{"id":712,"date":"2013-03-08T16:10:02","date_gmt":"2013-03-08T16:10:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.alerta.inf.br\/?p=712"},"modified":"2013-03-08T16:10:02","modified_gmt":"2013-03-08T16:10:02","slug":"o-programa-nuclear-e-o-futuro-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/o-programa-nuclear-e-o-futuro-do-brasil\/","title":{"rendered":"O programa nuclear e o futuro do Brasil"},"content":{"rendered":"<p align=\"left\">O Brasil, considerando apenas a \u00e1rea at\u00e9 aqui prospectada, \u00e9 o sexto pa\u00eds em reservas de ur\u00e2nio em todo o mundo. Esta reserva \u00e9 suficiente para manter em funcionamento as atuais usinas Angra I e Angra II, e a futura Angra III e mais quatro novas usinas de 1000 MW cada, por cerca de 100 anos. N\u00e3o \u00e9 para ser desconsiderado, portanto.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas possuir reservas minerais n\u00e3o \u00e9 tudo, embora o Brasil esteja se descuidando de suas terras raras. Para ser utilizado, e para ter valor comercial, o ur\u00e2nio precisa ser transformado industrialmente em combust\u00edvel nuclear, processo que compreende algumas etapas, entre elas o enriquecimento, com enorme valor agregado, inumer\u00e1veis fases de tratamento e o acesso a segredos tecnol\u00f3gicos guardados a cinco chaves pelos pa\u00edses que dominam essa tecnologia.<\/p>\n<p align=\"left\">\u00c9 o que se descreve a seguir.<\/p>\n<p align=\"left\">Inicialmente, o min\u00e9rio bruto \u00e9 processado de maneira a extrair a maior quantidade poss\u00edvel do ur\u00e2nio nele contido. Isso gera um material s\u00f3lido chamado\u00a0<em>yellow cake<\/em>, ou concentrado de ur\u00e2nio. Antes do enriquecimento propriamente dito, o\u00a0<em>yellow cake<\/em>\u00a0puro deve ser transformado em g\u00e1s. Nas usinas de enriquecimento esse g\u00e1s \u00e9 processado para aumentar a propor\u00e7\u00e3o de ur\u00e2nio-235, o ur\u00e2nio f\u00edssil, respons\u00e1vel, quando fissionado, pela gera\u00e7\u00e3o de energia no g\u00e1s. Em seguida ele \u00e9 reconvertido para a fase s\u00f3lida, constituindo-se num p\u00f3, que \u00e9 compactado em pastilhas (<em>pellets<\/em>) e acondicionado em varetas que comp\u00f5em o chamado elemento combust\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"left\">Precisamos de ur\u00e2nio enriquecido para alimentar Angra I e II e Angra III, e, se o pa\u00eds tiver ju\u00edzo, as demais usinas projetadas, projetadas, projetadas e de execu\u00e7\u00e3o adiada. Qual o procedimento atual? Produzimos o<em>\u00a0yellow cake<\/em>\u00a0e o remetemos para processadores no exterior para transforma\u00e7\u00e3o em g\u00e1s enriquecido, retornando ao pa\u00eds para ser reconvertido, produzidas as pastilhas e acondicionadas nos elementos combust\u00edveis.<\/p>\n<p align=\"left\">Hoje, ap\u00f3s anos de investimentos em pesquisa e equipamentos, e enfrentando a sabotagem das grandes pot\u00eancias nucleares, EUA \u00e0 frente, como sempre, j\u00e1 dominamos a tecnologia para enriquecimento isot\u00f3pico do ur\u00e2nio, desenvolvida pela Marinha (CTMSP) em colabora\u00e7\u00e3o com o Instituto de Pesquisas Energ\u00e9ticas e Nucleares (IPEN), e brevemente estaremos produzindo nosso combust\u00edvel, na f\u00e1brica da Ind\u00fastrias Nucleares do Brasil (INB). A tecnologia n\u00e3o \u00e9 pioneira, mas nossas centr\u00edfugas, principal equipamento da planta, apresentam importantes conquistas que as tornam mais eficientes que as atualmente em uso em todo o mundo. E motivo de cobi\u00e7a.<\/p>\n<p align=\"left\">O dom\u00ednio dessa tecnologia decorre de decis\u00f5es pol\u00edticas cruciais de v\u00e1rios governos e da persist\u00eancia de pesquisadores e militares devotados. Dele tanto resulta o ac\u00famulo de pesquisas, como determina igualmente novos avan\u00e7os cient\u00edficos e tecnol\u00f3gicos, os quais estar\u00e3o refletidos em novas conquistas; al\u00e9m da conclus\u00e3o do ciclo nuclear, disporemos de maior seguran\u00e7a no fornecimento do combust\u00edvel, economia de custos e de divisas e, de futuro, a possibilidade de fornecermos ur\u00e2nio enriquecido para clientes no exterior. O ganho econ\u00f4mico pode ser medido pela diferen\u00e7a de pre\u00e7o, no mercado internacional, entre o min\u00e9rio bruto e o elemento combust\u00edvel.<\/p>\n<p align=\"left\">Uma vez mais se coloca para o pa\u00eds optar entre permanecer como mero fornecedor de mat\u00e9ria-prima in natura, ou transformar-se em exportador de conhecimento, rejeitar como destino a condi\u00e7\u00e3o dependente, optando pela emancipa\u00e7\u00e3o nacional como base de seu futuro. E n\u00e3o h\u00e1 futuro nem independ\u00eancia se renunciarmos ao desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico. N\u00e3o se veja nessa pol\u00edtica a revis\u00e3o do velho projeto do Brasil-pot\u00eancia, nem eivos de um militarismo arcaico. Trata-se, simplesmente, de optar entre independ\u00eancia e depend\u00eancia e caminhar no sentido contr\u00e1rio das pol\u00edticas do neoliberalismo.<\/p>\n<p align=\"left\">Nossa tecnologia, voltada para os usos pac\u00edficos da energia nuclear, nada tem a ver com a produ\u00e7\u00e3o de bombas, que requer ur\u00e2nio enriquecido a mais de 90% em seu is\u00f3topo 235, enquanto a planta de enriquecimento isot\u00f3pico da INB em Rezende foi projetada para a produ\u00e7\u00e3o de enriquecimento at\u00e9 5%, destinando-se, portanto, exclusivamente, para uso na fabrica\u00e7\u00e3o de elementos combust\u00edveis dos reatores de pot\u00eancia do sistema Angra e em alguns tipos de reatores para propuls\u00e3o naval, como do nosso futuro submarino.<\/p>\n<p align=\"left\">Portanto, nosso pa\u00eds nada tem que esconder. E jamais escondeu. Precisa apenas decidir se deseja mesmo (pois precisa) dominar o conhecimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico pondo-o a servi\u00e7o de seu desenvolvimento e de sua soberania.<\/p>\n<p align=\"left\">Al\u00e9m de haver aderido, em 1997, ao Tratado de N\u00e3o-Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares (TNP), unilateralmente, ou seja, sem negociar, isto \u00e9, sem cobrar contrapartidas, como, por exemplo, transfer\u00eancia de tecnologia, ou, a redu\u00e7\u00e3o dos estoques das pot\u00eancias nucleares e guerreiras (EUA \u00e0 frente), o Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo a determinar, em sua Constitui\u00e7\u00e3o (art.21, XXIII, a) que \u00abtoda atividade nuclear em territ\u00f3rio nacional somente ser\u00e1 admitida para fins pac\u00edficos\u00bb e, igualmente, \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo que permite inspe\u00e7\u00f5es em suas instala\u00e7\u00f5es militares. E o \u00fanico submetido a inspe\u00e7\u00f5es de duas ag\u00eancias internacionais, a Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (AIEA), e a Ag\u00eancia Brasileiro-Argentina de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC).<\/p>\n<p align=\"left\">O pa\u00eds recebe anualmente cerca de 50 inspe\u00e7\u00f5es anunciadas e seis inspe\u00e7\u00f5es n\u00e3o anunciadas, isto \u00e9, de surpresa, sem programa\u00e7\u00e3o pr\u00e9via, em suas instala\u00e7\u00f5es nucleares.<\/p>\n<p align=\"left\">Quando foi levantado o pleito da AIEA com vistas \u00e0 assinatura de um novo Acordo de Salvaguardas, a posi\u00e7\u00e3o brasileira foi a de assegurar, \u00e0s Ag\u00eancias, a aplica\u00e7\u00e3o de um controle efetivo do material nuclear utilizado, ao mesmo tempo que defend\u00edamos outras quest\u00f5es como desarmamento e, principalmente, nosso acesso \u00e0s conquistas tecnol\u00f3gicas, al\u00e9m de igualdade de condi\u00e7\u00f5es entre os signat\u00e1rios.<\/p>\n<p align=\"left\">\u00c9 querer muito? N\u00e3o. O diferencial \u00e9 que esses devem ser os termos de discuss\u00e3o de um pa\u00eds preocupado em preservar seus interesses, para continuar soberano.<\/p>\n<p align=\"left\">\u00c9 oportuno lembrar que o programa nuclear brasileiro n\u00e3o se reduz \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de combust\u00edvel. S\u00e3o not\u00e1veis suas aplica\u00e7\u00f5es na \u00e1rea m\u00e9dica, seja com vistas a diagn\u00f3stico, seja com vistas \u00e0 terapia (radioterapia e braquiterapia, biotecnologia, irradia\u00e7\u00e3o de materiais biol\u00f3gicos); no meio ambiente, na ind\u00fastria, na agricultura e irradia\u00e7\u00e3o de alimentos, nas ind\u00fastrias do petr\u00f3leo e do papel e na siderurgia, no beneficiamento de gemas, esteriliza\u00e7\u00e3o de materiais e no melhoramento gen\u00e9tico e controle de pragas, nas \u00e1reas de materiais, processos f\u00edsicos, qu\u00edmicos e tecnologia de suporte.<\/p>\n<p align=\"left\">E, por fim, \u00e9 fundamental o aproveitamento do ur\u00e2nio para a gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, como fonte complementar \u00e0s hidrel\u00e9tricas e em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s fontes f\u00f3sseis (petr\u00f3leo e carv\u00e3o), caras e poluentes. At\u00e9 porque as hidrel\u00e9tricas, independentemente das delimita\u00e7\u00f5es impostas pelo regime das chuvas (acabamos de viver amea\u00e7as de &#8216;apag\u00f5es&#8217;), enfrentam crescentes restri\u00e7\u00f5es ambientais as quais, por exemplo, est\u00e3o determinando hidrel\u00e9tricas a fio d&#8217;\u00e1gua, isto \u00e9, sem reservat\u00f3rios, donde a necessidade de o Estado investir em alternativas.<\/p>\n<p align=\"left\">Trata-se, portanto, o nuclear, de programa estrat\u00e9gico, que decide hoje o futuro do pa\u00eds.<\/p>\n<p align=\"left\"><em>* O autor \u00e9 cientista pol\u00edtico e ex-ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia (2003-2004).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil, considerando apenas a \u00e1rea at\u00e9 aqui prospectada, \u00e9 o sexto pa\u00eds em reservas de ur\u00e2nio em todo o mundo. Esta reserva \u00e9 suficiente para manter em funcionamento as atuais usinas Angra I e Angra II, e a futura Angra III e mais quatro novas usinas de 1000 MW cada, por cerca de 100 &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":24,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[36],"tags":[],"class_list":["post-712","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/712","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/24"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=712"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/712\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=712"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=712"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/msiainforma.org\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=712"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}