{"id":810,"date":"2013-06-21T18:38:23","date_gmt":"2013-06-21T18:38:23","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=810"},"modified":"2013-06-21T18:38:23","modified_gmt":"2013-06-21T18:38:23","slug":"manifestacoes-e-infraestrutura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/manifestacoes-e-infraestrutura\/","title":{"rendered":"Manifesta\u00e7\u00f5es e infraestrutura"},"content":{"rendered":"<p>Uma das motiva\u00e7\u00f5es das impressionantes manifesta\u00e7\u00f5es que t\u00eam ocupado as ruas de um n\u00famero crescente de cidades brasileiras, nos \u00faltimos dias, \u00e9 o descontentamento generalizado com a infraestrutura de servi\u00e7os urbanos, em especial, a de transportes. E o problema, como tem sido destacado por numerosos manifestantes, n\u00e3o se limita aos reajustes das passagens &#8211; as centelhas motivadoras dos primeiros protestos -, mas inclui a baixa qualidade dos servi\u00e7os oferecidos na maioria das grandes cidades e os congestionamentos crescentes, que implicam em colossais desperd\u00edcios de tempo, atividades produtivas e combust\u00edveis, problemas de sa\u00fade e estresse provocados pela polui\u00e7\u00e3o adicional e outros fatores. Embora n\u00e3o sejam considerados pelas administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, j\u00e1 existem metodologias criteriosas para a avalia\u00e7\u00e3o dos custos financeiros de tais preju\u00edzos. Por exemplo, estudos efetuados pelas funda\u00e7\u00f5es Dom Cabral e Get\u00falio Vargas, para S\u00e3o Paulo e o Rio de Janeiro, determinaram que os custos anuais dos congestionamentos nas duas cidades atingem, respectivamente, valores da ordem de R$ 33-35 bilh\u00f5es e R$ 13-16 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>Atualmente, os cariocas gastam, em m\u00e9dia, duas horas e 50 minutos por dia nos trajetos de ida e volta do trabalho, enquanto os paulistanos j\u00e1 est\u00e3o na casa das tr\u00eas horas. Nas demais capitais, os n\u00fameros ainda n\u00e3o chegam a tais extremos, mas n\u00e3o s\u00e3o muito animadores. Assim, n\u00e3o admira que os transportes urbanos estejam na primeira fila das prioridades dos manifestantes.<\/p>\n<p>Em todo o mundo, as redes de transportes urbanos mais eficientes s\u00e3o as baseadas nos trilhos &#8211; trens, metr\u00f4s e bondes modernos -, mas, em terras brasileiras, esta \u00e9 a alternativa mais negligenciada pelas administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, que costumam justific\u00e1-lo com o argumento dos altos custos de implanta\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o. Assim, com exce\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, os escassos trens e metr\u00f4s atendem apenas a reduzidas parcelas das movimenta\u00e7\u00f5es di\u00e1rias de passageiros, nas poucas cidades servidas por eles. No Rio, a rede ferrovi\u00e1ria, que chegou a transportar mais de 1,5 milh\u00e3o de pessoas por dia, na d\u00e9cada de 1970, hoje n\u00e3o passa de 500 mil, enquanto o metr\u00f4 mal chega a 600 mil. Enquanto isto, o Detran carioca licencia 400 ve\u00edculos novos por dia (contra mais que o dobro na capital paulista) e, como o n\u00famero dos que s\u00e3o retirados \u00e9 uma reduzida fra\u00e7\u00e3o disto e o espa\u00e7o vi\u00e1rio \u00e9 relativamente fixo, n\u00e3o \u00e9 preciso muita imagina\u00e7\u00e3o para se perceber a dimens\u00e3o do problema.<\/p>\n<p>Por outro lado, um argumento que tem sido colocado em xeque nos protestos \u00e9, exatamente, o da \u00abfalta de recursos\u00bb, a principal justificativa das administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para o desinteresse pelos transportes sobre trilhos. Afinal, como t\u00eam insistido muitos manifestantes, se os recursos p\u00fablicos para a constru\u00e7\u00e3o da infraestrutura para as competi\u00e7\u00f5es esportivas com as quais o Brasil se comprometeu, na casa das dezenas de bilh\u00f5es de reais, surgiram sem maiores problemas (parte deles, reconhe\u00e7a-se, para projetos vi\u00e1rios), n\u00e3o h\u00e1 justificativas muito convincentes para se negarem recursos espec\u00edficos para outros projetos de import\u00e2ncia vital para os grandes centros urbanos, n\u00e3o contemplados nos pacotes esportivos.<\/p>\n<p>No Rio, por exemplo, onde a reforma do Maracan\u00e3 j\u00e1 custou R$ 1,2 bilh\u00e3o e mais algumas centenas de milh\u00f5es de reais ainda ser\u00e3o gastos para prepar\u00e1-lo para os Jogos Ol\u00edmpicos de 2016, o governador S\u00e9rgio Cabral tem promovido mudan\u00e7as bastante controvertidas nos projetos de expans\u00e3o do metr\u00f4, com o tradicional pretexto dos altos custos dos projetos originais. Um caso exemplar \u00e9 o da Linha 3, projeto que vem sendo prometido e adiado indefinidamente desde a d\u00e9cada de 1990, cujo tra\u00e7ado original previa uma liga\u00e7\u00e3o entre Guaxindiba, distrito de S\u00e3o Gon\u00e7alo na divisa com Itabora\u00ed, e a Esta\u00e7\u00e3o Carioca da Linha 1, no Centro do Rio, sendo a travessia da Ba\u00eda da Guanabara feita atrav\u00e9s de um t\u00fanel duplo de 5,5 km de extens\u00e3o. Com esta configura\u00e7\u00e3o, seria poss\u00edvel fazer todo o trajeto em cerca de meia hora, reduzindo a um ter\u00e7o ou um quarto o tempo atualmente gasto por via rodovi\u00e1ria. Com uma capacidade prevista de 350 mil passageiros por dia, a linha representaria um enorme salto qualitativo para a circula\u00e7\u00e3o de pessoas, em um eixo que se tornar\u00e1 ainda mais cr\u00edtico ap\u00f3s a entrada em funcionamento do complexo petroqu\u00edmico de Itabora\u00ed, a partir de 2015.<\/p>\n<p>Alegando que apenas o t\u00fanel custaria cerca de R$ 1 bilh\u00e3o, Cabral, simplesmente, descartou o tra\u00e7ado original e anunciou que a linha dever\u00e1 ir apenas at\u00e9 Niter\u00f3i, deixando a travessia da ba\u00eda a cargo do sofr\u00edvel servi\u00e7o prestado pela empresa Barcas S.A. N\u00e3o obstante, a \u00abfalta de recursos\u00bb n\u00e3o tem sido obst\u00e1culo para que o governador, em seu segundo mandato, tenha investido em projetos de duvidosa utilidade, como os telef\u00e9ricos j\u00e1 implantados nos morros do Alem\u00e3o e da Provid\u00eancia, ao custo de R$ 300 milh\u00f5es, e o que pretende construir na Rocinha, que n\u00e3o dever\u00e1 sair por menos que isto.<\/p>\n<p>O car\u00e1ter de \u00abenfeite\u00bb de tais obras fica evidenciado pelo fato de que as popula\u00e7\u00f5es locais n\u00e3o terem sido devidamente consultadas para justific\u00e1-los. O telef\u00e9rico do Alem\u00e3o, com capacidade para 35 mil passageiros por dia, transporta apenas um ter\u00e7o disto, pelo simples fato de que a maioria da popula\u00e7\u00e3o tem medo de us\u00e1-lo. Na Rocinha, onde a pr\u00f3pria presidente Dilma Rousseff esteve, para anunciar obras do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o de Crescimento (PAC 2), no \u00faltimo dia 14 de junho, quando os protestos j\u00e1 haviam se iniciado, um simples lojista local, M\u00e1rcio Neves, sintetizou a percep\u00e7\u00e3o generalizada da comunidade (e da grande maioria dos especialistas), com uma observa\u00e7\u00e3o de uma lucidez que anda escassa entre as autoridades relevantes:<\/p>\n<blockquote><p>Na Rocinha, existem centenas de val\u00f5es com esgoto a c\u00e9u aberto. S\u00e3o muitos casos de crian\u00e7as que pegaram doen\u00e7as por brincar nesses val\u00f5es. Queremos que o PAC 2 traga melhorias de verdade, e n\u00e3o apenas uma maquiagem para os gringos. N\u00e3o adianta ter o telef\u00e9rico, que \u00e9 um enfeite, assim como foi no Complexo do Alem\u00e3o (UOL, 14\/06\/2013).<\/p><\/blockquote>\n<p>Ou seja, mesmo considerando que o governador fluminense tenha subestimado o custo do t\u00fanel submarino (uma estimativa mais precisa o colocaria na casa de R$ 1,5 bilh\u00e3o), ainda assim, o montante n\u00e3o superaria o de um Maracan\u00e3 e um telef\u00e9rico. Com isto, o custo total da Linha 3 ficaria na casa de R$ 2,5-3 bilh\u00f5es, ao alcance de qualquer parceria p\u00fablico-privada bem estabelecida, para a qual n\u00e3o faltariam recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES).<\/p>\n<p>A Linha 3 do metr\u00f4 carioca \u00e9 apenas um de uma pletora de maus exemplos de op\u00e7\u00f5es feitas pelos gestores p\u00fablicos nacionais, nas quais as necessidades reais da popula\u00e7\u00e3o ficam ref\u00e9ns dos interesses e das agendas de uma classe pol\u00edtica cada vez mais distanciada da sociedade. N\u00e3o admira, pois, que a paci\u00eancia desta \u00faltima com tais desmandos esteja esgotada, como mostram as manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Agora, por\u00e9m, \u00e9 preciso catalisar para pautas construtivas as motiva\u00e7\u00f5es despertadas pela onda de indigna\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o que eletriza o Pa\u00eds. Uma discuss\u00e3o s\u00e9ria sobre as urg\u00eancias da mobilidade urbana, envolvendo os mais diversos setores da sociedade, pode ser um excelente passo seguinte para isto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma das motiva\u00e7\u00f5es das impressionantes manifesta\u00e7\u00f5es que t\u00eam ocupado as ruas de um n\u00famero crescente de cidades brasileiras, nos \u00faltimos dias, \u00e9 o descontentamento generalizado com a infraestrutura de servi\u00e7os urbanos, em especial, a de transportes. 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