{"id":839,"date":"2014-02-14T15:49:31","date_gmt":"2014-02-14T15:49:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=839"},"modified":"2014-02-14T15:49:31","modified_gmt":"2014-02-14T15:49:31","slug":"conferencia-de-munique-comunidade-estrategica-perdida-com-tantas-crises","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/conferencia-de-munique-comunidade-estrategica-perdida-com-tantas-crises\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia de Munique: comunidade estrat\u00e9gica perdida com tantas crises"},"content":{"rendered":"<p>Na edi\u00e7\u00e3o em que celebrava o seu cinquenten\u00e1rio, a Confer\u00eancia de Seguran\u00e7a de Munique (CSM), realizada entre 31 de janeiro e 2 de fevereiro, deixou claro que a comunidade estrat\u00e9gica das principais pot\u00eancias mundiais n\u00e3o tem respostas definidas para enfrentar a profus\u00e3o de crises que tem assolado as suas \u00e1reas de influ\u00eancia. Isto ficou particularmente evidente nas rea\u00e7\u00f5es divididas diante da crise em curso na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Um aspecto-chave tratado no evento foi o papel que a anfitri\u00e3 Alemanha pretende desempenhar nos assuntos mundiais. Este ano, coube ao presidente alem\u00e3o Joachim Gauck proferir o discurso inaugural da confer\u00eancia, fato at\u00e9 ent\u00e3o inusitado. Em sua exposi\u00e7\u00e3o, Gauck definiu o futuro papel da Alemanha como um compromisso de assumir \u00abmais responsabilidades\u00bb mundiais, em lugar de ficar \u00e0 margem dos acontecimentos. Muitos comentaristas interpretaram o discurso como uma manifesta\u00e7\u00e3o de uma grande \u00abguinada\u00bb da Alemanha, que passaria a envolver-se mais concretamente em situa\u00e7\u00f5es de conflitos, em vez de simplesmente evitar interferir nelas.<\/p>\n<p>Entretanto, essa nova orienta\u00e7\u00e3o corre o risco de tornar-se uma \u00abarmadilha geopol\u00edtica\u00bb, pelo menos, quanto \u00e0 Ucr\u00e2nia. Visivelmente, o governo alem\u00e3o n\u00e3o tem qualquer interesse estrat\u00e9gico em promover uma escalada no conflito interno ucraniano ou em deix\u00e1-lo se transformar em uma balb\u00fardia violenta. Como disse, em Munique, o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores Frank-Walter Steinmeier, Berlim est\u00e1 em busca de uma \u00absolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica\u00bb, juntamente com a R\u00fassia, que tamb\u00e9m tem numerosos interesses estrat\u00e9gicos na Ucr\u00e2nia. E a Alemanha n\u00e3o tem qualquer interesse em criar um impasse com a R\u00fassia. N\u00e3o obstante, tais fatos parecem colocar-se em desacordo com os interesses estrat\u00e9gicos dos EUA, como se pode observar pelos discursos do secret\u00e1rio de Estado John Kerry e do secret\u00e1rio de Defesa Chuck Hagel, bem como pela presen\u00e7a de altos funcion\u00e1rios do governo estadunidense em Kiev. Todos deixaram bem claro que Washington pretende fazer o que estiver ao seu alcance para apoiar a oposi\u00e7\u00e3o ao presidente Viktor Yanukovich, tanto em termos de apoio politico como material.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>O espectro da I Guerra Mundial<\/strong><\/p>\n<p>Steinmeier sinalizou o dilema enfrentado pela Alemanha, cujos interesses tradicionais favorecem o engajamento emu ma coopera\u00e7\u00e3o construtiva com a R\u00fassia. Mencionando o rec\u00e9m-publicado livro\u00a0<em>Sleepwalkers<\/em>\u00a0(Son\u00e2mbulos), sobre a I Guerra Mundial, do historiador brit\u00e2nico Christopher Clark, ele afirmou que a obra deveria ser estudada pelos politicos e diplomatas atuais e entendida como \u00abuma advert\u00eancia\u00bb. Em 1914, disse ele, em poucas semanas, a Europa mergulhou em uma guerra generalizada que ningu\u00e9m queria realmente &#8211; uma guerra deflagrada por uma sequ\u00eancia de eventos e pela total incapacidade e estupidez das elites dirigentes, no sentido de agirem de forma racional. Hoje, afirmou, a Europa est\u00e1 enquadrada por v\u00e1rios conflitos violentos no Leste Asi\u00e1tico e, em particular, pelas tens\u00f5es crescentes entre a China e o Jap\u00e3o (assunto tamb\u00e9m comentado por Henry Kissinger, referindo-se \u00e0 situa\u00e7\u00e3o europeia no pr\u00e9-guerra), a deteriora\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o no Oriente M\u00e9dio e a crise que se estende da zona do Sahel, ao Golfo P\u00e9rsico e ao Golfo da Guin\u00e9.<\/p>\n<p>No painel sobre \u00abPoder global e estabilidade regional\u00bb, o ministro alem\u00e3o delineou o quadro que v\u00ea como o futuro papel do pa\u00eds, que exigir\u00e1 uma atitude mais firme nos temas de pol\u00edtica externa e \u00e1reas de conflitos militares, em particular, com respeito aos Estados fr\u00e1geis, como ocorre na \u00c1frica. Ao mesmo tempo, afirmou, a mobiliza\u00e7\u00e3o militar s\u00f3 pode funcionar como a \u00ab\u00faltima op\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia, Steinmeier enfatizou a necessidade de uma solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta, instando a que se busque um compromisso, juntamente com a R\u00fassia. A prop\u00f3sito, para ele, a coopera\u00e7\u00e3o com Moscou tamb\u00e9m representa a \u00fanica possibilidade de se encontrar solu\u00e7\u00f5es pac\u00edficas para o conflito na S\u00edria e o contencioso com o Ir\u00e3.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>O ponto de vista de Moscou<\/strong><\/p>\n<p>Falando depois de Steinmeier, o chanceler russo Sergei Lavrov destacou alguns aspectos mencionados por ele, inclusive, a analogia com a I Guerra Mundial e a necessidade de coopera\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia para uma solu\u00e7\u00e3o do imbr\u00f3glio ucraniano. Lavrov fez uma refer\u00eancia ao sonho de uma Europa unificada, que a R\u00fassia compartilhava com o resto do continente, ap\u00f3s a queda do Muro de Berlim. Ele recordou a c\u00fapula da Organiza\u00e7\u00e3o para a Seguran\u00e7a e Coopera\u00e7\u00e3o na Europa (OSCE), em Astana, Cazaquist\u00e3o, em 2010, onde a R\u00fassia e a Uni\u00e3o Europeia (UE) assinaram um documento manifestando o seu compromisso de se engajarem em uma \u00abparceria euroatl\u00e2ntica-eurasi\u00e1tica\u00bb. Por\u00e9m, lamentou ele, nada disto se concretizou.<\/p>\n<p>Desde a c\u00fapula sobre a Parceria Leste-europeia de novembro \u00faltimo, em Vilnius, Litu\u00e2nia, e a recusa final do governo ucraniano de assinar um tratado de associa\u00e7\u00e3o com a UE, emergiram novas tens\u00f5es entre a R\u00fassia e o bloco europeu. Lavrov incomodou a plateia, ao perguntar: \u00abO que a provoca\u00e7\u00e3o de dist\u00farbios tem a ver com manifesta\u00e7\u00f5es? Por que n\u00e3o tem havido qualquer condena\u00e7\u00e3o das palavras de ordem nazistas e racistas proferidas por manifestantes que t\u00eam ocupado pr\u00e9dios governamentais? Por que a UE tolera tais atos?\u00bb.<\/p>\n<p>De acordo com Lavrov, \u00aba Europa n\u00e3o \u00e9 mais o ponto de interse\u00e7\u00e3o de um conflito Leste-Oeste, mas pode se tornar um centro de poder se cooperar com a R\u00fassia\u00bb. Ele se referia \u00e0 c\u00fapula UE-R\u00fassia, em Bruxelas, onde o presidente Vladimir Putin enfatizou a necessidade de uma coopera\u00e7\u00e3o entre a R\u00fassia e o bloco europeu para a constru\u00e7\u00e3o de uma Uni\u00e3o Eurasi\u00e1tica.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 crise ucraniana, Lavrov secundou a posi\u00e7\u00e3o de Steinmeier sobre a necessidade de uma coopera\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o uma interven\u00e7\u00e3o, da R\u00fassia e da UE, para se chegar a uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica do impasse. A Carta de Helsinki, assinada por todos os pa\u00edses do Leste e do Oeste da Europa, lembrou, determina que n\u00e3o deve haver interfer\u00eancias nos assuntos internos de outros estados, caso da Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Brzezinski: um compromisso \u00e9 necess\u00e1rio na Ucr\u00e2nia<\/strong><\/p>\n<p>No evento, a maior parte das aten\u00e7\u00f5es da m\u00eddia esteve voltada para a Ucr\u00e2nia. O painel sobre a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds teve v\u00e1rios pesos pesados: o chanceler ucraniano, Leonid Kozhara; o l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, Vitali Klychko; o ministro-presidente da Ge\u00f3rgia, Irakli Garibashvili; o presidente da Rom\u00eania, Traian Basescu; o deputado russo Leon Slutsky, alto membro da comiss\u00e3o da Duma para integra\u00e7\u00e3o eurasi\u00e1tica; e o ex-conselheiro de Seguran\u00e7a Nacional estadunidense Zbigniew Brzezinski (c\u00e9lebre, entre outros motivos, por seu livro de 1997,\u00a0<em>\u00abO grande tabuleiro de xadrez\u00bb<\/em>, no qual afirma que quem controlar a massa continental eurasi\u00e1tica controlar\u00e1 o mundo).<\/p>\n<p>Por ironia, Brzezinski foi um dos que fez os coment\u00e1rios mais l\u00facidos. Para ele, dadas a sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e sua hist\u00f3ria, tendo sido formada por tr\u00eas imp\u00e9rios, a Ucr\u00e2nia necessita de um \u00abcompromisso\u00bb. Ele enfatizou que a oposi\u00e7\u00e3o deve se tornar mais vis\u00edvel e definir um programa politico claro, e que deve haver \u00abapenas um l\u00edder\u00bb, com um programa real que represente todos os ucranianos. Por isso, alertou, sequer se deve pensar numa secess\u00e3o ou divis\u00e3o do pa\u00eds. Em uma posi\u00e7\u00e3o surpreendente para um \u00abruss\u00f3fobo\u00bb de carteirinha como ele, Brzezinski advertiu que a Ucr\u00e2nia e a UE devem negociar mais seriamente entre si, mas tamb\u00e9m com a R\u00fassia. Em fun\u00e7\u00e3o do caos econ\u00f4mico vigente na Ucr\u00e2nia, disse ele, a UE e a R\u00fassia deveriam encontrar uma f\u00f3rmula para cooperarem em um ambiente sadio, que leve em considera\u00e7\u00e3o tanto os interesses russos como os do bloco europeu. \u00abSe n\u00e3o se encontrarem rapidamente resultados econ\u00f4micos, sera uma cat\u00e1strofe tanto para a R\u00fassia como para a Europa\u00bb, enfatizou.<\/p>\n<p>Por sua vez, o chanceler Kozhara explicou que a Ucr\u00e2nia \u00e9 um pa\u00eds grande e um Estado multi\u00e9tnico e multirreligioso: \u00abExistem oito milh\u00f5es de russos vivendo na Ucr\u00e2nia. N\u00f3s temos v\u00e1rias capitais diferentes, temos la\u00e7os culturais e isto tamb\u00e9m vale para as rela\u00e7\u00f5es com a R\u00fassia. N\u00f3s est\u00e1vamos prontos para assinar um acordo de associa\u00e7\u00e3o com a UE em Vilnius, mas, ent\u00e3o, o FMI [Fundo Monet\u00e1rio Internacional] fez exig\u00eancias totalmente inaceit\u00e1veis, que teriam provocado a bancarrota da economia ucraniana. Em troca, a R\u00fassia fez uma oferta atraente, de 15 bilh\u00f5es de euros e um pre\u00e7o mais barato para o g\u00e1s.\u00bb<\/p>\n<p>Kozhara afirmou que as manifesta\u00e7\u00f5es em Kiev constituem \u00abum problema complexo\u00bb e ressaltou que \u00abn\u00f3s [o governo] devemos pensar estrategicamente, mas a oposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m deve pensar estrategicamente\u00bb.<\/p>\n<p>J\u00e1 o l\u00edder oposicioista Klychko, badalado pela m\u00eddia como o grande \u00abl\u00edder carism\u00e1tico\u00bb presente em Munique, reiterou as suas exig\u00eancias ao governo: luta contra a corrup\u00e7\u00e3o; uma nova Constitui\u00e7\u00e3o; novas elei\u00e7\u00f5es; e anistia para os detidos durante as manifesta\u00e7\u00f5es. Depois de ouvi-lo, v\u00e1rios participantes da confer\u00eancia observaram que Klychko se encontra em um grande dilema: de um lado, ele est\u00e1 elevando ao m\u00e1ximo as exig\u00eancias, inclusive, a ren\u00fancia imediata do presidente Yanukovich; do outro, a UE ajudou a criar o problema, por n\u00e3o ter feito nada nos \u00faltimos dois anos.<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>Um velho estadista irado contra os poderes financeiros<\/strong><\/p>\n<p>Em Munique, tamb\u00e9m se manifestou uma grande inquieta\u00e7\u00e3o sobre o futuro estrat\u00e9gico da Europa. Ela foi manifestada da forma mais eloquente pelo ex-chanceler Helmut Schmidt (1974-1982). No painel intitulado \u00ab50 anos da CSM\u00bb, que contou com a presen\u00e7a de outros politicos veteranos, como Kissinger e o ex-presidente franc\u00eas Val\u00e9ry Giscard d&#8217;Estaing, Schmidt falou sobre os futuros desafios de seguran\u00e7a, situando-os no contexto das megacidades cujas popula\u00e7\u00f5es crescem de forma explosiva, e nas favelas e periferias superpovoadas, que podem tornar-se \u00abum caldeir\u00e3o de turbul\u00eancias, desordem social e um desafio de seguran\u00e7a real\u00bb.<\/p>\n<p>Schmidt ressaltou que, em 2020, a Europa ter\u00e1 apenas 7% da popula\u00e7\u00e3o mundial (contra 20% em 1959) e advertiu que os europeus n\u00e3o deveriam ser megaloman\u00edacos, mas ter humildade para n\u00e3o exagerar a sua import\u00e2ncia. Segundo ele, o que unifica a Europa \u00e9 a sua literatura, sua pintura e sua m\u00fasica. Em cada pa\u00eds europeu, destacou, os melhores poetas t\u00eam as suas obras imediatamente traduzidas e disponibilizadas para todos os cidad\u00e3os do continente.<\/p>\n<p>Irado, o veterano estadista (95 anos) tamb\u00e9m investiu contra o poderio sem controle da alta finan\u00e7a: \u00ab\u00c9 o poder de 20 mil administradores financeiros que vivem em Nova York, Hong Kong e Londres. Ap\u00f3s o colapso do [banco] Lehman Brothers, n\u00f3s vimos milh\u00f5es de pessoas serem atiradas \u00e0 mis\u00e9ria. Ningu\u00e9m fala sobre isto. N\u00e3o foi poss\u00edvel fazer nada na Europa, em termos de se controlarem certos poderes excessivos das finan\u00e7as, nem mesmo uma supervis\u00e3o banc\u00e1ria comum\u2026 Se a Europa fosse mais modesta e menos preocupada com interven\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias, e se concentrasse nas tarefas essenciais, o futuro do mundo seria melhor.\u00bb<\/p>\n<p><em><br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/admin-ajax.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-849\" title=\"Confer\u00eancia de Munique\" src=\"http:\/\/www.msia.org.br\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/admin-ajax.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"320\" srcset=\"https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/admin-ajax.jpg 480w, https:\/\/msiainforma.org\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/admin-ajax-300x200.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/a><br \/>\nFoto da p\u00e1gina de abertura:<\/em><\/p>\n<p><em>O chanceler franc\u00eas Laurent Fabius e seu colega russo Sergei Lavrov parecem demonstrar os desencontros entre os participantes da Confer\u00eancia de Munique (Reuters)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na edi\u00e7\u00e3o em que celebrava o seu cinquenten\u00e1rio, a Confer\u00eancia de Seguran\u00e7a de Munique (CSM), realizada entre 31 de janeiro e 2 de fevereiro, deixou claro que a comunidade estrat\u00e9gica das principais pot\u00eancias mundiais n\u00e3o tem respostas definidas para enfrentar a profus\u00e3o de crises que tem assolado as suas \u00e1reas de influ\u00eancia. 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