{"id":796,"date":"2013-12-13T17:09:39","date_gmt":"2013-12-13T17:09:39","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=796"},"modified":"2013-12-13T17:09:39","modified_gmt":"2013-12-13T17:09:39","slug":"verdade-e-reconciliacao-uma-licao-de-mandela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/verdade-e-reconciliacao-uma-licao-de-mandela\/","title":{"rendered":"Verdade e reconcilia\u00e7\u00e3o: uma li\u00e7\u00e3o de Mandela"},"content":{"rendered":"<p>Al\u00e9m do seu singular exemplo pessoal de supera\u00e7\u00e3o de adversidades, Nelson Mandela se fez merecedor de todas as homenagens recebidas, tanto em vida como na morte, no m\u00ednimo, por ter impedido que seu pa\u00eds mergulhasse numa sangrenta guerra civil, ap\u00f3s o fim do regime do\u00a0<em>apartheid<\/em>. Isto poderia ter ocorrido, facilmente, se ele tivesse optado pelo revanchismo contra os seus antigos algozes. Por isso, e apesar de os contextos hist\u00f3ricos terem sido completamente distintos, alguns brasileiros que o est\u00e3o homenageando deveriam atentar para esta pequena, mas decisiva, li\u00e7\u00e3o oferecida por ele.<\/p>\n<p>Ao assumir a presid\u00eancia da \u00c1frica do Sul, em 1994, Mandela teve muito trabalho para convencer alguns dos seus correligion\u00e1rios da lideran\u00e7a do Conselho Nacional Africano (CNA), de que a retalia\u00e7\u00e3o contra os mentores do <em>apartheid<\/em> n\u00e3o seria o melhor caminho para o pa\u00eds. \u00c1vidos de vingan\u00e7a pelas d\u00e9cadas de opress\u00e3o, eles pretendiam varrer do mapa quaisquer vest\u00edgios da domina\u00e7\u00e3o dos afric\u00e2neres, inclusive o hino nacional oficial,\u00a0<em>Die Stem van Suid-Afrika<\/em>\u00a0(O chamado da \u00c1frica do Sul, em afric\u00e2ner), e a equipe nacional de r\u00fagbi, esporte mais apreciado pelos brancos, o Springboks. Rejeitando ambas as propostas, Mandela determinou que o novo hino nacional seria constitu\u00eddo por uma jun\u00e7\u00e3o compactada do antigo hino com a can\u00e7\u00e3o s\u00edmbolo da luta antiapartheid, <em>Nkosi sikeleli Afrik<\/em>a\u00a0(Deus aben\u00e7oe a \u00c1frica, em xhosa). Quanto ao r\u00fagbi, empenhou-se para que o pa\u00eds sediasse a Copa do Mundo do esporte, em 1995, que acabou vencida pelo Springboks, epis\u00f3dio descrito no livro\u00a0<em>Conquistando o inimigo<\/em>, do jornalista ingl\u00eas John Carlin, que serviu como base para o roteiro do celebrado filme\u00a0<em>Invictus<\/em>, de 2009.<\/p>\n<p>Em 1995, foi constitu\u00edda a Comiss\u00e3o da Verdade e da Reconcilia\u00e7\u00e3o, com o objetivo de estabelecer crimes relacionados a viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, cometidos entre 1960 e 1994, prover repara\u00e7\u00f5es \u00e0s v\u00edtimas e\/ou seus familiares e, em certos casos, prover anistia aos perpetradores, desde que seus delitos tivessem sido cometidos por motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. A lideran\u00e7a da comiss\u00e3o foi entregue ao arcebispo Desmond Tutu, ele pr\u00f3prio um dos principais l\u00edderes da luta contra o <em>apartheid<\/em>, al\u00e9m de Pr\u00eamio Nobel da Paz de 1984. Nas palavras do ministro da Justi\u00e7a Dullah Omar (1994-2004), a comiss\u00e3o foi \u00abum exerc\u00edcio necess\u00e1rio para permitir que os sul-africanos confrontassem o seu passado sobre uma base moralmente aceita e para promover a causa da reconcilia\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>Evidentemente, a concess\u00e3o de anistias aos agentes do\u00a0<em>apartheid<\/em>, solicitadas por mais de 7 mil deles, gerou uma torrente de cr\u00edticas \u00e0 comiss\u00e3o, que avaliou mais de 22 mil casos de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, sendo cerca de 10 mil referentes a mortes. Por seu lado, Tutu justificou:<\/p>\n<blockquote><p>Perdoar n\u00e3o \u00e9 apenas ser altru\u00edsta. \u00c9 a melhor forma de interesse pr\u00f3prio. \u00c9 tamb\u00e9m um processo que n\u00e3o exclui o \u00f3dio e a raiva. Estas emo\u00e7\u00f5es s\u00e3o partes do ser humano. N\u00e3o se deve odiar a si pr\u00f3prio por odiar outros que fazem coisas terr\u00edveis: a profundidade do seu amor \u00e9 dada pela extens\u00e3o da sua raiva. Por\u00e9m, quando eu falo de perd\u00e3o, me refiro \u00e0 cren\u00e7a de que se pode sair do outro lado como uma pessoa melhor. Uma pessoa melhor do que uma que seja consumida pela raiva e o \u00f3dio. Permanecer neste estado a prende em um estado de v\u00edtima, tornando-a quase dependente do algoz. Se se puder perdoar, n\u00e3o se estar\u00e1 mais acorrentado ao algoz. Pode-se ir para adiante e se pode, at\u00e9 mesmo, ajudar tamb\u00e9m o algoz a se tornar uma pessoa melhor.<\/p><\/blockquote>\n<p>De um modo geral, o resultado dos trabalhos da comiss\u00e3o, publicado em 1998, foi considerado um passo positivo para a reconstru\u00e7\u00e3o nacional do pa\u00eds, embora tal percep\u00e7\u00e3o varie bastante entre os diferentes grupos \u00e9tnicos que integram a popula\u00e7\u00e3o sul-africana &#8211; evidentemente, entre os n\u00e3o-brancos, a propor\u00e7\u00e3o de aprova\u00e7\u00f5es \u00e9 inferior. Ainda assim, ela \u00e9 apontada como refer\u00eancia de supera\u00e7\u00e3o n\u00e3o beligerante dos dif\u00edceis obst\u00e1culos colocados no caminho de uma sociedade dilacerada por d\u00e9cadas de conflitos inter\u00e9tnicos, em favor de uma leg\u00edtima pacifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No Brasil, os integrantes das \u00abcomiss\u00f5es da verdade\u00bb estabelecidas para elucidar as viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos cometidas durante o regime militar (1964-1985) n\u00e3o conseguem ocultar a motiva\u00e7\u00e3o revanchista de tais iniciativas. Ao contr\u00e1rio da \u00c1frica do Sul, onde crimes cometidos por militantes antiapartheid tamb\u00e9m foram investigados, os crimes dos integrantes dos grupos armados que se levantaram contra o regime &#8211; muitos deles, delitos comuns &#8211; foram sumariamente exclu\u00eddos da pauta. E, mesmo com o Supremo Tribunal Federal (STF) j\u00e1 tendo estabelecido que a Lei da Anistia de 1979 tamb\u00e9m se aplica aos agentes do regime, muitos ainda insistem em levantar a bandeira das puni\u00e7\u00f5es pessoais a eles.<\/p>\n<p>Como afirmou anteriormente, neste s\u00edtio, o jornalista Lorenzo Carrasco (\u00abA Comiss\u00e3o da Verdade e o Conselho Mundial de Igrejas \u00ab):<\/p>\n<blockquote><p>Com semelhante agenda, as turbul\u00eancias geradas pelo trabalho da comiss\u00e3o poder\u00e3o superar por larga margem quaisquer aspectos positivos decorrentes dessa interpreta\u00e7\u00e3o peculiar dos direitos humanos, interpretados sob uma \u00f3tica ideol\u00f3gica estreita e desvinculados dos interesses maiores da harmonia nacional. Para buscar, realmente, uma verdade hist\u00f3rica vinculada ao bem comum da na\u00e7\u00e3o, uma Comiss\u00e3o da Verdade \u00e0 altura das responsabilidades impostas pelo momento hist\u00f3rico deveria ter como prop\u00f3sito final o estabelecimento de um principio de concilia\u00e7\u00e3o, que foi a motiva\u00e7\u00e3o da Lei da Anistia, que permitiu o retorno \u00e0 normalidade democr\u00e1tica do Pa\u00eds, ainda antes do t\u00e9rmino do regime militar. N\u00e3o se trata de um princ\u00edpio ut\u00f3pico, pois foi a motiva\u00e7\u00e3o das chamadas \u00abcl\u00e1usulas de perd\u00e3o\u00bb dos acordos de Westf\u00e1lia de 1648, que encerraram a Guerra dos Trinta Anos, que devastou a Europa Ocidental na primeira metade do s\u00e9culo XVII, em uma escala incomparavelmente mais sangrenta do que os conflitos do per\u00edodo abordado pela comiss\u00e3o. (&#8230;)<\/p>\n<p>A pergunta que cabe \u00e9: a quem interessa esse estado de coisas? A quem beneficia fomentar os ressentimentos internos e a desarmonia da sociedade brasileira, cujos anseios passam longe das inten\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o da Verdade, imposta por minorias ideol\u00f3gicas com forte apoio internacional? A quem beneficia que o Brasil n\u00e3o possa estar unido, civis e militares, em um novo projeto nacional voltado para o desenvolvimento pleno do Pa\u00eds e uma meta de garantia da dignidade de todos os cidad\u00e3os e fam\u00edlias brasileiros?<\/p><\/blockquote>\n<p>Em s\u00edntese: al\u00e9m de saudar o exemplo de Mandela, Tutu e seus companheiros de uma luta incomparavelmente mais longa e violenta que os confrontos brasileiros, os revanchistas dom\u00e9sticos deveriam se empenhar em segui-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m do seu singular exemplo pessoal de supera\u00e7\u00e3o de adversidades, Nelson Mandela se fez merecedor de todas as homenagens recebidas, tanto em vida como na morte, no m\u00ednimo, por ter impedido que seu pa\u00eds mergulhasse numa sangrenta guerra civil, ap\u00f3s o fim do regime do\u00a0apartheid. 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