{"id":731,"date":"2013-03-15T16:09:02","date_gmt":"2013-03-15T16:09:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=731"},"modified":"2013-03-15T16:09:02","modified_gmt":"2013-03-15T16:09:02","slug":"um-rio-de-pesadelo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/um-rio-de-pesadelo\/","title":{"rendered":"Um Rio de pesadelo"},"content":{"rendered":"<p><em>Este artigo foi originalmente publicado no s\u00edtio Fala Jo\u00e3o do Rio.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o foi por falta de aviso que o Rio de Janeiro se tornou virtualmente intransit\u00e1vel, pouco tempo depois dos Jogos Ol\u00edmpicos de 2016. J\u00e1 no in\u00edcio da d\u00e9cada, estudos da Funda\u00e7\u00e3o Dom Cabral e da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas mostravam que os cariocas estavam levando, em m\u00e9dia, mais de duas horas nos trajetos entre a casa e o trabalho e na volta para casa, em condi\u00e7\u00f5es que se aproximavam rapidamente do supl\u00edcio experimentado cotidianamente pelos paulistanos. Nem era preciso ser especialista em transportes ou urbaniza\u00e7\u00e3o para apontar as causas: as defici\u00eancias dos transportes coletivos, a pouca aten\u00e7\u00e3o dada aos transportes sobre trilhos e o n\u00famero rapidamente crescente de autom\u00f3veis nas ruas. Em 2012, o Detran carioca j\u00e1 emplacava mais de 400 ve\u00edculos novos por dia; era uma certeza aritm\u00e9tica: em algum momento, faltariam ruas para tantos deles.<\/p>\n<p>As solu\u00e7\u00f5es para o problema tamb\u00e9m eram conhecidas de todos: uma bem planejada expans\u00e3o do Metr\u00f4 e uma melhora substancial na efici\u00eancia da rede de trens da Supervia, transformando-a em uma esp\u00e9cie de metr\u00f4 de superf\u00edcie, com intervalos menores entre as composi\u00e7\u00f5es. Infelizmente, nada disto foi feito: mantendo uma antiga tradi\u00e7\u00e3o nacional de descaso com o bem comum, nenhum prefeito ou governador estadual, em d\u00e9cadas, deu import\u00e2ncia a esses diagn\u00f3sticos, e alguns ainda teimaram em levar adiante algumas iniciativas desastrosas, quase sempre, paliativos mais convenientes para os interesses dos seus grupos pol\u00edticos do que para os da popula\u00e7\u00e3o em geral. Na verdade, s\u00f3 come\u00e7aram a se mexer quando a situa\u00e7\u00e3o se tornou cr\u00edtica.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o do Metr\u00f4 patrocinada pelo governador S\u00e9rgio Cabral (2007-2014) foi um desastre anunciado. Um especialista ap\u00f3s outro apontou os problemas do absurdo prolongamento da Linha 1 para a Barra da Tijuca (rapidamente apelidado \u201cPuxadinho\u201d pela popula\u00e7\u00e3o), tendo-se abandonado o projeto original da Linha 4, que previa uma linha espec\u00edfica a partir da Esta\u00e7\u00e3o Carioca, passando pela Gl\u00f3ria, Laranjeiras, Humait\u00e1, G\u00e1vea e S\u00e3o Conrado. Quando a linha foi inaugurada, pouco antes das Olimp\u00edadas, o resultado foi o esperado: no rush da manh\u00e3, os trens j\u00e1 sa\u00edam lotados da Barra e ningu\u00e9m mais conseguia entrar neles, de Ipanema em diante; ao final da tarde, no trajeto inverso, o mesmo ocorria a partir de Botafogo. As consequ\u00eancias n\u00e3o se fizeram esperar: tumultos nas esta\u00e7\u00f5es e, logo, uma s\u00e9rie de protestos dos usu\u00e1rios. Um deles resultou, pela primeira vez na hist\u00f3ria do Metr\u00f4, num quebra-quebra como os que costumavam acontecer na rede ferrovi\u00e1ria. Saldo: Esta\u00e7\u00e3o Botafogo devastada, dezenas de feridos (alguns gravemente) e uma onda de indigna\u00e7\u00e3o na cidade. A \u201csolu\u00e7\u00e3o\u201d emergencial adotada pelo Metr\u00f4, colocando trens vazios para refor\u00e7ar o atendimento no trecho cr\u00edtico entre as esta\u00e7\u00f5es Central e General Os\u00f3rio, se mostrou apenas um paliativo, que n\u00e3o solucionou o problema (como n\u00e3o poderia, at\u00e9 porque obrigava a uma retirada de trens da circula\u00e7\u00e3o normal, descal\u00e7ando um santo para cal\u00e7ar outro) e n\u00e3o evitou novos protestos, que se tornaram t\u00e3o frequentes como os que, nas d\u00e9cadas de 1990 e 2000, davam uma m\u00e1 fama \u00e0 Supervia.<\/p>\n<p>A Linha 3 foi outro erro grave. O projeto original previa uma liga\u00e7\u00e3o direta entre Guaxindiba, em S\u00e3o Gon\u00e7alo, divisa com Itabora\u00ed, e a Esta\u00e7\u00e3o Carioca (Linha 1), com a travessia da Ba\u00eda de Guanabara sendo feita atrav\u00e9s de um t\u00fanel submarino de 5,5 km. Com este tra\u00e7ado, a circula\u00e7\u00e3o de pessoas no eixo Itabora\u00ed-S\u00e3o Gon\u00e7alo-Niter\u00f3i-Rio poderia ter um enorme ganho de mobilidade, que permitiria que o trajeto entre Alc\u00e2ntara e o Centro do Rio, por exemplo, fosse feito em menos de meia hora, um ter\u00e7o do tempo gasto em vans, \u00f4nibus ou autom\u00f3veis. Em vez dele, o governo Cabral, alegando o habitual pretexto da falta de recursos, optou por levar a linha apenas at\u00e9 Niter\u00f3i, deixando a travessia da ba\u00eda por conta do sofr\u00edvel servi\u00e7o da Barcas S.A. Marcado por sucessivas den\u00fancias de superfaturamento pelo Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU), por envolver recursos federais, o projeto da Linha 3 ainda teve a sua conclus\u00e3o atrasada por grosseiras neglig\u00eancias, como um desn\u00edvel excessivo entre o assoalho dos trens e o piso das esta\u00e7\u00f5es, em uma inconceb\u00edvel repeti\u00e7\u00e3o de problemas semelhantes ocorridos com os trens chineses comprados para a Supervia e o Metr\u00f4, no in\u00edcio da d\u00e9cada. Para piorar as coisas, a Esta\u00e7\u00e3o Ararib\u00f3ia, em Niter\u00f3i, foi constru\u00edda muito pr\u00f3xima do terminal hidrovi\u00e1rio, ou seja, perto do mar, inviabilizando uma futura constru\u00e7\u00e3o do t\u00fanel, por algum governo menos inclinado aos \u201cneg\u00f3cios como sempre\u201d e mais comprometido com os interesses da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sem surpresa, a \u201cfalta de recursos\u201d n\u00e3o impediu que Cabral &amp; cia. se empenhassem em implementar dispendiosos e sup\u00e9rfluos projetos-enfeites, como os telef\u00e9ricos constru\u00eddos nos morros do Alem\u00e3o, Provid\u00eancia e Rocinha, que custaram centenas de milh\u00f5es de reais e ficaram grandemente subutilizados. Como a maioria das popula\u00e7\u00f5es locais, mesmo tendo direito a dois bilhetes gratuitos por dia, nunca superou o medo de usar um meio de transporte t\u00e3o ex\u00f3tico e alheio \u00e0 sua realidade, os car\u00edssimos e sofisticados engenhos, cuja opera\u00e7\u00e3o foi entregue \u00e0 iniciativa privada, acabaram tendo que ser subsidiados pelo estado, depois que as concession\u00e1rias amea\u00e7aram abandon\u00e1-los.<\/p>\n<p>Os subs\u00eddios tamb\u00e9m n\u00e3o ajudaram a melhorar o servi\u00e7o da Barcas S.A., que, mesmo com os catamar\u00e3s novos comprados pelo estado, continuou deixando muito a desejar, principalmente, com o grande n\u00famero de pessoas que passou a usar a combina\u00e7\u00e3o trem-barca, ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o da linha e do complexo petroqu\u00edmico de Itabora\u00ed, o Comperj. Outra defici\u00eancia do servi\u00e7o era a absurda recusa de operar o servi\u00e7o durante as madrugadas, como ocorria antes, alegando a baixa demanda de passageiros \u2013 que nem o governo estadual nem a ag\u00eancia fiscalizadora (Agetransp) se empenhavam em corrigir. Assim como no Metr\u00f4, a insatisfa\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios desandou em protestos violentos.<\/p>\n<p>Como em S\u00e3o Paulo, os engarrafamentos cont\u00ednuos durante quase todo o per\u00edodo diurno passaram a integrar a rotina dos cariocas, com os telejornais noticiando diariamente as quilometragens dos congestionamentos, quase sempre na casa das dezenas de quil\u00f4metros e, com desagrad\u00e1vel frequ\u00eancia, ultrapassando a marca dos 100 km.<\/p>\n<p>A calamitosa obsess\u00e3o do prefeito Eduardo Paes (2009-2016) para demolir o elevado da Perimetral deu uma enorme contribui\u00e7\u00e3o para isso, pois grande parte do tr\u00e1fego que vinha da Avenida Brasil passou a confluir para a j\u00e1 congestionada Avenida Presidente Vargas, com os resultados previs\u00edveis.<\/p>\n<p>Nos grandes eventos internacionais ocorridos na cidade, durante esse per\u00edodo, o tradicional jeitinho nacional entrou em cena e, de um jeito ou de outro \u2013 e com uma boa dose de sorte \u2013, conseguiram-se evitar problemas que poderiam ter resultado em colossais vexames internacionais. Na confer\u00eancia Rio+20, em 2012, a Prefeitura declarou tr\u00eas dias de ponto facultativo e feriados escolares para a rede p\u00fablica, para facilitar o deslocamento das autoridades mundiais que vieram ao encontro. O mesmo foi feito na Jornada Mundial da Juventude, em 2013, quando quase um milh\u00e3o de jovens de todo o mundo veio ver o Papa \u2013 o que n\u00e3o impediu alguns congestionamentos maiores, em v\u00e1rios cantos da cidade, embora nada anormal. Na Copa de 2014, os problemas tamb\u00e9m foram limitados, ajudados pelos fatos de que apenas sele\u00e7\u00f5es estrangeiras jogaram no Rio e de o Brasil nem ter chegado perto da grande final, no Maracan\u00e3. Dois anos depois, nas Olimp\u00edadas, houve alguns problemas, mas nada de assustador, at\u00e9 porque, como muitos londrinos haviam feito durante os Jogos de 2012, um grande n\u00famero de cariocas optou por tirar f\u00e9rias e deixar a cidade para os visitantes.<\/p>\n<p>O primeiro sinal mais s\u00e9rio de que a situa\u00e7\u00e3o se encaminhava para um limite veio no Carnaval de 2017. Na sexta-feira (na \u00e9poca, j\u00e1 incorporada aos festejos momescos), o Rio experimentou um megaengarrafamento sem precedentes, que, literalmente, paralisou a cidade e se estendeu \u00e0s cidades vizinhas. Ao longo de todo aquele dia tenebroso, acossados pelo forte calor, aterrorizados por bandidos que se mobilizaram prontamente para aproveitar a oportunidade, frustrados e irados com a impot\u00eancia das autoridades de tr\u00e2nsito e policiais, para desfazer o n\u00f3 colossal e combater os criminosos, milhares de motoristas, simplesmente, abandonaram os seus ve\u00edculos nas ruas, criando um cen\u00e1rio de caos at\u00e9 ent\u00e3o inimagin\u00e1vel \u2013 tudo isto, com a cidade repleta de turistas. Apenas na tarde de s\u00e1bado a situa\u00e7\u00e3o se normalizou, mas o choque causado e as repercuss\u00f5es foram t\u00e3o grandes que obrigaram ao cancelamento de boa parte dos eventos programados para o Carnaval; at\u00e9 os desfiles das escolas de samba tiveram que ser adiados por 24 horas, terminando apenas na manh\u00e3 da Quarta-Feira de Cinzas. Tudo o que bastou para deflagrar esse quadro apocal\u00edptico foram duas colis\u00f5es na Ponte Rio-Niter\u00f3i, um caminh\u00e3o tombado na Avenida Brasil e um carro incendiado num acesso ao T\u00fanel Rebou\u00e7as.<\/p>\n<p>Em 1\u00ba. de novembro do mesmo ano, uma quarta-feira, v\u00e9spera do feriad\u00e3o de Finados, outro megaengarrafamento quase igual ao anterior ocorreu, sem que nenhum acidente importante tenha sido registrado \u2013 simplesmente, havia muitos autom\u00f3veis, \u00f4nibus, vans e caminh\u00f5es trafegando ao mesmo tempo. Desta vez, pelo menos, a Pol\u00edcia Militar e a Guarda Municipal, escaldadas pelo incidente anterior, conseguiram evitar boa parte das inevit\u00e1veis investidas oportunistas dos bandidos de plant\u00e3o, fazendo uso de patrulhas em motocicletas pr\u00e9-posicionadas em locais estrat\u00e9gicos e orientadas pelos drones (aeronaves n\u00e3o tripuladas) de vigil\u00e2ncia que, j\u00e1 ent\u00e3o, integravam o arsenal das for\u00e7as policiais cariocas. Ainda assim, o tr\u00e1fego s\u00f3 voltou a fluir na manh\u00e3 da quinta-feira. Mas os cemit\u00e9rios ficaram \u00e0s moscas, pois os cariocas, ressabiados e furiosos, preferiram ficar em casa.<\/p>\n<p>A essa altura, era evidente que o Rio caminhava rapidamente para a disfuncionalidade e que algo realmente s\u00e9rio precisava ser feito para reverter este quadro. Empresas importantes j\u00e1 come\u00e7avam a deixar a cidade e outras amea\u00e7avam imit\u00e1-las; as autoridades praticamente n\u00e3o podiam aparecer em p\u00fablico, sob risco de serem vaiadas ou interpeladas com veem\u00eancia (como diz o ditado, quando os de cima perdem a vergonha, os de baixo perdem o respeito); os preju\u00edzos, em horas de trabalho perdidas, problemas de sa\u00fade, neg\u00f3cios prejudicados ou n\u00e3o realizados e outras consequ\u00eancias diretas dos congestionamentos, eram estimados em muitas dezenas de bilh\u00f5es de reais por ano \u2013 conta que a realidade dos fatos obrigou, finalmente, as autoridades e os pol\u00edticos a come\u00e7arem a fazer.<\/p>\n<p>S\u00f3 ent\u00e3o, as lideran\u00e7as pol\u00edticas come\u00e7aram a dar a devida aten\u00e7\u00e3o aos esfor\u00e7os que, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, entidades representativas de todos os setores da sociedade &#8211; Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias, Associa\u00e7\u00e3o Comercial, Clube dos Diretores Lojistas, Clube de Engenharia, Instituto dos Arquitetos do Brasil, CREA, universidades, associa\u00e7\u00f5es de bairros e outras \u2013 vinham fazendo para discutir as solu\u00e7\u00f5es para a crise. Com um decidido apoio da m\u00eddia, reuni\u00f5es, debates e at\u00e9 mesmo consultas populares foram realizados, em um esfor\u00e7o para buscar, tanto paliativos como solu\u00e7\u00f5es definitivas, para o caos vi\u00e1rio que amea\u00e7ava a cidade. At\u00e9 mesmo a poderosa e intransigente Fetranspor, a entidade que representava as empresas de \u00f4nibus e era popularmente apontada como um dos principais obst\u00e1culos \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o de novos meios de transporte, se viu for\u00e7ada a admitir que alguma coisa precisava ser feita (quanto mais n\u00e3o fosse, porque os seus \u00f4nibus eram os mais prejudicados com os congestionamentos).<\/p>\n<p>Infelizmente, essa mobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o impediu a terceira e mais pavorosa imobiliza\u00e7\u00e3o da cidade, em uma quarta-feira comum de maio de 2018, afastada de qualquer feriado ou evento especial. Assim como na vez anterior, o excesso de ve\u00edculos foi a \u00fanica causa do gigaengarrafamento (mega \u00e9 pouco para definir o que houve) que deixou mais de dois milh\u00f5es de ve\u00edculos parados nas ruas do Rio, Niter\u00f3i, S\u00e3o Gon\u00e7alo, Duque de Caxias, Nova Igua\u00e7u, Belford Roxo e nas rodovias de acesso a estas cidades \u2013 durante mais de tr\u00eas dias! O caos e o p\u00e2nico da popula\u00e7\u00e3o foram de tal ordem que a Prefeitura e o governo estadual se viram obrigados \u2013 sem hesitar muito \u2013 a solicitar o apoio das For\u00e7as Armadas e da For\u00e7a Nacional de Seguran\u00e7a, para tentar evitar que a anarquia total se instaurasse. Ainda assim, foi preciso decretar o toque de recolher (que durou uma semana) e as for\u00e7as policiais e militares tiveram apenas um sucesso limitado na conten\u00e7\u00e3o dos tumultos e a\u00e7\u00f5es criminosas. Os resultados foram assombrosos: dezenas de mortes, centenas de pessoas feridas, milhares de ve\u00edculos destru\u00eddos ou danificados, preju\u00edzos na casa do bilh\u00e3o de reais e milh\u00f5es de pessoas traumatizadas. Sem falar na mancha de dif\u00edcil limpeza na imagem internacional da cidade s\u00edmbolo do Brasil, com os inevit\u00e1veis reflexos negativos no afluxo de turistas.<\/p>\n<p>Pode parecer chav\u00e3o, mas lembro de cada hora daqueles dias terr\u00edveis, como se os fatos tivessem ocorrido hoje pela manh\u00e3. Naquela quarta-feira fat\u00eddica, como j\u00e1 fazia h\u00e1 alguns anos (juntamente com um n\u00famero crescente de cariocas), eu me dirigia a p\u00e9 ao meu escrit\u00f3rio, na Cinel\u00e2ndia, um trajeto de sete quil\u00f4metros e meio, que costumava fazer em cerca de uma hora e vinte minutos. Metr\u00f4 ou \u00f4nibus, apenas em dias chuvosos, assim mesmo, se a chuva fosse muito intensa, pois a superlota\u00e7\u00e3o e a demora \u00e0 espera de um trem ou coletivo no qual se pudesse, pelo menos, embarcar, n\u00e3o compensavam a pouca vantagem de tempo sobre o trajeto a p\u00e9. A caminho do Centro, reparei que o congestionamento estava pior que o habitual, se \u00e9 que isto era poss\u00edvel: o tr\u00e1fego, simplesmente, n\u00e3o flu\u00eda, como j\u00e1 manifestavam alguns motoristas mais irritados, que protestavam fora dos ve\u00edculos. Na Avenida Chile, apareceram drones e helic\u00f3pteros da PM e da Pol\u00edcia Civil, em voo baixo e dando voltas pelos arredores, enquanto um grande n\u00famero de transeuntes vinha no sentido contr\u00e1rio, o que era inusitado, naquela hora em que a grande maioria deveria estar se dirigindo ao Centro. J\u00e1 suspeitando do que se tratava, troquei a sintonia da R\u00e1dio MEC, minha companheira habitual dos percursos, no hyperphone, por uma esta\u00e7\u00e3o de not\u00edcias. N\u00e3o deu outra: a r\u00e1dio, que tinha dois helic\u00f3pteros sobrevoando a cidade, j\u00e1 informava sobre o tr\u00e1fego paralisado \u2013 aparentemente, em toda parte! Imediatamente, tentei chamar o auxiliar administrativo do escrit\u00f3rio, que vinha de Niter\u00f3i, para, em seguida, ligar ao amigo com quem trabalhava, alertando-os para o problema e informando que voltaria para casa. N\u00e3o havia sinal de linha \u2013 todo mundo estava tentando fazer a mesma coisa. Sem pensar duas vezes, dei meia volta. Ao longo do trajeto, o tr\u00e2nsito completamente imobilizado, passageiros descendo de \u00f4nibus e t\u00e1xis, motoristas fora dos autom\u00f3veis, cada vez mais irritados \u2013 e assustados \u2013 e os zumbidos cada vez mais frequentes dos drones e helic\u00f3pteros, eram sinais claros de que o caos estava a caminho.<\/p>\n<p>Apertei o passo, mas, ao aproximar-me do Est\u00e1cio, a situa\u00e7\u00e3o se complicou. Ouvi gritos e estampidos do que pareciam ser armas de fogo, enquanto motoristas e passageiros em p\u00e2nico deixavam os ve\u00edculos e helic\u00f3pteros passavam em voos rasantes. De repente, um grupo de homens armados, disparando para o alto, se aproximou rapidamente, descendo a Avenida Salvador de S\u00e1, enquanto um helic\u00f3ptero da PM vinha em sua persegui\u00e7\u00e3o. Aproveitando-se dos escudos humanos proporcionados pelos transeuntes e passageiros em p\u00e2nico, os homens come\u00e7aram a atirar na aeronave, cujos atiradores n\u00e3o podiam revidar. V\u00e1rios disparos atingiram o helic\u00f3ptero, que oscilou por alguns segundos e girou no ar, enquanto chamas come\u00e7aram a sair da turbina e o piloto tentava, desesperadamente, manter o controle do aparelho, para fazer um pouso for\u00e7ado em algum local mais ou menos livre de obst\u00e1culos. N\u00e3o deu tempo. Paralisado de terror, presenciei a queda da aeronave sobre um grupo de autom\u00f3veis, provocando uma violenta explos\u00e3o de chamas alaranjadas e com um estampido ensurdecedor.<\/p>\n<p>Naquele momento \u2013 acordei, com o cora\u00e7\u00e3o aos pulos. Ufa! Fora apenas um pesadelo \u2013 mas que pesadelo!<\/p>\n<p>Molhado de suor, fui tomar banho, pois j\u00e1 estava mesmo pr\u00f3ximo \u00e0 minha hora habitual de despertar. Ap\u00f3s o caf\u00e9 da manh\u00e3, junto com a tradicional leitura do jornal, dirigi-me \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o Afonso Pena, para pegar o Metr\u00f4 at\u00e9 o Centro. Na plataforma, havia um grande n\u00famero de pessoas \u2013 muito irritadas \u2013, um indicativo de que os trens estavam vindo lotados j\u00e1 da Esta\u00e7\u00e3o Saenz Pe\u00f1a e que era quase imposs\u00edvel embarcar neles. Belisquei-me, para certificar-me de que estava acordado. N\u00e3o estava mais sonhando \u2013 era apenas a rotina de um carioca a caminho do trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este artigo foi originalmente publicado no s\u00edtio Fala Jo\u00e3o do Rio. N\u00e3o foi por falta de aviso que o Rio de Janeiro se tornou virtualmente intransit\u00e1vel, pouco tempo depois dos Jogos Ol\u00edmpicos de 2016. 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