{"id":806,"date":"2013-12-13T17:22:17","date_gmt":"2013-12-13T17:22:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=806"},"modified":"2013-12-13T17:22:17","modified_gmt":"2013-12-13T17:22:17","slug":"nsa-quando-a-esperteza-come-o-esperto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/nsa-quando-a-esperteza-come-o-esperto\/","title":{"rendered":"NSA: quando a esperteza come o esperto"},"content":{"rendered":"<p>Um velho ditado nordestino sobre a esperteza, na acep\u00e7\u00e3o da palavra usada para qualificar a busca de vantagens a todo custo, afirma que, quando ela se torna excessiva, costuma virar bicho e comer o esperto. Tal situa\u00e7\u00e3o parece estar se manifestando em rela\u00e7\u00e3o aos desdobramentos das revela\u00e7\u00f5es do ex-analista de intelig\u00eancia Edward Snowden, sobre a extens\u00e3o da rede de espionagem eletr\u00f4nica encabe\u00e7ada pela Ag\u00eancia de Seguran\u00e7a Nacional (NSA) dos EUA, a\u00ed inclu\u00edda a coopera\u00e7\u00e3o das grandes empresas da internet estadunidenses. Al\u00e9m do desgaste pol\u00edtico para o governo de Washington, as pr\u00f3prias empresas se veem amea\u00e7adas por consider\u00e1veis preju\u00edzos, caso governos e empresas de pa\u00edses mais incomodados com o alcance da espionagem decidam transferir para empresas n\u00e3o-estadunidenses parte dos servi\u00e7os atualmente oferecidos por elas.<\/p>\n<p>Um estudo da Funda\u00e7\u00e3o de Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o em Informa\u00e7\u00e3o (ITIF), organiza\u00e7\u00e3o sediada em Washington e dedicada a \u00abformular e promover pol\u00edticas p\u00fablicas para o progresso das inova\u00e7\u00f5es e produtividades tecnol\u00f3gicas\u00bb, sugere que a indigna\u00e7\u00e3o internacional contra as atividades da NSA j\u00e1 est\u00e1 afetando os neg\u00f3cios das companhias de tecnologia de informa\u00e7\u00e3o estadunidenses e prejudicando os esfor\u00e7os de promo\u00e7\u00e3o da liberdade na internet.<\/p>\n<p>Segundo o estudo, os preju\u00edzos das empresas em neg\u00f3cios n\u00e3o realizados poder\u00e3o chegar a 35 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, at\u00e9 2016, por conta dos crescentes questionamentos \u00e0 seguran\u00e7a das informa\u00e7\u00f5es processadas em seus sistemas. \u00abOs preju\u00edzos potenciais s\u00e3o muito grandes, dado o n\u00edvel em que a nossa economia depende da economia das informa\u00e7\u00f5es para o seu crescimento. \u00c9 a\u00ed onde, cada vez mais, reside a vantagem dos EUA\u00bb, disse Rebecca MacKinnon, pesquisadora s\u00eanior da Funda\u00e7\u00e3o Nova Am\u00e9rica (New American Foundation), integrante do estudo (Bloomberg, 26\/11\/2013).<\/p>\n<p>A Cisco Systems, a maior fabricante mundial de equipamentos para redes de computadores, j\u00e1 admitiu que as revela\u00e7\u00f5es sobre a NSA est\u00e3o provocando \u00abalguma hesita\u00e7\u00e3o\u00bb entre os seus clientes dos mercados emergentes. Segundo o diretor de Desenvolvimento e Vendas da empresa, Robert Lloyd, \u00abn\u00e3o est\u00e1 tendo um impacto material, mas, certamente, est\u00e1 fazendo as pessoas pararem e repensar decis\u00f5es\u00bb.<\/p>\n<p>Seu colega da Google, Richard Salgado, diretor de Assuntos Legais e Seguran\u00e7a de Informa\u00e7\u00f5es, disse a um painel convocado pelo Senado estadunidense, que as revela\u00e7\u00f5es de Snowden t\u00eam \u00abum grande potencial para produzir s\u00e9rios danos \u00e0 competitividade\u00bb de empresas como a Apple, Facebook, Microsoft, Cupertino e outras. \u00abA confian\u00e7a que est\u00e1 amea\u00e7ada \u00e9 essencial para estes neg\u00f3cios\u00bb, afirmou.<\/p>\n<p>Segundo ele, as medidas que v\u00e1rios governos est\u00e3o considerando para se proteger da espionagem poder\u00e3o \u00ablimitar o livre fluxo de informa\u00e7\u00f5es\u00bb, o que \u00abpoderia ter severas consequ\u00eancias n\u00e3o intencionais, como uma redu\u00e7\u00e3o na seguran\u00e7a dos dados [sic], custos maiores, diminui\u00e7\u00e3o na competitividade e preju\u00edzos aos consumidores\u00bb.<\/p>\n<p>Referindo-se \u00e0 Alemanha, um dos pa\u00edses em que a resposta da popula\u00e7\u00e3o \u00e0s den\u00fancias foi das mais ruidosas, Tom Leighton, executivo-chefe da Akamai Technologies, empresa especializada em sistemas de acelera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado online para clientes corporativos, admite que dificilmente a empresa deixar\u00e1 de ser afetada: \u00ab\u00c9 claramente ruim para as companhias estadunidenses. \u00c9 particularmente ruim agora, na Alemanha, onde est\u00e1 sendo incitado um sentimento corporativo antiamericano. N\u00f3s, provavelmente, perderemos alguns neg\u00f3cios por l\u00e1.\u00bb<\/p>\n<p>E os problemas n\u00e3o dever\u00e3o ser exclusivos das empresas de informa\u00e7\u00e3o. Para o vice-presidente-executivo da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio dos EUA, Myron Brilliant, \u00abeste \u00e9 um assunto priorit\u00e1rio, n\u00e3o s\u00f3 para as companhias de tecnologia ou da internet, mas tamb\u00e9m para as pequenas e m\u00e9dias empresas\u00bb, em \u00e1reas como finan\u00e7as, manufaturas, cuidados de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, navega\u00e7\u00e3o \u00abe outras \u00e1reas n\u00e3o comumente consideradas empresas da internet\u00bb.<\/p>\n<p>De acordo com Brilliant, estudos mostram que os bens e servi\u00e7os baseados em fluxos de dados transfronteiri\u00e7os dever\u00e3o acrescentar anualmente cerca de 1 trilh\u00e3o de d\u00f3lares em valores, \u00e0 economia estadunidense, ao longo dos pr\u00f3ximos dez anos.<\/p>\n<p>Os preju\u00edzos mais evidentes dever\u00e3o atingir o setor de computa\u00e7\u00e3o em nuvem, as quais, segundo o estudo da ITIF, poder\u00e3o perder neg\u00f3cios em montante superior a 21 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, nos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos, se as empresas estadunidenses perderem apenas 10% da sua fatia do mercado para empresas europ\u00e9ias e asi\u00e1ticas (Press TV, 28\/11\/2013).<\/p>\n<p>Um exemplo da disposi\u00e7\u00e3o europeia de diminuir a influ\u00eancia determinante dos EUA na internet \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o do governo alem\u00e3o de instalar centros de roteamento nacionais, para evitar que o tr\u00e1fego de dados dentro do pa\u00eds tenha que passar por centros de distribui\u00e7\u00e3o estadunidenses, como ocorre hoje. Trata-se de um projeto dispendioso, mas, aparentemente, Berlim est\u00e1 disposta a bancar a conta. Como afirma o especialista russo Boris Kazantsev, em recente artigo, parece que os europeus est\u00e3o percebendo que a \u00absoberania digital\u00bb \u00e9 uma quest\u00e3o complexa, que n\u00e3o pode ser simplesmente delegada a algu\u00e9m, como a Europa faz com a seguran\u00e7a militar delegada \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) e, de fato, aos EUA. Segundo ele, esta percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 longe da experi\u00eancia da China, que se torna uma crescente refer\u00eancia para o resto do mundo (Strategic Culture Foundation, 17\/11\/2013).<\/p>\n<p>Kazantsev recorda que, em outubro \u00faltimo, o Parlamento Europeu aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o que denuncia o tratado de transfer\u00eancia de informa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias SWIFT, o qual proporciona aos estadunidenses um potencial acesso aos dados banc\u00e1rios de cidad\u00e3os europeus. No ano passado, por press\u00e3o dos EUA e a concord\u00e2ncia da Uni\u00e3o Europeia (UE), o Ir\u00e3 foi exclu\u00eddo do acesso ao sistema, como parte das san\u00e7\u00f5es impostas ao pa\u00eds com o objetivo de limitar o seu programa nuclear.<\/p>\n<p>O especialista conclui:<\/p>\n<blockquote><p>Hoje, todo o sistema de gerenciamento da Web se baseia na domina\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica dos EUA, o que solapa a maioria dos esfor\u00e7os dos outros pa\u00edses para proteger os interesses nacionais no ciberespa\u00e7o. A domina\u00e7\u00e3o total de companhias de TI [tecnologia de informa\u00e7\u00e3o &#8211; n.e.] estadunidenses, como a Google, Facebook ou Microsoft, que cooperam ativamente com a NSA e outras ag\u00eancias de intelig\u00eancia estadunidenses, tornam ainda mais ilus\u00f3ria a \u00absoberania digital\u00bb. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que a UE reconsidere toda a sua concep\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o da sociedade de informa\u00e7\u00f5es europeia, que, claramente, n\u00e3o preenche os modernos requisitos de seguran\u00e7a. O que ser\u00e1 o novo modelo ainda se desconhece, mas, aparentemente, ele abrir\u00e1 caminho para um afastamento consistente do liberalismo extremado, que se desacreditou com as condi\u00e7\u00f5es da guerra cibern\u00e9tica total que os EUA deflagraram contra o mundo inteiro.<\/p><\/blockquote>\n<p>A promiscuidade entre a NSA e suas antecessoras e as empresas de telecomunica\u00e7\u00f5es estadunidenses remonta ao per\u00edodo anterior \u00e0 II Guerra Mundial, tendo-se acentuado ap\u00f3s o conflito, com a cria\u00e7\u00e3o da NSA, em 1952. Hoje, as empresas de TI apenas mantiveram uma tradi\u00e7\u00e3o iniciada por companhias como a RCA, ITT, Western Union e outras. N\u00e3o obstante, desta vez, a rejei\u00e7\u00e3o mundial desencadeada pelas revela\u00e7\u00f5es da extens\u00e3o das atividades da NSA e sua rede poder\u00e1 fazer com que o bicho da esperteza acabe se voltando contra os espertos, atingindo-os onde mais costuma doer-lhes &#8211; nos balan\u00e7os das empresas que integram o sistema.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um velho ditado nordestino sobre a esperteza, na acep\u00e7\u00e3o da palavra usada para qualificar a busca de vantagens a todo custo, afirma que, quando ela se torna excessiva, costuma virar bicho e comer o esperto. 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