{"id":781,"date":"2013-05-17T17:15:06","date_gmt":"2013-05-17T17:15:06","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=781"},"modified":"2013-05-17T17:15:06","modified_gmt":"2013-05-17T17:15:06","slug":"relembrando-chernobyl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/relembrando-chernobyl\/","title":{"rendered":"Relembrando Chernobyl"},"content":{"rendered":"<p align=\"LEFT\"><em>Leonam dos Santos Guimar\u00e3es*<\/em><\/p>\n<p align=\"LEFT\">O acidente no reator nuclear de Chernobyl, ocorrido em 26 de abril de 1986, foi o mais severo da ind\u00fastria de gera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica nuclear. O reator foi destru\u00eddo no acidente e uma quantidade consider\u00e1vel de material radioativo foi liberada para o meio ambiente. O acidente causou a morte, dentro de algumas semanas, de 30 trabalhadores e ferimentos de radia\u00e7\u00e3o a mais de uma centena de outros.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Em resposta, as autoridades evacuaram, em 1986, cerca de 115.000 pessoas de \u00e1reas em torno do reator e, posteriormente, cerca de 220 mil pessoas da Bielorr\u00fassia, da Federa\u00e7\u00e3o Russa e da Ucr\u00e2nia foram reassentadas.<br \/>\nO acidente provocou rupturas sociais e psicol\u00f3gicas graves nas vidas dessas pessoas afetadas e grandes perdas econ\u00f4micas em toda a regi\u00e3o. Grandes \u00e1reas dos tr\u00eas pa\u00edses foram contaminadas com materiais radioativos e pequenas quantidades de radionucl\u00eddeos foram detectadas em todos os pa\u00edses do Hemisf\u00e9rio Norte.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">\u00c0 \u00e9poca do acidente, especialistas previram at\u00e9 40.000 mortes por c\u00e2nceres decorrentes da radia\u00e7\u00e3o liberada para as regi\u00f5es afetadas. Recentemente o 27\u00ba anivers\u00e1rio do desastre foi lembrado, cabendo a quest\u00e3o: quantas pessoas realmente morreram devido \u00e0 radia\u00e7\u00e3o de Chernobyl at\u00e9 agora?<\/p>\n<p align=\"LEFT\">N\u00f3s provavelmente nunca saberemos exatamente. Isso se deve, em parte, ao fato que 40.000 mortes por c\u00e2ncer s\u00e3o menos de 1% da mortalidade por c\u00e2ncer esperada na popula\u00e7\u00e3o afetada, independentemente do acidente. Essas mortes s\u00e3o indetect\u00e1veis por estudos epidemiol\u00f3gicos. Mesmo que n\u00e3o fossem, a ci\u00eancia n\u00e3o poderia dizer se um tipo espec\u00edfico de c\u00e2ncer foi induzido pela radia\u00e7\u00e3o ou por qualquer outra causa.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Uma exce\u00e7\u00e3o \u00e9 o c\u00e2ncer de tireoide, doen\u00e7a muito rara em crian\u00e7as, cujo n\u00famero de casos disparou para quase 7.000 na Belarus, R\u00fassia e Ucr\u00e2nia desde o acidente at\u00e9 2005. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a radioatividade de Chernobyl foi causa desses casos de c\u00e2ncer, que levaram a cerca de uma dezena de mortes. Tamb\u00e9m sabemos que duas pessoas morreram no momento da explos\u00e3o do reator e mais de 100 pessoas, a maioria bombeiros que desconheciam os perigos a que estavam expostos, receberam doses altas o suficiente para causar a s\u00edndrome de radia\u00e7\u00e3o aguda. Destes, 29 morreram dentro de poucos meses ap\u00f3s o acidente, seguidos de mais 18 mortes ao longo dos anos, quase todos por leucemia.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Para al\u00e9m desses tristes casos, exacerbadas controv\u00e9rsias sobre o n\u00famero de mortes de Chernobyl persistem. O fato concreto \u00e9 que para a grande maioria das popula\u00e7\u00f5es mais afetadas, o desastre causou doses de radia\u00e7\u00e3o equivalentes a algumas tomografias computadorizadas. A n\u00edveis t\u00e3o baixos, os efeitos da radia\u00e7\u00e3o sobre a sa\u00fade, se ocorrerem, s\u00e3o em longo prazo e essencialmente aleat\u00f3rios.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Como o decaimento at\u00f4mico que gera a radia\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel de ser previsto para um \u00e1tomo individual, os efeitos da radia\u00e7\u00e3o sobre a sa\u00fade s\u00e3o tamb\u00e9m aleat\u00f3rios. Uma determinada pessoa que viveu na zona de afetada pode ou n\u00e3o possuir, por exemplo, um \u00e1tomo de c\u00e9sio-137 que est\u00e1 em sil\u00eancio imitando o pot\u00e1ssio em alguma c\u00e9lula do corpo. O \u00e1tomo pode ou n\u00e3o liberar radia\u00e7\u00e3o que venha atingir o DNA e transform\u00e1-lo de tal forma que possa levar ao c\u00e2ncer.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">As previs\u00f5es de mortalidade por c\u00e2ncer de Chernobyl s\u00e3o baseadas em f\u00f3rmulas derivadas de estudos de popula\u00e7\u00f5es japonesas sobreviventes das bombas de Hiroxima e Nagasaki, submetidas a doses muito mais elevadas. As f\u00f3rmulas tomam a quantidade total de radia\u00e7\u00e3o liberada pelo desastre de Chernobyl, distribuem-na como dose por toda a popula\u00e7\u00e3o afetada, e multiplicam esse valor por um fator de risco, extrapolado desses estudos, para chegar a um n\u00famero de mortes.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Os especialistas divergem nos fatores de risco utilizados, mas todas as f\u00f3rmulas assumem que os efeitos para a sa\u00fade em longo prazo, principalmente ocorr\u00eancia de leucemia, que \u00e9 o c\u00e2ncer mais comumente causado pela radia\u00e7\u00e3o, s\u00e3o diretamente proporcionais \u00e0 dose. Os especialistas tamb\u00e9m divergem quanto \u00e0 exist\u00eancia ou n\u00e3o de um limiar de dose m\u00ednima abaixo da qual n\u00e3o ocorrem mais efeitos e, em existindo, qual seria seu valor.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Os verdadeiros efeitos sobre a sa\u00fade da radia\u00e7\u00e3o a baixo n\u00edvel de dose n\u00e3o pode ser exatamente conhecido, porque qualquer estudo para identific\u00e1-los teria que incluir um n\u00famero incrivelmente grande de pessoas. Al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 claro que os efeitos da intensa exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 radia\u00e7\u00e3o imediatamente ap\u00f3s as explos\u00f5es de armas nucleares representem os mesmos perigos das baixas, mas cr\u00f4nicas, doses decorrentes de Chernobyl.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Existem in\u00fameras evid\u00eancias cient\u00edficas de que os mecanismos de repara\u00e7\u00e3o celular podem compensar as doses mais baixas de exposi\u00e7\u00e3o. Isso explica porque n\u00e3o foi detectado o aumento previsto para casos de leucemia nas popula\u00e7\u00f5es expostas \u00e0 nuvem radioativa de Chernobyl.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Dada todas as incertezas, as estimativas atuais do n\u00famero de mortes causadas por Chernobyl s\u00e3o muito diferentes das 40.000 inicialmente previstas. Em 2005, o Comit\u00ea Cient\u00edfico sobre Efeitos da Radia\u00e7\u00e3o At\u00f4mica da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNSCEAR) estimou a ocorr\u00eancia de 4.000 mortes, ainda considerando a hip\u00f3tese linear sem limiar para a rela\u00e7\u00e3o dose-efeito, mas atualizando os fatores de risco de acordo com os avan\u00e7os cient\u00edficos na \u00e1rea.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Tr\u00eas anos mais tarde, no seu relat\u00f3rio de 2008, o Comit\u00ea passou a adotar como limite m\u00ednimo a dose equivalente a quatro tomografias computadorizadas abdominais, devido a incertezas inaceit\u00e1veis para essa faixa de doses t\u00e3o baixa. Isso fez com que a previs\u00e3o de n\u00famero de mortes fosse ainda mais reduzida. Os cr\u00edticos, tais como o Greenpeace, responderam com novas previs\u00f5es de 93 mil mortes por c\u00e2ncer causadas por Chernobyl.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Na realidade, as diferen\u00e7as nos n\u00fameros decorrem das hip\u00f3teses de c\u00e1lculo adotadas para a rela\u00e7\u00e3o dose-efeito: o Comit\u00ea da ONU passou a adotar a hip\u00f3tese linear com limite m\u00ednimo, pois ap\u00f3s d\u00e9cadas de estudos, nunca se conseguiu encontrar evid\u00eancias cient\u00edficas de que existam realmente efeitos para doses muito baixas.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Os militantes antinucleares rejeitam esse fato e continuam fazendo c\u00e1lculos com a hip\u00f3tese de inexist\u00eancia de limite e fatores de risco superdimensionados, em que pesem as in\u00fameras evid\u00eancias contr\u00e1rias, demonstradas pela medicina nuclear e pelos estudos epidemiol\u00f3gicos, particularmente em regi\u00f5es com altos n\u00edveis de radia\u00e7\u00e3o natural, como \u00e9 o caso brasileiro das praias de areias monaz\u00edticas ao sul do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p align=\"LEFT\">Na verdade, trata-se da discuss\u00e3o de princ\u00edpios epistemol\u00f3gicos: a partir de que ponto a aus\u00eancia de evid\u00eancia pode ser assumida na pr\u00e1tica como evid\u00eancia de aus\u00eancia? Em outras palavras, pode-se provar cientificamente que algo existe, mas \u00e9 praticamente imposs\u00edvel provar que algo n\u00e3o existe. Enquanto isso, a discuss\u00e3o continua a se prestar aos mais variados vieses da subjetividade e dos interesses humanos.<\/p>\n<p><em>* Leonam dos Santos Guimar\u00e3es \u00e9 doutor em Engenharia, assessor da presid\u00eancia da Eletronuclear e membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor Geral da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (AIEA).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonam dos Santos Guimar\u00e3es* O acidente no reator nuclear de Chernobyl, ocorrido em 26 de abril de 1986, foi o mais severo da ind\u00fastria de gera\u00e7\u00e3o el\u00e9trica nuclear. O reator foi destru\u00eddo no acidente e uma quantidade consider\u00e1vel de material radioativo foi liberada para o meio ambiente. 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