapassou 1,5 milh\u00e3o de casos em 2013, tr\u00eas vezes mais do que em 2012! Um recorde como nunca antes se viu na Hist\u00f3ria deste pa\u00eds. Foram 500 mortes registradas. E prosseguem cr\u00f4nicas a febre amarela, a mal\u00e1ria, a oncocercose, etc.<\/p>\n<p align=\"left\">A bioadversidade provocada por vermes e assimilados tamb\u00e9m vai bem. Esquistossomose, Chagas, toxoplasmose, ameb\u00edases, lombrigas e giard\u00edases proliferam. A falta de saneamento e de \u00e1gua tratada afeta criticamente tanto popula\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas ao longo de grandes rios como a periferia de cidades e \u00e1reas rurais. Mais de 88% das mortes por diarreia se devem \u00e0 falta de saneamento e 84% dessas mortes atingem as crian\u00e7as. As infec\u00e7\u00f5es s\u00e3o contra\u00eddas pela ingest\u00e3o de \u00e1gua ou alimentos contaminados. Apesar dos progressos (entre 2010 e 2011 houve um aumento de 1,4 milh\u00e3o de ramais de \u00e1gua e 1,3 milh\u00e3o na rede de esgotos), n\u00e3o se coleta nem metade do esgoto. E, do coletado, apenas 38% recebe algum tratamento. As inunda\u00e7\u00f5es de ver\u00e3o, al\u00e9m de deslizamentos, trazem a leptospirose e o perigo do tifo e do t\u00e9tano.<\/p>\n<p align=\"left\">Os ex\u00e9rcitos de carrapatos, percevejos, moscas, mutucas, baratas, escorpi\u00f5es, aranhas, morcegos hemat\u00f3fagos e transmissores da raiva, caramujos gigantes, serpentes pe\u00e7onhentas e outras amea\u00e7as sempre recebem refor\u00e7os externos. A rec\u00e9m-chegada lagarta <em>Helicoverpa armigera<\/em> j\u00e1 trouxe preju\u00edzos de bilh\u00f5es \u00e0 agricultura brasileira! Isso n\u00e3o se resolve apenas com reflex\u00f5es metaf\u00edsicas. \u00c9 preciso agir.<\/p>\n<p align=\"left\">Explica\u00e7\u00f5es simplistas de que o desmatamento ou o \u00abdesequil\u00edbrio ecol\u00f3gico\u00bb levam esses animais a se refugiar em cidades n\u00e3o servem nem como piada. No mundo inteiro existem gest\u00e3o e manejo ambiental, como abate direcionado de animais e uso preventivo do fogo, por exemplo, at\u00e9 em unidades de conserva\u00e7\u00e3o. No Brasil n\u00e3o se pode fazer manejo e gest\u00e3o ambiental nem sequer em \u00e1reas agr\u00edcolas. Capacitar t\u00e9cnicos para o manejo seria indu\u00e7\u00e3o ao crime. A pol\u00edtica resume-se a aplicar redomas legais de prote\u00e7\u00e3o sobre territ\u00f3rios e esp\u00e9cies, mesmo se invasoras ou em superpopula\u00e7\u00e3o. N\u00e3o existem a\u00e7\u00f5es efetivas de controle dessas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p align=\"left\">A situa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria atual e futura precisa ser objeto de uma aten\u00e7\u00e3o mais racional e preventiva. Como enfrentar essa bioadversidade quando qualquer tipo de ca\u00e7a \u00e9 crime e a posse de armas, mesmo em \u00e1reas rurais isoladas, \u00e9 quase imposs\u00edvel? Maior que o desafio de preservar a natureza \u00e9 o de geri-la e controlar suas popula\u00e7\u00f5es animais. Enfrentar a bioadversidade exige, al\u00e9m de financiamento, um cabedal de ci\u00eancia, inova\u00e7\u00e3o e compet\u00eancia, algo raro, quase em extin\u00e7\u00e3o, no campo ambiental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Evaristo Eduardo de Miranda Doutor em Ecologia e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa). Artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 24 de janeiro de 2014. Nas \u00e1reas rurais, nas periferias urbanas e na produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, os brasileiros enfrentam uma dura e cotidiana batalha contra a \u00abbioadversidade\u00bb: pragas e &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-974","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/974","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=974"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/974\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}