{"id":75,"date":"2012-02-17T18:14:22","date_gmt":"2012-02-17T18:14:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.msia.org.br\/?p=75"},"modified":"2012-02-17T18:14:22","modified_gmt":"2012-02-17T18:14:22","slug":"europa-perdida-entre-ortodoxia-financeira-e-neoatlanticismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/europa-perdida-entre-ortodoxia-financeira-e-neoatlanticismo\/","title":{"rendered":"Europa perdida entre ortodoxia financeira e &quot;neoatlanticismo&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Inobstante as diatribes do premier brit\u00e2nico David Cameron, em sua pretens\u00e3o de ditar c\u00e1tedra sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mico-financeira mais adequada para a Europa, o fato inescap\u00e1vel \u00e9 que o Velho Continente se encontra desorientado quanto a uma resposta efetiva pr\u00f3pria \u00e0 crise global. Em termos econ\u00f4micos, os europeus n\u00e3o conseguem enxergar al\u00e9m da aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas ortodoxas de \u00abausteridade\u00bb, que tendem a agravar ainda mais a situa\u00e7\u00e3o produtiva e dos empregos, al\u00e9m de impor s\u00e9rias restri\u00e7\u00f5es \u00e0s soberanias nacionais, rejeitadas por parcelas crescentes das popula\u00e7\u00f5es de diversos pa\u00edses. No campo estrat\u00e9gico, o bloco europeu mostra uma enorme imped\u00e2ncia em se livrar do molde \u00abatlanticista\u00bb herdado da Guerra Fria, atrelando-se sem questionamentos de monta aos des\u00edgnios hegem\u00f4nicos do eixo Washington-Londres, como se viu na interven\u00e7\u00e3o militar na L\u00edbia e, agora, na campanha de press\u00f5es contra o Ir\u00e3 e a S\u00edria.<\/p>\n<p>Na segunda-feira 30 de janeiro, a Uni\u00e3o Europeia (UE) conseguiu o apoio de 25 dos seus 27 membros (as exce\u00e7\u00f5es foram o Reino Unido e a Rep\u00fablica Checa), para a implementa\u00e7\u00e3o de um pacto fiscal para a aplica\u00e7\u00e3o de uma estrita \u00abdisciplina or\u00e7ament\u00e1ria\u00bb aos pa\u00edses membros. Al\u00e9m de estabelecer limites r\u00edgidos para o endividamento dos governos nacionais, o acordo cria tamb\u00e9m um regime de puni\u00e7\u00f5es aos transgressores, que dever\u00e3o ser estabelecidas de acordo com percentuais dos seus produtos internos brutos. O acordo foi saudado como uma vit\u00f3ria pessoal para a chanceler alem\u00e3 Angela Merkel, que colocou todo o peso da locomotiva europeia na sua aprova\u00e7\u00e3o, mas a implementa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se dar\u00e1 sem percal\u00e7os, pois o acordo ainda precisa ser ratificado pelos respectivos parlamentos nacionais.<\/p>\n<p>\u00abO tratado \u00e9 todo sobre mais responsabilidade e melhor supervis\u00e3o. Cada pa\u00eds que o assinar se compromete a colocar um &#8216;freio de d\u00edvida&#8217; ou &#8216;regra de ouro&#8217; em sua pr\u00f3pria legisla\u00e7\u00e3o, em n\u00edvel constitucional ou equivalente. Novas regras de vota\u00e7\u00e3o e um mecanismo de corre\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica assegurar\u00e3o o [seu] cumprimento mais efetivamente\u00bb, disse o presidente do Conselho Europeu, Herman van Rompuy (AFP, 30\/01\/2012).<\/p>\n<p>Por sua vez, o presidente do Parlamento Europeu, o eurodeputado alem\u00e3o Martin Schulz (do Partido Social Democr\u00e1tico, de oposi\u00e7\u00e3o a Merkel) advertiu para a falha mais \u00f3bvia do acordo, que ignora totalmente o fomento \u00e0s atividades econ\u00f4micas: \u00abN\u00e3o \u00e9 preciso ser um professor de Economia para saber que, se voc\u00ea tem crescimento zero, voc\u00ea n\u00e3o vai ajeitar as coisas (Reuters, 30\/01\/2012).\u00bb<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, o candidato do Partido Socialista (PS) e favorito \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais de mar\u00e7o-abril, Fran\u00e7ois Hollande, j\u00e1 afirmou que, se eleito, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o implementar\u00e1 o acordo, como implementar\u00e1 a taxa sobre opera\u00e7\u00f5es financeiras proposta pelo presidente Nicolas Sarkozy, a qual, apesar do valor irris\u00f3rio de 0,1%, tem sido ferozmente combatida pelo setor financeiro e seus campe\u00f5es, como o premier Cameron. Mesmo na dif\u00edcil hip\u00f3tese de Sarkozy se reeleger, ainda assim, ficaria na depend\u00eancia do PS para conseguir aprovar o acordo.<\/p>\n<p>Na Irlanda, o partido majorit\u00e1rio Fianna Fail se uniu \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o na inten\u00e7\u00e3o de convocar um plebiscito para a vota\u00e7\u00e3o do acordo, a despeito da exist\u00eancia de dispositivos espec\u00edficos do texto para tentar contornar tal exig\u00eancia.<\/p>\n<p>As sensibilidades com as soberanias nacionais, que os eurocratas de Bruxelas e os l\u00edderes da UE n\u00e3o constumam levar em conta em suas considera\u00e7\u00f5es, se mostraram ostensivamente na canhestra tentativa feita por Merkel para impor um \u00abcomiss\u00e1rio financeiro\u00bb \u00e0 Gr\u00e9cia, para supervisionar pessoalmente o cumprimento das metas de austeridade impostas ao pa\u00eds pela \u00abtroika\u00bb Uni\u00e3o Europeia-Banco Central Europeu-Fundo Monet\u00e1rio Internacional. A forte e indignada rea\u00e7\u00e3o grega, tanto do Parlamento como da opini\u00e3o p\u00fablica, fez com que a chanceler alem\u00e3 (que muitos j\u00e1 chamam \u00abFrau Kommissar\u00bb, inclusive em seu pa\u00eds) recuasse momentaneamente, mas os termos do pacto fiscal contemplam a indica\u00e7\u00e3o de altos funcion\u00e1rios para tais fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o desemprego bate recordes no continente, atingindo os n\u00edveis mais altos desde a ado\u00e7\u00e3o do euro, em 1999. No final de 2011, havia 16,3 milh\u00f5es de pessoas desempregadas nos pa\u00edses da eurozona, o que equivale a 10,4% da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa (PEA) do bloco e quase toda a popula\u00e7\u00e3o da Holanda, ou \u00e0 soma das popula\u00e7\u00f5es de Portugal e Gr\u00e9cia (Euobserver.com, 1\u00ba.\/02\/2012).<\/p>\n<p>Para a UE como um todo, o n\u00famero de desempregados chega a 23,8 milh\u00f5es de pessoas, equivalente a 9,9% da PEA. A Espanha, com 22,9%, continua na lideran\u00e7a dessa deplor\u00e1vel tabela, seguida pela Irlanda (14,5%), Portugal (13,6%), Fran\u00e7a (9,9%) e It\u00e1lia (8,9%). Em todos, os n\u00fameros s\u00e3o bem maiores para a popula\u00e7\u00e3o jovem, com menos de 30 anos, sendo que, na Espanha, quase a metade desta faixa et\u00e1ria se encontra desempregada.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o continental poder\u00e1 agravar-se ainda mais, se o Ir\u00e3 cumprir a amea\u00e7a de suspender imediatamente os envios de petr\u00f3leo \u00e0 UE, devido ao embargo \u00e0s importa\u00e7\u00f5es iranianas adotado pelo bloco, a partir de julho pr\u00f3ximo. No domingo 29 de janeiro, o Parlamento iraniano adiou a vota\u00e7\u00e3o de uma proposta nesse sentido, que seria uma retalia\u00e7\u00e3o ao embargo europeu. Por\u00e9m, se a iniciativa progredir, as j\u00e1 abaladas economias europeias seriam bastante afetadas, uma vez que seu parque de refino \u00e9 ajustado ao petr\u00f3leo leve como o iraniano e n\u00e3o h\u00e1 muitas op\u00e7\u00f5es para a sua substitui\u00e7\u00e3o, o que poderia acabar levando os europeus a importar petr\u00f3leo iraniano por meio de intermedi\u00e1rios de outros pa\u00edses, a pre\u00e7os bem mais elevados.<\/p>\n<p>Tal imbr\u00f3glio se deve \u00e0 incapacidade europeia de deixar para tr\u00e1s a submiss\u00e3o estrat\u00e9gica aos EUA, o que a impede tamb\u00e9m de vislumbrar a perspectiva bem mais ampla de promover a integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do eixo eurasi\u00e1tico, por onde passa o caminho para a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, n\u00e3o apenas do bloco, mas de todo o planeta. O grande obst\u00e1culo para tanto \u00e9 que a Europa n\u00e3o disp\u00f5e ainda da consist\u00eancia vertebral necess\u00e1ria para dizer ao seu hist\u00f3rico aliado transatl\u00e2ntico que uma estrat\u00e9gia de colabora\u00e7\u00e3o com a Federa\u00e7\u00e3o Russa e as economias emergentes da \u00c1sia n\u00e3o implica, necessariamente, em uma troca, mas uma complementa\u00e7\u00e3o imprescind\u00edvel para a reconstru\u00e7\u00e3o da economia global.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inobstante as diatribes do premier brit\u00e2nico David Cameron, em sua pretens\u00e3o de ditar c\u00e1tedra sobre a pol\u00edtica econ\u00f4mico-financeira mais adequada para a Europa, o fato inescap\u00e1vel \u00e9 que o Velho Continente se encontra desorientado quanto a uma resposta efetiva pr\u00f3pria \u00e0 crise global. 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